Desempenho a qualquer preço

O banimento do ciclista norte-americano Lance Armstrong, um dos maiores ídolos do esporte mundial, por participar de um intrincado esquema de doping, jogou mais uma vez luz sobre o tema. O que não faltam são exemplos de atletas, no Brasil e no exterior, que tentam conseguir ganho de performance lançando mão de substâncias ilícitas.
Paralelamente, o que se vê é um esforço das autoridades e entidades mundo afora para tentar minimizar os impactos nocivos que campeões dopados fazem às mais diversas modalidades. No Brasil, acaba de ser concluída, no último fim de semana, a primeira série de testes da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD), criada no fim do ano passado como instrumento do país para identificar e punir atletas que usam substâncias ilegais na busca pelas vagas de direito da sede das próximas Olimpíadas.
Mas há uma turma que não entra no radar dos grandes eventos e muito menos está perto de representar o país nos Jogos Olímpicos e, mesmo assim, tenta de todas as maneiras melhorar seu desempenho na base da filosofia do vale tudo. Muitos atletas integrantes da faixa que compete sem possibilidades de alcançar os primeiros lugares vai desde o uso de suplementos legalizados, mas sem orientação, até o doping propriamente dito. Sem nem mesmo conseguir a projeção dos atletas de ponta, essas pessoas arriscam sua saúde em níveis iguais ou muito piores do que aqueles que sistematizam o uso de substâncias proibidas para vencer.
Questão de ego
Para entender o que leva o atleta a recorrer ao doping, é preciso compreender o que move essa pessoa. "Considerando a motivação dos indivíduos sendo algo que os impulsiona a atingir um objetivo, podemos dividi-los em dois grupos. O primeiro é o motivado para a tarefa. Para ele, executar bem essa tarefa, independente do resultado, é o que conta. Já o segundo, que é voltado para o ego, é quem vai buscar fora de suas próprias condições a evolução. O importante para ele é ganhar a qualquer preço. Precisa parecer melhor do que realmente é. Sem a colocação final, sem o resultado, ele não sente motivação", explica o mestre em educação física e estudioso da psicologia do esporte, Danilo Reis, também integrante da comissão técnica do time de vôlei da UFJF.
Segundo Reis, entre profissionais e a turma do chamado esporte de participação existem diferenças óbvias, mas o ponto principal na determinação de quem acaba recorrendo à trapaça se resume ao tipo de motivação. "Claro que o profissional do esporte tem outras pressões, como patrocínio, resultado e até de ganhar uma premiação. Mas o centro da questão é mesmo como o indivíduo se motiva. Quando ele é voltado para a tarefa, diante do obstáculo, do desafio, ele se sente compelido a treinar mais, se superar, até conhecer o seu limite. Já o indivíduo focado em seu ego busca a maneira mais fácil de transpor essa barreira."
Desempenho desproporcional
Um dos organizadores do Ranking de Corridas de Rua de Juiz de Fora e técnico de atletismo, Marcus Vinícius Silva já passou por uma situação delicada com um de seus comandados. "Era um atleta para o qual eu prescrevia treinos, mas não me disse que havia tomado nada. Não corria entre os 60 primeiros e, em uma prova, entrou no top 30. Acabei descobrindo que ele havia tomado algo ilegal. É como mágica mesmo, a evolução no desempenho é absurda. Com o conhecimento do atleta, do dia a dia, dá para os técnicos notarem", acredita.
Segundo o triatleta e coordenador da consultoria esportiva Vidativa, Lucas Leite, no passado, quando ele se dedicava à natação, esse tipo de caso era até comum. "Na minha adolescência, quando viajávamos para competições, era fácil notar quem buscava essas práticas. Eram atletas que se isolavam antes, durante ou mesmo depois do treino e, quando já estávamos extenuados da atividade, sempre queriam mais. Hoje, nas competições a que vou, tem sempre alguém que em uma temporada não fica nem entre os 30 primeiros e, no ano seguinte, ganha uma prova. Depois, desaparece. Pode estar certo, esse usou alguma coisa."
Para Reis, o ganho rápido de desempenho é mesmo a maior evidência de doping, mas há como notar outros aspectos nos atletas. "Não há como um esportista dar um salto de performance muito grande em um curto espaço de tempo, seja em qual nível for. A conquista de uma boa preparação demora tempo e requer ajustes finos quando o praticante chega perto de seu limite. Trabalhei uma vez com um atleta que, em um curto espaço de tempo, evoluiu muito nos treinos. Perguntava para ele o que havia tomado, e ele não respondia. Acabou se isolando, sempre desconfiado, mostrando que realmente estava utilizando algo. Dá para perceber. Se a curva de desempenho não para de ascender, é sinal de que algo fora do normal a está puxando para cima", explica Danilo.
Praticantes de longa data de modalidades que exigem bastante lamentam que a busca por desempenho, que deveria ser natural, venha se contaminando. "O doping é uma realidade, e não só em atletas de elite. Sabemos que isso rola com amadores também. A ITF (entidade internacional que regula as disputas de triathlon) já começou a testar os amadores em grande eventos. Esse ano, o vencedor do Iroman internacional na faixa de 50 anos foi pego no antidoping. É lamentável. Esporte foi feito para ser praticado como a gente é", defende o triatleta Marcos Hallack.
Suplementação, só com orientação
Não é só o doping que chama a atenção na busca dos amadores por um desempenho acima de suas capacidades. Nessa linha, alguns suplementos alimentares prometem milagres e são indicados e comercializados sem preocupação com os amadores que os consumirão.
"Minha crítica e questionamento é para os profissionais – pelo menos assim eles se julgam – de educação física que receitam suplementos", protesta Hallack. "Não sou contra a suplementação, acredito que há modalidades que necessitam dela, mas não pode ser da forma como é feito, principalmente nas academias.
O estabelecimento desta ação deve ser feito por um profissional qualificado, como um nutricionista, um endocrinologista, um nutrólogo. Até porque, o que serve para mim não serve para você."









