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Na orelha da bola


Por WENDELL GUIDUCCI

14/03/2013 às 07h00

Francisco, aquele argentino

Parecia jogo de Copa do Mundo. Não jogo eliminatório, mas um joguinho de primeira fase, porque não era feriado nem nada. Eu ziguezagueava pelas calçadas do Centro, a correria e o calor sacana lembrando meus tempos de office-boy na caliente Cidade Carinho, numa dessas quartas-feiras ordinárias que você tira para resolver pendengas civis de toda ordem. Foi lá na parte baixa-baixa da Marechal que vi um cidadão meter o pescoço pra fora da loja e perguntar pro vizinho:

– Tem internet aí? Saiu o novo Papa. Só que ainda não falaram quem é.

Na minha pressa de cobrador de armazém de madeira correndo fábricas de fundo de quintal, não consegui pegar o resto da conversa – ajuda o fato de eu estar meio surdo de um dos ouvidos. Segui caminho a passos largos, com aquela destreza que só os afobados que adotaram Juiz de Fora desenvolvem, desviando de aposentados, bancas de óculos de R$ 5, bocas-abertas variados e outros corredores experientes.

Com o suor descendo da calva e represando nas sobrancelhas, alcancei a Batista e daí comecei a ver os montinhos de gente nas portas das lojas de eletrodomésticos. Em vez de um México x Itália, as TVs anunciadas em até 24 parcelas mostravam a imagem de uma fumacinha branca subindo de uma chaminé sem graça. Mas àquela altura ninguém sabia de onde vinha o homem. Acho que pude ouvir uns três ou quatro Será que é o brasileiro? até chegar ao Granbery, mas, como disse, não dá pra confiar na minha audição.

Só quando cheguei ao São Mateus, antes do dilúvio, cruzei um amigo que me disse: Viu lá que o Papa é argentino?. Juro por Deus que não tenho nada contra argentinos, nunca fui a Buenos Aires e os poucos hermanos que conheci jamais me destrataram, mas pulou da minha boca: Pô, mas logo argentino?. O tsunami de piadinhas que se seguiu ao anúncio oficial do Papa Francisco só fez confirmar essa rivalidade já inata, porém saudável, entre nós e eles.

De volta ao Granbery, enquanto eu saltava sem sucesso a enxurrada caudalosa na porta do colégio, rodeado de crianças em seus uniformes azuis e amarelos respingados do toró, encontrei o reconfortante pensamento de que essa implicância recíproca e fanfarrona só é possível porque surgiu no campo de jogo, não no campo de batalha. No fim das contas, ainda bem que tudo redunda em futebol por estas bandas do vasto Novo Mundo.