Fotógrafo de Juiz de Fora relembra cinco Copas do Mundo e registros de Pelé, Maradona, Messi e Cristiano Ronaldo
Benito Maddalena soma quase quatro décadas de carreira, relembra bastidores dos Mundiais e conta histórias de encontros com Nelson Mandela, torcedores e personagens
Ele tem 71 anos, mas a energia para estar nos maiores palcos do futebol mundial segue intensa. O juiz-forano Benito Maddalena é fotógrafo desde 1989, quando fez a primeira cobertura internacional — a Copa América daquele ano, com Maradona em campo. “Foi o pontapé inicial da minha carreira na fotografia. Daí eu não parei mais”, conta. De lá para cá, foram cinco Copas do Mundo: Itália 1990, Estados Unidos 1994, França 1998, África do Sul 2010 e Brasil 2014. Também chegou a ser credenciado pela FIFA nas duas últimas – Catar e a atual, com Estados Unidos, México e Canadá. Mas as cinco que ele esteve em campo, dessas ele não esquece nenhuma.
Formado em jornalismo pela Estácio e com pós-graduação em Cinema, TV e Mídias Digitais pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Benito é uma das maiores referências em fotografia esportiva no estado. “Tem que abraçar a profissão com amor e dedicação. Sempre pense grande, seja qual for a carreira que você abraçar“, ensina.

A Itália e o ídolo
A primeira Copa foi a de 1990, na Itália. Não só pela realização do sonho, mas pelo que viu dentro e fora de campo. “Foi todo um procedimento muito difícil de fazer para conseguir a credencial”, lembra.
O fotógrafo, filho de pais italianos, conta que, na eliminação da Itália para a Argentina nos pênaltis, em Nápoles, os napolitanos torceram contra a própria seleção. O motivo? Maradona, ídolo máximo do Napoli – e também de Benito – estava do outro lado.
Tem uma frase lá: ‘Primo Dio, dopo Maradona’. Primeiro Deus, depois o Maradona”, conta Benito, que anos depois voltou a Nápoles, em 2005, e doou uma foto ao Museu do Maradona.
94, 98 e os craques de cada era
Em 1994, nos Estados Unidos, Benito viu o Brasil ser tetra campeão, com Baggio perdendo pênalti. O coração ficou dividido entre Itália e Brasil. “Foram momentos emocionantes. O pênalti é uma loteria. Você está ali, a adrenalina sobe. É uma coisa indescritível”, destaca.
Já a Copa de 1998, na França, teve um gosto agridoce. “O Ronaldinho Fenômeno teve aquele problema, passou mal, aquele negócio todo. Estou lendo um livro sobre isso”, comenta. Para Benito, o excesso de confiança prejudicou o Brasil. “Tudo é jogado no campo. O futebol não permite excesso de confiança“, aponta o fotógrafo.

África do Sul: o encontro com Mandela
A segunda Copa que ele mais carrega no peito é a de 2010, na África do Sul.
“Pelo tratamento que eu tive, pelo carinho. Tive a oportunidade de fotografar o Nelson Mandela. Visitei o Museu do Apartheid, o Museu do Mandela. A Copa do Mundo não é só futebol, você tem que aproveitar os momentos que está vivendo”, defende.
Mas a história que ele conta com mais emoção é a de um encontro improvável: Depois de uma FanFest em Joanesburgo, Benito se viu perdido, sem saber como voltar ao hostel onde estava hospedado. Foi quando um senhor, com a esposa, se ofereceu para levá-lo.
“Ele viu que eu estava meio aflito. Simplesinho, em um carrão. Me levou no hostel, falou com os meninos lá: ‘Estou trazendo o Benito'”, recorda.
O gesto virou amizade. O senhor o convidou para um churrasco. Benito não pôde ir – tinha cobertura do treino da Seleção Brasileira. Dias depois, um amigo contou: o homem era um dos maiores mineradores da África do Sul.
“Até hoje recebo e-mails dos caras de lá. Você vê que a Copa não se resume ao futebol. Não é toda hora que você pode fazer uma Copa do Mundo”, reforça.
O 7 a 1
A Copa de 2014, no Brasil, teve um gosto amargo. Benito estava lá para testemunhar a histórica goleada de 7 a 1 da Alemanha sobre o Brasil, na semifinal.
“Aquele dali, para falar particularmente, era para ser 12 ou mais. Eu nunca vi coisa igual“, dispara.
Cobriu também a abertura contra a Croácia, na Arena Corinthians. Mas, para ele, o mais marcante veio depois. Ao final do torneio, foi até Santo André, onde a seleção alemã ficou concentrada. Um porteiro – brasileiro que falava alemão – mostrou os aposentos: o quarto de Schweinsteiger, o de Neuer.
“Os caras vieram pra ganhar a Copa do Mundo. Tudo estratégico. Tudo o que aconteceu nos bastidores foi muito estruturado”, reflete.

Os craques que eternizou nas Copas
Dos jogadores que fotografou, Benito faz questão de citar vários. “Sou fã de carteirinha do Maradona. Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Fenômeno, Romário – cada um tem um perfil. O Zico, o Messi, o Cristiano Ronaldo”, elenca.
O encontro com Pelé foi no elevador do Maracanã.
“Chamei de Edson: ‘Edson, mais uma vez sucesso pra você’. Na época não tinha nem celular. São momentos que você nunca mais esquece”, argumenta.
Já com Ronaldinho Gaúcho, o carinho é especial – o craque, para ele, é um dos mais ‘gente boa’ que já fotografou, inclusive fora de Copas, em Libertadores.
Benito lembra também de uma foto recente de Thiago Silva, zagueiro do Fluminense, que fez gol contra o Bahia e comemorou no bandeirinha de escanteio.
“Você tem que estar com a lente curta, senão corta a imagem. Ele levantou a mão com a camisa”, explica.
“Tem que abraçar a fotografia”
Benito não se limita a tirar fotos. Leva portfólios, troca camisas com torcedores do mundo inteiro, visita estádios históricos.
“A fotografia transporta para vários lugares do mundo e ela não perde o encantamento. Seja analógica ou digital, você tem que abraçar a fotografia com muito amor e dedicação, porque ela te leva a conhecer lugares inimagináveis, pessoas, momentos da sua vida que se tornam inesquecíveis”, reflete.
Para quem pretende seguir a carreira, o conselho é simples e direto: “Pense grande. E abrace a profissão com amor. O resto vem“.
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