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Gigantes num mundo feito para ‘baixinhos’

Em Juiz de Fora, jovens atletas que superam (e muito) a média de estatura no país de 1,73m para homens e 1,60m para mulheres contam as “dores e delícias” de serem muito altos


Por Fabiane Almeida, estagiária sob supervisão da editora Carla da Hora

03/03/2019 às 06h24- Atualizada 03/03/2019 às 21h41

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“Como sou muito nova, ou consigo roupas mais adultas ou as roupas ficam muito curtas. E foi a partir desse ano que começaram a abrir lojas de sapatos que cabem no padrão da minha família”, diz Emilly Vitória Bonifácio, de 16 anos e 1,90m (Foto: Fernando Priamo)

Eles chamam a atenção por onde passam. E não é para menos. Num país em que a altura média dos homens é 1,73m e das mulheres, 1,60m, jovens atletas que passam da casa dos 1,90m não são só alvo de curiosidade. Eles enfrentam desafios em ambientes pensados para pessoas “comuns”, e relatam dificuldades na hora de se locomover, se vestir, dormir, caminhar e adaptações para desempenhar situações simples do dia-a-dia, apesar de a altura ser um trunfo na prática de esportes como vôlei e basquete.

Este é o caso de Kaio Henrique, 16 anos e 2,02m de altura; Gabriel Tosin, 21 anos e 2,10m e Emilly Vitória Bonifácio, 16 anos e 1,90m. Kaio, que nasceu em Santos Dumont e veio para Juiz de Fora no início de 2018, diz que não foi fácil aceitar sua estatura e passou a infância sendo perturbado por outras crianças que faziam piadas de mau gosto. A aceitação veio alguns anos depois, quando começou a jogar basquete, e hoje integra a equipe do JF Celtics.

“Antes de ficar mais velho e ter mais maturidade eu não gostava de ser alto. Com o basquete, parei de me importar com o que os outros falavam e as brincadeiras bobas, comecei a focar no esporte e a gostar”.

Seu sonho é seguir carreira profissional no esporte dos gigantes e atuar na equipe americana Milwaukee Bucks, disputando a NBA ao lado do grego 01Giannis Antetokounmpo, de 2,11m de altura. “Gosto do jeito que ele joga, porque ele usa muito a altura como vantagem, além de ser muito bom”, avalia o jovem.

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“Antes de ficar mais velho e ter mais maturidade eu não gostava de ser alto. Com o basquete, parei de me importar com o que os outros falavam e as brincadeiras bobas, comecei a focar no esporte e a gostar”, explia Kaio Henrique, de 16 anos e 2,02m (Foto: Fernando Priamo)

O atleta é o mais alto da família, não superando apenas o tio materno, com poucos centímetros de diferença. Quando criança, acreditava que seguiria o padrão mais baixo da genética paterna, mas se surpreendeu aos 10 anos quando ultrapassou os amigos mais velhos. “Desde os dez anos, eu já era mais alto que a maioria das crianças. Andava sempre com os amigos para ir para a escola e comecei a perceber que passei a crescer demais e eles não. Foi até engraçado, porque eu costumava ser o menor (do grupo).”

Com a possibilidade de crescer por mais alguns anos, Kaio conta que já foi parado na rua por desconhecidos que fazem apostas sobre sua altura futura. “Pessoas mais velhas me param para perguntar minha altura e a idade. Acho legal, engraçado. Tem gente que fala que vou crescer até 2,15m ou 2,20m, mas acho exagero”, relata.

Para se deslocar, Kaio comenta que encontra dificuldades no transporte público. “No ônibus, às vezes atrapalha muito quando estou sentado, então prefiro ficar em pé (apesar de sua cabeça quase encostar no teto)”, destaca.

