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Alegria nas pernas


Por Tribuna

04/10/2015 às 07h00

Gabriel

Gabriel “Negueba” Gomez, 8 anos, mostra seu talento no terrão (Leonardo Costa/29-09-15)

O campo de terra tem os limites irregulares. As pedras, que volta e meia teimam em surgir onde menos se espera, são pontiagudos obstáculos para os pequenos pés descalços. Mesmo assim, nada tira a alegria da meninada do Bairro Vale Verde quando a bola começa a rolar no projeto “Fotofut”, que alia fotografia e futebol. Um trabalho social que há dois anos serve como exemplo de dignidade para as crianças que vivem no local.

“Passamos as funções de um jogador, principalmente na interação e na disciplina. Colocamos para apitar, passamos vídeos sobre futebol. Quem não está jogando usa câmeras fotográficas para registrar as partidas. Em paralelo a esse projeto, estamos conseguindo encaminhar alguns meninos para escolinhas pagas, baseados no desempenho e na postura deles. Parceiros ajudam a bancar”, diz Sérgio Almeida, treinador e responsável pelo Fotofut, uma das oficinas mais procuradas pelas crianças do Mutirão da Meninada do Vale Verde, trabalho social que funciona há 21 anos, desde a criação do bairro.

São 50 crianças atendidas pelo projeto, que oferece também oficinas de escultura, capoeira, circo e clube de leitura. Um trabalho que se confunde com a história profissional da professora de filosofia da UFJF Maria Helena Vasconcellos, 73 anos. Em 1993, quando se mudou para Juiz de Fora, iniciou um projeto de extensão que hoje ultrapassa os limites da universidade, recebendo parte da sustentação financeira através da Lei Municipal Murilo Mendes de Incentivo à Cultura.

“Aqui são as crianças que fazem a inscrição, assumindo responsabilidades. Eles têm direito a três faltas justificadas. A justificativa precisa ser feita em frente a todos os colegas. Se alguém mentir, paciência. Acreditamos na palavra deles. Nosso objetivo é que as crianças saibam que são dignos de respeito e capazes de se inserir na sociedade”, destaca Maria Helena Vasconcellos.

‘Molequinhos’

O impacto positivo do trabalho foi sentido na pele por William Leandro. Aos 20 anos, já não está na faixa etária contemplada pelo projeto, mas guarda com carinho as experiências e hoje retribui auxiliando o andamento das oficinas. “Comecei no Mutirão em 2004, mas tive que sair esse ano. Agora é mais para os molequinhos, né? O projeto me ajudou muito na escola. As notas melhoraram, me ensinaram português, matemática. Participei do futebol desde o primeiro dia. Hoje me sinto um pouco responsável pelos meninos. Quando tem um jogo fora, eu passo de mãe em mãe perguntando se os garotos podem ir. Às vezes não consigo ajudar, porque também tenho um menino para cuidar, vai fazer nove meses. Daqui a pouco vai estar aqui, no meio da galera”, diz William, lamentando o estado precário do campo comunitário.

“Seria bom se arrumassem. Muito meninos se machucam. Tinha que cercar também. Falaram que iam fazer uma quadra aqui em cima, mas não andou. Poderiam aproveitar o espaço para fazer duas, uma para os grandes e outra para os pequenos. Tem muito tempo que prometeram.”

‘Vou passar na televisão e você vai me ver’

Entre os integrantes da Meninada está Gabriel Gomez, de 8 anos. Com o apelido de Negueba, não é difícil imaginar o que deixa-o mais animado. Franzino como o ex-atacante do Flamengo, o garoto tem aprendido valores que vão além da habilidade com a bola nos pés. “Comecei no projeto há dez meses. Aprendi muita coisa legal aqui. Aprendi a não ‘fomear’, tocar a bola, a não gritar. Fiquei mais calmo. Estou estudando muito. Quero ser jogador de futebol. Vai ser fácil”, afirma Gabriel, otimista sobre o futuro no futebol.

Apesar do esporte ser o foco principal, o verdadeiro objetivo da oficina é levar valores que fiquem para sempre na vida das crianças. “Notamos a diferença na disciplina e na interação. Muitas crianças têm problemas familiares, timidez, hiperatividade. Eles evoluem com isso. Regra, disciplina, cobranças… acho que, pelo fato de trabalharmos com um esporte que eles gostam, a aceitação é muito maior”, afirma Sérgio Almeida, que usa a evolução de Gabriel como exemplo. “Falo com os garotos, ‘vocês vão lidar com muita gente que tem postura de atleta, então precisam ter essa postura’. Ajuda o fato de estarem saindo um pouco mais do bairro, vivenciando outros projetos, onde outros meninos têm rotinas diferentes. A gente tenta passar que a disciplina aqui é tão importante quanto ter disciplina na escola, em casa, na rua.”

A mudança de postura de Negueba é sentida também dentro de casa. “O Gabriel adora o projeto. Fica ocupado com uma coisa que gosta, com pessoas em quem eu confio. O projeto o deixou mais tranquilo, está indo bem na escola, mas prefere a bola. Diz que esse vai ser o futuro dele. Eu brinco com o Gabriel que ele está me dando muito gasto, e ele diz ‘não, isso é um investimento que você está fazendo, depois vou te devolver tudo, vou passar na televisão e você vai me ver’. Se ele continuar com esse entusiasmo, vai longe”, aposta Eliane Gomez, mãe de Gabriel e outros três filhos.