Conheça Pedro Carcereri: diretor, escritor e ambientalista encantado pela ‘história de gente comum’
Na coluna ‘Sem lenço, sem documento’, conheça o fundador da Old Man Artes, que completa 10 anos e lança novas obras em 2025

Pedro Carcereri foi da primeira turma do Bacharelado Interdisciplinar em Artes da UFJF e também da primeira classe do mestrado da instituição. “Pioneiro” ou “cobaia”, como brinca, a partir dessa vivência ele já se acostumou a experimentar entre as várias formas de expressão artística. É o que gosta de fazer entre todas as áreas do cinema, por exemplo, em que trabalha principalmente como diretor, mas onde faz questão de entender todos os processos e tirar inspiração de toda parte. É por começar disposto a quebrar a cara, ainda, que ele abriu em Juiz de Fora a produtora Old Man Artes, na qual já fez cerca de 15 filmes. Em 2025, ele vive um momento chave em sua carreira, com lançamentos nos próximos meses, e revê a trajetória repleta de desafios, vontade de seguir suas próprias vontades e muita disposição para trabalhar com o que acredita.
“Para dirigir um filme, criar uma narrativa, tem que entender de tudo: edição, fotografia, arte, roteiro, encenação e etc. Tem que passar por todos esses processos. Isso demora, é o tempo de decantar, de tentar e de errar também”, conta. É isso que Pedro aprendeu com obras como “Maria Cachoeira” (2018), “Os sonhos já encontraram” (2020) e “Trabalho é campo de guerra” (2021). Com diferentes temas, essas produções, que participaram de festivais pelo Brasil e o mundo, investigam passados familiares, relações de trabalho e as relações mais cotidianas. Seu cinema, como define, é feito principalmente da vontade de escutar as pessoas e não deixar que suas memórias se percam.
Por isso, um dos seus maiores fascínios é olhar para dentro dos álbuns de sua própria família — de onde tira muitas inspirações também, não só para os filmes “Agora é tempo de adormecer as máquinas” e “A morte que passe amanhã”, que estreiam esse ano, mas para toda a sua criação artística, que também é muito influenciada por suas referências na música, literatura e artes visuais. “Como a minha família, existem muitas outras famílias no Brasil. O olhar que eu dedico a isso é que é o ponto”, diz sobre as fotos que ele também agora faz e revela, com a família crescendo a partir de seus dois filhos, Madalena, de 7 anos, e Pedro Paulo, de 9 meses. O olhar, para ele, é aquilo que faz valer a pena prestar atenção nos detalhes: “Não me interessam as histórias de grandes líderes e de grandes narrativas; me interessa a história do cidadão comum. (…) Talvez me interesse só a história dessas pessoas dentro de casa, como acordam e tomam café. Isso é o que temos de mais humano, que é o nosso dia a dia. O que diferencia o ser humano é que a gente cria”.
Tanto no cinema como também na literatura, já que ele é escritor do livro “Sob o trópico de capricórnio”, ele busca trabalhar o ambientalismo e a distopia. Outro exemplo disso, e que também faz o registro que é marca de sua obra, é o “Fé pelo clima”, um projeto ambiental. “Imagino que a gente já vive um futuro distópico. A estética do nosso tempo já é uma estética de fim de mundo, perdemos a habilidade de ouvir. (…) Existem tecnologias e memórias que estamos com risco de perder. Perdemos a capacidade de olhar pro horizonte e saber se vai chover, de saber em qual época do ano vai ter a melhor mexerica. As pessoas estão comendo banana descascada embalada em um plástico”, reflete.

Tripé não entra no set
Parte das dificuldades que teve, ao longo de sua carreira, são aquelas que entende que a maioria dos artistas vive: pensar a própria identidade e como continuar em um meio tão escasso de oportunidades. No cinema, ainda, ele se viu em um universo cheio de regras nas quais nem sempre acreditava ou por que tinha que seguir. Como professor e dono de uma produtora, anos depois, ele também foi entendendo que o caminho que podia ensinar, a partir dali, era diferente. “A minha construção narrativa foi em cima de uma criação mais livre em pensamento, perspectiva e estrutura. Não gosto que falem que ‘tem que’ fazer de um jeito. Quem disse que ‘tem que’? Godard? (…) Acho que podemos sempre expandir fronteiras”, diz.
Acreditar nessa criação mais livre, para ele, sempre esteve associado a uma capacidade quase incansável de trabalhar e fazer o que é preciso para realizar seus projetos. Trabalhando com publicidade em Juiz de Fora e responsável por diversas campanhas, ele também vê nesse trabalho chances de ir aprendendo e buscando referências. “Ontem [quarta-feira], fui gravar uma festa de 15 anos, em Búzios. Eu me esforço pra ter um olhar atento o tempo todo e aprender, mesmo quando não estou interessado.”
Duro na queda
O ponto de virada na carreira vem num momento em que, depois dos dois filhos, sentiu a vida tendo outro ritmo e as prioridades mudando várias vezes. “A melhor parte da minha semana é levar a Madalena na natação. No que é mais batido na nossa vida, é aí que está o encantamento”, diz. Nos dez anos de sobrevivência da empresa, então, o que ele comemora não são apenas todos os filmes assistidos ou todos os projetos que deram certo, mas também o que deu errado. É ali que ele entende que pôde crescer. “Aprender a perder e a se desiludir sem desistir é muito importante. Fazer um filme que você acha que é a coisa mais genial e ninguém assiste”, diz.
Nesse caminho, já foram muitas dificuldades, mas com a certeza de que o cuidado rotineiro com seus filhos é o trabalho de que mais se orgulha, Pedro é duro na queda. “Já fali a empresa uma vez, já perdi sócios, já voltei a trabalhar como garçom e fui trabalhar em outras produtoras prestando serviços. Já tive que dar alguns passos pra trás, mas sabia que ia voltar. Acho que a minha virtude é que eu nunca desisti”.









