Sinal de alerta para a indústria
Ameaçado pelo fantasma da desindustrialização, o setor industrial na Zona da Mata fechou 2011 amargando perda de vendas e não começou 2012 bem. Em janeiro, apesar de a utilização da capacidade instalada ter crescido, chegando a 85%, e o nível de emprego ter aumentado, as horas trabalhadas caíram, e o faturamento teve retração de 5,82% ante o mesmo mês de 2011 (ver quadro), conforme dados divulgados pela Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) Regional Zona da Mata. A desindustrialização, segundo o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), é a reversão do crescimento e da participação da indústria na produção e na geração de empregos.
No primeiro bimestre, a indústria juiz-forana amargou queda de 26% no recolhimento do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Considerando o desempenho do ano passado em relação a 2010, o município não acompanhou o crescimento industrial verificado no estado (3%) e no país (2,7%) e apresentou queda de 5,22% do faturamento no período. Em janeiro, houve melhora no cenário, com alta de 9,81% na comparação com janeiro do ano passado, mais por conta do escoamento do estoque do que pela superação do arrefecimento industrial, conforme o Centro Industrial.
Estamos produzindo, trabalhando e faturando menos, constata o presidente da Fiemg Regional Zona da Mata, Francisco Campolina. Ele explica que, apesar de as indústrias atuarem com a mesma capacidade de produção verificada no estado, as vendas não têm acompanhado a alta, provocando queda no faturamento em volume maior do que o esperado. A única notícia que nos alegra é que não perdemos empregabilidade. De acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), a indústria de transformação amargou saldo negativo de 90 postos em fevereiro. Mas, com o resultado positivo de 155 vagas em janeiro, no ano houve criação de 68 empregos com carteira assinada.
O economista Antônio Flávio Luca do Nascimento, coordenador do Centro Industrial, enumera fatores que justificam o arrefecimento industrial verificado na cidade e na região: aumento das importações dos produtos chineses, restringindo o consumo interno de itens brasileiros, crise internacional, tributação excessiva, falta de incentivo fiscal, incidência de feriados e restrição ao crédito, além da alta taxa de juros, que só agora começa a ser revista com cortes na Selic para ajustar o consumo.
Para o economista, a perda de faturamento no ano passado é atribuída ao fato de a indústria de transformação ser a base do setor em Juiz de Fora. Minas conseguiu fechar 2011 com saldo positivo em função do bom desempenho do segmento extrativo mineral, avalia. Na opinião de Antônio Flávio, este ano, o crescimento não deverá ser significativo, porque os problemas continuam. Falta investimento, e a indústria fica na cautela. O industrial está com o pé no freio. Para Campolina, se a indústria juiz-forana se recuperar, pode encerrar o ano com crescimento entre 1% e 2%. Não mais do que isso.
Queda de 26% na arrecadação de ICMS
O momento delicado enfrentado pelo segmento pode ser comprovado também na arrecadação do ICMS. Embora o montante recolhido em Juiz de Fora tenha aumentado quase 20% no primeiro bimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2011, chegando a R$ 104,6 milhões, a indústria amargou queda de 26% no recolhimento do imposto em janeiro e fevereiro. Em contrapartida, a receita com as importações cresceram 445%, atingindo a marca de R$ 29,8 milhões.
Para Campolina, a arrecadação provocada pela importação é ilusória, momentânea e sazonal, já que não advém da produção de riqueza na cidade. Quando se arrecada mais com importação do que com produção, há alguma coisa extremamente errada. Enquanto estamos importando, não estamos fabricando. Para minimizar este quadro, o presidente destaca a necessidade de reforma conjuntural no cenário macroeconômico e a concretização de fatores de desenvolvimento local, como início das operações permanentes do centro de distribuição da Fiat na cidade (em fase de negociação de terreno), produção em escala comercial de caminhões pela Mercedes-Benz e inauguração da Codeme, entre outros empreendimentos previstos.
