Nada no balaio
Talvez pela descendência ibérica ou mesmo pelo calor dos trópicos, há, por aqui, um apego gratuito aos tipos mais simplórios, aos sem eira nem beira. Invariavelmente somos eternos entusiastas de Davi no seu confronto com Golias. Ninguém, por exemplo, torce para que Cruzeiro ou Atlético vença o Campeonato Mineiro. O inusitado, o divertido, o prazeroso é ver um dos pequenos triunfar em Minas.
Com a memória é a mesma coisa. Desconheço alguém que mencione, de pronto, uma final de Copa do Mundo ou de Libertadores como a melhor partida que tenha visto em toda sua vida. Invariavelmente, aos olhos dos daqui, o melhor jogo, a jogada fantástica, o drible perfeito aconteceram no decorrer de alguma competição, talvez numa quinta-feira, encerrando a rodada do meio de semana.
Um dia estava perdido no Rio de janeiro. Era o ano de 2003. Tinha a vida acadêmica como único compromisso. Sem muita vontade, fui ao Maracanã para o primeiro jogo da final da Copa do Brasil entre Cruzeiro e Flamengo. Foi quando Alex e companhia começaram a ganhar tudo naquele ano. Depois voltei a outros estádios em outras tantas ocasiões, mas nunca mais foi igual.
Hoje, com o Brasil quase relegado à segunda divisão do futebol mundial, com ninguém mais batendo aquele bolão para fazer frente a Messi ou Cristiano Ronaldo, começamos a nos especializar no garimpo dessas situações. Todo programa esportivo que se preze tem um quadro para escolher algo mais bonito do jogo. E, assim, vão desaparecendo os bons comentaristas e as boas análises.
Nos estádios, sem nenhuma esperança quanto à qualidade do futebol, os torcedores cedem aos encantos da bizarria. A estrela é o jogador desajeitado, uma espécie de arremedo de outro de maior quilate (Obina é melhor do que Eto’o). Há quem importe até chinês para jogar aqui. Vale tudo, onde o futebol é o que menos importa.









