Nada no balaio
Lavar a alma
Gosto do filme Cinema Paradiso. É uma estupenda declaração de amor ao cinema. Mas quero me deter às referências de Giuseppe Tornatore à memória. Quando Salvatore, ainda chamado de Totó, retorna do serviço militar, apenas um cachorro vai recepcioná-lo na porta do ônibus. A solidão é reflexo da ruptura feita, quando o passado tão recente deixa de fazer sentido. A pequena Giancaldo não é mais a mesma. Ao personagem, só resta partir.
Quando, décadas mais tarde, Salvatore retorna para o velório do projecionista Alfredo, o tempo é de ressurreição. Por fazer sentido, o passado não assusta mais. Observando as pessoas mais velhas, os prédios antigos e outros resquícios do passado, Salvatore se reconhece como Totó. A felicidade voltou. Contam que Tancredo Neves, de tempos em tempos, tinha uma necessidade terrível de voltar a São João Del Rei. É para lavar a alma, justificava.
Pena Juiz de Fora não ser tombada como São João Del Rei. Talvez por isso, vira e mexe, amanhecemos sem um colégio, um cinema ou um casarão antigos. No lugar, aparecem pequenas lojas frias de vidro. Contam que é isso que deve ocorrer agora com o campo do Sport Club Juiz de Fora. Querem acabar com o gramado, por ora, pela necessidade de arrecadação. Mesmo as arquibancadas, tombadas pelo patrimônio, estão ameaçadas.
Não faz muito tempo, parte do Tupi não sobreviveu à ganância do mercado imobiliário. Havia um passivo a ser pago e foi. Pelo menos em campo, pouca coisa mudou no Carijó. O time segue sem recursos e sem patrocinadores. A contar pelo andar da carruagem, dificilmente, o clube vai escapar de uma nova dívida que deve gerar a alienação de outra parte. E assim, aos poucos, não só o futebol juiz-forano, mas também a sua memória, vão desaparecendo.
Os nativos de Juiz de Fora falam de uma relação estranha da cidade com aqueles que aportam por aqui. Os de fora, como dizem, seriam mais valorizados. Na condição de forasteiro tão bem acolhido, posso atestar pelo menos parte da afirmativa. Quanto aos daqui, como os meus filhos, penso que a cidade deveria mesmo ser mais generosa com eles, ao menos no que diz respeito à memória. Talvez os juiz-foranos, com certidão de nascimento, necessitem de símbolos passados para se reconhecerem, de um lugar para lavar a alma.









