Novo cenário para investidores
A trajetória de quedas consecutivas da Selic (taxa básica de juros) – que recuou 1,75 pontos percentuais nos últimos cinco meses – tem trazido mudanças no cenário econômico do país, levando investidores a voltarem suas atenções para as aplicações financeiras. O assunto ganhou mais destaque após divulgação da ata da reunião de março do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), com sinalização de que a taxa chegará a 9% ao ano em 2012. O índice se aproxima da menor taxa da história: 8,75% entre julho de 2009 e março de 2010 (ver quadro).
Nesse cenário, fundos de investimento DI (atrelados ao certificado de depósito interbancário – CDI) e de renda fixa mais conservadores, com taxa de administração maior que 1% ao ano, têm tendência a ficarem menos competitivos em relação à poupança em casos de aplicação de curto prazo. Segundo estudo divulgado pela consultoria Economática, junto a 386 fundos DI e de renda fixa disponíveis no mercado, 43% perderam em rentabilidade para a poupança. No estudo, foram considerados fundos não exclusivos, com mais de cem cotistas e pelo menos 12 meses de operação. Considerou-se um retorno bruto para os fundos de investimento equivalente à taxa Selic. Já para a poupança, a simulação foi feita com juro fixo de 6,17%, ou seja, desconsiderando a variação da TR (taxa referencial de juros).
Para o consultor e professor da Fundação Getúlio Vargas e da PUC-SP, Fábio Gallo, esse movimento aponta para a necessidade de se voltar a analisar melhor os investimentos. Segundo ele, a Selic atual e a ata da última semana colocam o mercado em uma situação bastante demarcada. "No caso de uma Selic entre 8,5% e 9%, para fundos de curta duração com taxa de administração superior a 1,5%, já é interessante migrar para a poupança. Isso porque sobre os fundos incidem Imposto de Renda (IR) e a taxa de administração, o que não ocorre com a caderneta." A alíquota de IR para resgate inferior a seis meses é de 22,5%, contra 15% para prazo acima de dois anos.
De acordo com simulação realizada pela Associação Nacional de Executivo de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), conclui-se que, com a Selic atual, a poupança só perde em rentabilidade para os fundos quando a taxa de administração for de até 1% e para aplicações superiores a R$ 50 mil. Segundo o vice-presidente do órgão, Miguel Oliveira, nas projeções realizadas com taxa de administração igual ou superior a 2%, a poupança é mais vantajosa em todos os casos. "As pessoas devem ficar atentas, pois em um cenário de Selic a 9%, por exemplo, a vantagem da poupança sobre os fundos é ainda maior."
Mercado de renda variável mais atraente
Na avaliação do consultor e proprietário da Castanon (associada à XP Investimentos), Luciano Castanon, com a trajetória de queda na Selic, o mercado de renda variável fica mais atraente. "Um é inversamente proporcional ao outro. Quando a taxa de juros cai, aumentam os ganhos na renda variável. Entre outubro do ano passado e hoje, começamos a ter uma recuperação desses investimentos." Porém, em sua corretora, ele diz que ainda está operando com um cenário conservador. "Estamos trabalhando muito com ativos de renda fixa que são atrelados à inflação, como LCI (Letras de Crédito Imobiliário) e CRI (Certificado Recebíveis Imobiliários), todos isentos de IR." Ainda segundo ele, se comparado ao CDI, esses dois ativos têm rentabilidade superior. Em simulação feita por Castanon entre CDI, renda fixa pré-fixada (Letras do Tesouro Nacional) e renda fixa pós-fixado (Selic), a poupança perde de todos e só se aproxima da renda fixa (pós-fixado).
Ele exemplifica que, se um investidor deixar R$ 5 mil aplicados em um período de um ano (levando-se em conta alíquota de IR de 20% e as atuais condições do mercado), terá rentabilidade líquida de R$ 5.370 em operação de renda fixa pós-fixada, de R$ 5.359 em CDI, de R$ 5.350 em renda fixa pós-fixada e de R$ 5.340 em poupança.
Para o sócio diretor da Apoio Investimentos, Alan Estiguer, diante dessa tendência de queda da taxa de juros, muitos investidores estão migrando para outros investimentos. "Temos perfis muito diferentes. Alguns estão procurando a Bolsa, outros, mais conservadores, estão preferindo a poupança. Isso depende muito do apetite ao risco de cada um". Porém, ele avalia que a maior parte está optando pela poupança. Ainda segundo ele, as LCIs também estão tendo grande procura. "É um investimento de baixo risco e isento de Imposto de Renda, que está tendo mais rentabilidade que qualquer fundo."
Governo não vai alterar a poupança
Na última semana, após a divulgação da ata do Copom, o Governo recuou em relação às discussões sobre a possibilidade de alteração das regras da caderneta de poupança. A explicação é de que o juro ficará em um patamar já vivenciado pela economia nacional, quando a taxa chegou em 8,75% e não houve alterações na época.
Especialistas, no entanto, alertam para a necessidade de mudanças. Para o professor de finanças da FGV, Fábio Gallo, o Governo deveria tomar decisões mais rapidamente por dois motivos. "Se um ativo de baixo risco como a poupança fica com mais retorno, a tendência é de que todo mundo migre para esse investimento, secando fontes importantes de financiamento para o Governo." Ele também destaca que, caso o rendimento das cadernetas fique menor, haverá alterações em relação ao crédito imobiliário. Atualmente, os mutuários da casa própria pagam juros elevados no financiamento habitacional, pois o rendimento da poupança, fixado em lei em 0,5% ao mês ou 6,17% ao ano, não permite que os bancos cobrem menos neste modelo de financiamento. "No caso de uma alteração, esse custo poderá cair para o comprador."
Para o vice-presidente da Anefac, Miguel Oliveira, o cenário de Selic mais baixa exige mudanças nas regras da poupança para evitar a migração de recursos dos fundos para esta aplicação e outros problemas ao sistema. "Poderá haver excesso de recursos para a poupança de um lado e dificuldades de financiamento da dívida pública de outro. Entre as possíveis mudanças, deveremos ter o rendimento da poupança atrelado à variação da taxa básica de juros ou tributar igualmente a poupança como já ocorre com os fundos de investimentos."