O diretor de Comunicação Corporativa da montadora no país, Mário Laffitte, comenta que não é possível dimensionar quanto a produção da Mercedes vai impactar o setor. Ele espera, no entanto, que o mercado de caminhões (o carro-chefe da planta local) continue aquecido, a exemplo de 2011, apesar de reconhecer a possibilidade de queda entre 5% a 10% nas vendas este ano. Embora tenha anunciado férias coletivas para os trabalhadores da linha de produção entre os dias 2 e 11 de abril, Laffitte garante que o cronograma da fábrica juiz-forana está sendo cumprido. O início da produção de veículos comerciais aconteceu em janeiro. Ao longo das semanas, há o crescimento em complexidade de produtos e velocidade da produção. O volume montado atualmente não foi divulgado. A meta é produzir 15 mil unidades por ano dos modelos Actros e Accelo em Juiz de Fora até 2013. A Codeme também foi procurada, mas não se posicionou sobre o assunto.
Déficit da balança já é de R$ 117 milhões
O desnível na balança comercial juiz-forana, verificado em 2011 e mantido neste início de 2012, também não é um bom sinalizador para a indústria local. Considerando o primeiro bimestre deste ano, o déficit já é 67% maior do que o verificado no mesmo período de 2011. As importações cresceram 50%, e as exportações subiram 10,7%, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (ver quadro).
Para a analista de negócios internacionais da Fiemg, Maria Fernanda Quirino, as importações mais significativas não são de produtos que competem com as grandes indústrias da cidade, mas podem prejudicar pequenas e médias. A maioria não deixa de comprar aqui. Importa matéria-prima como bem de capital para agregar valor e exportar. Maria Fernanda destaca o câmbio favorável à aquisição no exterior, mas lembra que o ideal é que as exportações sempre superem as importações em Juiz de Fora, a exemplo do esperado no país e no mundo. A analista de negócios internacionais também concentra suas apostas nas empresas que começam a atuar na cidade para alavancar as exportações e melhorar o resultado da balança, principalmente a partir de 2013.
As grandes empresas de Juiz de Fora vivem do comércio exterior, considera o economia Antônio Flávio Luca do Nascimento. Ele explica que as exportações da indústria de transformação baseiam-se em commodities, que enfrentam a concorrência com o mercado externo. Segundo o economista, embora a vocação industrial juiz-forana seja a confecção, o setor metalúrgico é o mais forte em termos de faturamento e o que mais reflete esta realidade.
Produtos chineses impactam vestuário
O presidente das Indústrias Metalúrgicas de Juiz de Fora, José Tadeu Filgueiras, identifica processo de desindustrialização desde outubro do ano passado, em função, principalmente, da importação excessiva de produtos chineses. Nesse início de ano, avalia, não houve alteração nesse cenário. Para ele, as perspectivas não são favoráveis. Vejo empresas de Juiz de Fora em situação difícil, comprometendo o desempenho e a permanência das portas abertas. Ele comenta que projetos de expansão de grandes empresas estão em compasso de espera por mudanças nos cenários nacional e internacional. A falta de perspectiva, na sua opinião, é o principal problema, somado a aumento de custos, falta de escoamento de produção e alta carga tributária. A esperança é que, com a acomodação dos juros e as medidas adotadas pelo Governo para incentivar o setor, exista um pouco de alento no terceiro trimestre. Infelizmente, estamos parados.
O presidente do Sindicato das Indústrias do Vestuário em Juiz de Fora, Vandir Domingos, avalia que o segmento enfrenta um momento difícil. Mais uma vez, a entrada de mercadorias chinesas no país de forma violenta, como define, tem impactado diretamente os negócios na cidade. Sobre a possibilidade, cogitada pelo Governo, de aumentar o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) vinculado à importação de confecções, Vandir avalia que a medida já era para ter sido implementada, mas não resolve o problema. Temos que conseguir uma salvaguarda para competirmos em situação de igualdade.
Segundo Vandir, as empresas da cidade estão com mercadoria estocada e não podem interromper a produção, mediante o risco de perder mão de obra especializada. A sobrevivência, explica, está calcada na agilidade de acompanhar o dinamismo da moda, adaptando-se rapidamente à demanda do mercado. Na prática, o consumidor pode até comprar uma calça jeans básica chinesa, mas, para seguir a moda, prefere os lançamentos da cidade ou do país. Ele considera que pode haver melhora se houver uma política protecionista mais agressiva para o setor e a indústria como um todo.









