Feijão e leite pesam no bolso do juiz-forano


Por GRACIELLE NOCELLI

08/07/2016 às 07h00- Atualizada 08/07/2016 às 08h23

Depois de verificar os preços, consumidores dizem que vão buscar alternativas ao produto (Olavo Prazeres/07-07-16)

Depois de verificar os preços, consumidores dizem que vão buscar alternativas ao produto (Olavo Prazeres/07-07-16)

O feijão e o leite sofreram escaladas de preços ao longo de junho e iniciaram julho sem demonstrações de recuo, pressionando cada vez mais as contas dos juiz-foranos. No caso da leguminosa, a alta foi de 43% entre a primeira semana do mês passado e a primeira deste mês. Neste período, ocorreram seis reajustes consecutivos, conforme o Guia do Consumidor feito pela Secretaria de Agropecuária e Abastecimento (SAA). Já o leite aumentou 24% no mesmo intervalo, tendo cinco altas seguidas. Comparando com os preços praticados em janeiro, ambos aumentaram acima de 60% no primeiro semestre do ano.

O levantamento considerou o pacote de um quilo do feijão preto anão tipo 1 da marca mais barata, que encerrou o mês de junho com preço médio de R$ 5,89 e iniciou julho a R$ 6,36. No entanto, nas prateleiras dos supermercados, outros tipos e marcas já ultrapassaram R$ 10. No caso do leite, a pesquisa avaliou o tipo longa vida, também da marca mais barata, que registrou custo médio de R$ 3,38 no mês anterior e, agora, de R$ 3,63. Outras marcas já são comercializadas por mais de R$ 4.

Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostraram que o feijão e o leite estão entre os produtos que mais tiveram impacto no custo da cesta básica no país. Em Juiz de Fora, a leguminosa corresponde a 8% do total da cesta e o leite, 7,6%. A cesta está avaliada em R$ 342,07.

De acordo com a Associação Mineira de Supermercados (Amis), os produtos encareceram no varejo de todo o estado. “Em relação ao leite, os supermercados vêm trabalhando com margens muito reduzidas e com estoques menores, renovando as compras toda semana como forma de contornar a situação. Essa variação do preço não depende do varejo, já que é resultante da entressafra do produto, de fatores climáticos e da alta no custo dos insumos para o produtor”, informou por meio de nota. “Quanto ao feijão, o que se espera é uma estabilização nos preços com tendências de queda a partir do final de julho. Os preços foram influenciados pela escassez do produto no mercado.”

Relatório da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) sobre o feijão destacou que, “em função da reduzida oferta ocasionada pelo agravamento do quadro climático no país, verificou-se um elevado aumento dos preços em todo o grupo carioca.” Em Minas Gerais, a queda na produtividade das lavouras chegou a 9,2% em comparação com 2015. “A tendência é de um quadro de suprimento bastante apertado. Com isso, os preços devem continuar em patamares elevados, mas é difícil estimar até onde estes valores poderão chegar devido às dificuldades que as indústrias terão para repassar esses custos.” A Conab explica que o aumento do feijão preto comum está relacionado às condições climáticas e ao próprio reajuste sofrido pelo carioca.

Gado para corte

O economista e pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Glauco Carvalho, avalia que uma série de fatores tem pressionado os custos ao consumidor. ” É um cenário complexo que vem sendo desenhado há algum tempo. Desde 2014, os produtores estão perdendo rentabilidade por causa do aumento de custos com a produção. Há aqueles que destinaram o gado de leite para o corte por perceberem que a carne estava mais rentável. A oferta do leite caiu. Agora, num período de entressafra, a situação piorou. A indústria paga e cobra mais caro pelo produto, e o varejo repassa ao consumidor.”

Na avaliação de Glauco, a expectativa é que o segundo semestre aconteça uma queda de preços. “Acreditamos que a sazonalidade do produto deve ser mantida. O leite encarece entre março e agosto, e sofre queda de preços a partir de setembro até fevereiro. Como a pressão de custos tem ocorrido em toda a cadeia do leite, ainda não temos uma previsão de quanto será esta redução.”

Disparada nos preços dos derivados

Com o encarecimento do leite, os preços dos produtos lácteos dispararam nos supermercados. O quilo do queijo mussarela a granel sofreu cinco altas semanais consecutivas e iniciou o mês de julho com aumento de 29% do preço médio em relação à primeira semana da junho. A manteiga de primeira qualidade aumentou 12%; o requeijão, 10%; o leite em pó, 8%; o leite condensado, 5%; e a bandeja de iogurte com poupa de frutas, 3%. O levantamento do Guia do Consumidor analisou a marca mais barata de todos os produtos.

Diante desta situação, o consumidor busca alternativas para garantir os alimentos à mesa. Mãe de quatro filhos entre um e sete anos, a doméstica Rita de Cássia dos Santos, 25 anos, optou pelas marcas mais baratas na hora de escolher os iogurtes para as crianças. “Já faz tempo que os preços estão muito caros, mas uma boa alimentação para eles é importante. Por isso, tenho pesquisado preços e substituído pelas marcas mais em conta.” Nas compras feitas ontem, o leite ficou de fora. “Está muito caro, vou voltar outro dia.”

O preço do leite também assustou o aposentado Gilson Geraldo, 67 anos. “Estou olhando, mas ainda na dúvida se vou levar.” Próximo às prateleiras de feijão, a incerteza aumentou. ” Está muito difícil, os valores são muito caros.” Já o aposentado Antônio Realindo foi enfático. ” Não vou comprar feijão, acho um descaso com o trabalhador. Estou substituindo por legumes e fazendo sopas, pois está muito caro.” Por não abrir mão da leguminosa, o comerciante Vicente de Paula Nascimento, 74, tem modificado a receita. ” O jeito é botar mais água nesse feijão.”