Preconceito com quem foge aos padrões

Para Gabriel Tosin, o preconceito ainda persiste na sociedade quando alguém não se encaixa nos padrões a que estão acostumados, seja qual característica for. “Sendo muito alto ou muito baixo gera um pouco de brincadeira inapropriada que pode afetar direta ou indiretamente qualquer um. Eu passo diariamente por todos esses tipos de situações, mas a gente acaba aprendendo a lidar”, comenta o atleta, que ao lado dos colegas do JF Vôlei atrai olhares por onde passa.

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“Sendo muito alto ou muito baixo gera um pouco de brincadeira inapropriada. Eu passo diariamente por todos esses tipos de situações, mas a gente acaba aprendendo a lidar”, conta Gabriel Tosin, que, aos 21 anos, tem 2,10m (Foto?: Fernando Priamo)

Integrante da equipe local na temporada 2018/2019 da Superliga B, Tosin também viu sua altura se apresentar como característica logo cedo. Filho de pais altos, porém, desde novo enxergou a estatura como um privilégio. “Graças à minha altura posso seguir com a minha profissão de atleta”. Natural de Marília, interior de São Paulo, aos 13 anos de idade o jogador saiu de casa para treinar no SESI, na capital paulista. De lá, participou de campeonatos na categoria de base e foi convocado para a Seleção Brasileira Juvenil e Seleção Paulista. Hoje, com 2,10m, o atleta combinou porte e habilidade e atua pela primeira vez na categoria adulta defendendo o time juiz-forano.

Para ir treinar, ele conta que não usa carro adaptado. “Eu é que acabei me adaptando (risos). Fica meio apertado, porém para tudo damos um jeitinho, assim como tomar banho em chuveiros mais baixos e até mesmo viajar de avião. Daí procuro as saídas de emergência, onde as poltronas têm mais espaço”, relata.

Roupas e sapatos são desafio à parte

Na casa de Emilly, tudo é adaptado ao padrão da família. “A pia, o espelho, as camas são muito grandes, a minha cama tem que ser de casal”, pontua ela. “Mas na casa de outras pessoas, tem que dar aquela abaixadinha básica (para passar pela porta) e me curvar para usar a pia e outras coisas. Desde pequena acabei me adaptando”, comenta. Mas os desafios da altura não se resumem a caber em espaços. Encontrar roupas e sapatos de tamanhos compatíveis e que ainda combinem com o próprio estilo não é nada fácil, mesmo em Juiz de Fora.

“Como sou muito nova, ou consigo roupas mais adultas ou as roupas ficam muito curtas. E foi a partir desse ano que começaram a abrir lojas de sapatos que cabem no padrão da minha família”, diz Emilly, que acredita ser mais fácil encontrar roupas masculinas que femininas em diferentes tamanhos.

Apaixonada por basquete, ela ingressou no JF Celtics há cerca de três anos e, além de se destacar como pivô, já atua na equipe do sub-23 e até ao lado do time masculino por conta do porte físico e dos 1,90m de altura. A juiz-forana acredita haver ainda mais estranhamento quando o assunto é estatura feminina. “Vejo mais homens altos que mulheres, porque a maioria das mulheres é de porte médio ou um pouco mais altas, mas nada como 1,90m. Mesmo no basquete, as meninas com quem convivo são mais baixas”, relata a jovem que, apesar do tamanho, se aventura a usar salto alto, por achar muito bonito e não ter vergonha da própria altura.

Frequentemente em contato com curiosos, Emilly relata que se sente constrangida com a reação das pessoas.

“Onde eu entro todos me encaram, porque tenho as pernas muito grandes. Sou questionada se aproveito para fazer algum esporte e quantos anos tenho, porque sou alta, mas ainda tenho o rosto de menina.”

Apesar dos desafios, os três jovens tem algo em comum: o orgulhoso da própria estatura. E àqueles que se sentem desconfortáveis com o próprio tamanho, Kaio aconselha: “Não é para ligar para isso, porque vai chegar um tempo em que você vai começar a gostar.”