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Quem conhece não esquece jamais


Por GUSTAVO PENNA

14/06/2015 às 04h00

 Thiago Medina e Helder Souza   descem o Morro do Cristo (MARCELO RIBEIRO/08-06-15)

Thiago Medina e Helder Souza descem o Morro do Cristo (MARCELO RIBEIRO/08-06-15)

Eu gosto da sensação de estar em contato com a natureza, nessa paisagem. Do alto, ver a cidade ou uma cachoeira. A gente já vive uma vida tão apertada no trabalho. Estar aqui é prazeroso.” Contemplando Juiz de Fora desde o Morro do Imperador, a quase 300m de altura, Lais Pinheiro, 25 anos, relembra os sete anos que convive com o prazer do ar livre e a adrenalina dos esportes radicais. Assim como ela, um grupo crescente de juiz-foranos tem descoberto as emoções do montanhismo.

Aliando rapel, caminhada em mata fechada e escalada, a prática esportiva tem terreno fértil para se desenvolver em Juiz de Fora. A cidade concentra mais de 200 vias de escalada, a grande maioria desconhecida da população. Mas quem conhece, não esquece jamais. E assim aconteceu com Lais. A professora de biologia se apaixonou pelo esporte e trouxe a sala de aula para o montanhismo, levando grupos de alunos até as trilhas e, com alguns deles, praticando o rapel. Crianças penduradas a dezenas de metros de altura. Uma cena que quebra o mito de um perigo inerente ao montanhismo.

Quebrar o preconceito tem sido o objetivo de Thiago Medina e Helder Souza. Amigos unidos pelo esporte, a dupla resolveu se profissionalizar e lançou a ERA, Esportes Radicais de Aventura, centro de instrução esportiva especializado em montanhismo. “Existe um mito para quem não conhece o montanhismo: o praticante está sempre pronto para morrer. Existe uma série de procedimentos de segurança que resguarda a vida do praticante. É muito seguro. Só tem que confiar e aprender do modo correto”, afirma Thiago Medina, profissional desde 2008.

Opinião semelhante tem o sócio Helder Souza, que acredita ter mais segurança no montanhismo do que em outras modalidades esportivas tradicionais. “No futebol, é outra pessoa que pode te machucar. No montanhismo, o seu limite de escalada você consegue identificar. É a sua zona de risco. É muito difícil se machucar na escalada, pela quantidade de equipamentos de proteção. Quase não há acidentes em escaladas.”

 

Confiança

Além dos diversos equipamentos de proteção, outro fator garante a segurança e, ao mesmo tempo, é um dos pontos altos do esporte. “É uma prática que envolve confiança. Sempre a escalada é com um amigo. Você sempre tem que estar preocupado com quem está com você. A minha segurança depende do meu parceiro. A escalada une muito mais as pessoas do que qualquer outro esporte. É outro tipo de companheirismo”, diz Medina.

Vencido o medo, o iniciante no montanhismo passa a ter relação íntima com a natureza. O distanciamento da vida urbana e o alívio do estresse são qualidades apontadas pelos praticantes, que acabam contribuindo nas atividades cotidianas. “Quem leva o montanhismo para o seu dia a dia faz muito bem. Você fica mais concentrado, consegue ter mais discernimento de objetivos, desafios. Trabalha a sensibilidade, autoestima, movimento corporal. Quando faz uma grande escalada, ao final do dia você está acabado, mas em uma felicidade grande. Você foi um herói de você mesmo. Superou seu desafio, seu medo e os obstáculos físico e mental”, destaca Medina.

 

Primeiros passos

Para quem quer começar no montanhismo, o investimento com os equipamentos básicos fica em R$ 1 mil, aproximadamente. Medina projeta um número de aproximadamente 60 praticantes constantes em Juiz de Fora. “Falta hoje na nossa cidade o escalador, o praticante. São mais de 200 vias de escalada. Locais fáceis de chegar, alguns localizados bem no centro da cidade, sem risco de assalto, como acontece em muitos lugares do Rio de Janeiro, por exemplo. Tem um rapel muito fácil de fazer no Morro do Cristo. É igual à escalada. Tem lugares na cidade onde os grampos estão de dois em dois metros. Você está sempre muito protegido.”