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Desde que o samba é samba


Por JÚLIA PESSÔA

31/07/2013 às 07h00

Dez anos atrás, as quartas-feiras juiz-foranas eram ruins da cabeça e doentes do pé, como diria Dorival Caymmi ao descrever os avessos ao samba. Desde a fundação da consagrada roda de samba do Muzik, em 2003, o meio da semana ganhou ares de sábado, fazendo a alegria dos amantes do gênero e conquistando cada vez mais adeptos de diferentes gerações.

Para Roger Resende, idealizador do encontro semanal de bambas, a roda do Muzik teve um papel importante para a consolidação do samba como opção musical da cidade. "Em 2003, existiam rodas informais, não como um programa ou como oportunidade de trabalho para os músicos. Quando começamos, pensávamos que se conseguíssemos 50 pessoas lá toda semana, a empreitada teria dado certo. Mas a coisa foi tomando uma proporção muito grande e possibilitou uma revitalização do samba mesmo, fazendo com que grupos locais resgatassem a carreira e as casas noturnas redescobrissem o gênero."

Nas primeiras quartas da história do samba do Muzik, Roger subia ao palco ao lado de Fernamda Ca (na época Nanda Cavalcante) e o grupo Samba e Cia, tocando não apenas clássicos de expoentes como Noel Rosa, Cartola, Clara Nunes e Paulinho da Viola, mas também composições de artistas locais.

"O Roger teve o cuidado de incluir no repertório músicas do Mamão, do Geraldo Pereira, e isso fez com que gerações mais jovens conhecessem esses sambas, fizeram com que eles fossem algo que transcendesse a idade do público, algo que todos cantassem e frequentassem", opina Fernamda Ca. "Acabou virando um ponto de resistência e de referência, em que as pessoas que querem ouvir samba de qualidade sabem queserão sempre contempladas, coisa que não existia", acrescenta Roger Resende.

Depois de Roger, Fernamda e o Samba e Cia, a quarta de bambas ficou sob a ginga de Flavinho da Juventude, Sandra Portella e o grupo Tamu Junto. "A roda quebrou os preconceitos em relação ao samba, e procurei fazer meu papel também, tocar composições de artistas das comunidades, não só coisa ‘de grife’, isso foi bom para o público e para os músicos. O pessoal tinha vergonha de ser sambista, hoje o gênero tem seu espaço em Juiz de Fora e ainda abriu as portas para outros estilos, como o pagode, e para gente nova", destaca Flavinho.

Prova disso é que foi frequentando quartas do Muzik que o percussionista Daniel Manganelli se interessou pelo samba de raiz e pelo choro. "Quando eu ia toda semana, na época do Samba e Cia, olhava aquela galera e ficava pensando: ‘ainda vou tocar nesse samba’". Dito e feito. Desde outubro do ano passado, o músico integra o time de peso que faz o batuque semanalmente, ao lado de Carlos Fernando Cunha (voz e percussão), Caetano Brasil (sax), Fabrício Nogueira (cavaquinho), Sandra Portella e Roger, o bom filho que à casa torna.

Nesta quarta comemorativa, a roda terá participação de Juliana Stanzani, da nova geração de sambistas, e Nascimento, figura tradicional da cena juiz-forana. "É um momento novo do samba, especial, em que o papel de formação de público já está cumprido, e o desafio é sempre este, continuar agregando a tradição com o que aparece de novidade", comenta Roger.

 

 

 

Do Muzik para o ‘samba do morro’

Segundo Fernamda Ca, os tempos de bamba no palco do Muzik tiveram grande importância em sua carreira. "Começou como uma brincadeira, participando dos shows do Roger, mas os músicos e o público gostaram da minha voz para a pegada do samba. Não tenho formação de sambista, não cresci em meio ao gênero, mas levei para o meu som o suingue forte, que aprendi com músicos de referência nacional."

Para muitos, sobretudo os que não acompanharam o início da roda com Fernamda, a voz do samba do Muzik é a de Sandra Portella, à frente dos vocais há oito anos. "Antes conciliava a carreira de sambista com a de cantora de bandas de formatura, mas o trabalho começou a fazer sucesso na roda de samba, e pude me dedicar inteiramente ao gênero."

Ciente dos deveres que acompanham as grandes conquistas da vida, Sandra leva a sério o papel de "educadora" musical de seu público. "Temos essa ‘responsa’ de levar o que está sendo feito por jovens compositores sem deixar de lado os clássicos de toda a vida, os sambas imortais. Procuro fazer o possível para que o público goste." E o empenho tem dado resultado, visível nas filas em frente à porta da casa noturna toda quarta.

Com o mesmo afinco, Sandra lança agora seu primeiro disco autoral, "Samba do morro", reunindo composições suas, parcerias e letras de amigos sambistas. Com 13 faixas, o álbum teve apoio da Lei Murilo Mendes e, como os bons sambas, transita entre a irreverência – em faixas como ‘Vamos zuar’ e ‘Zé Trapaça’- e os caminhos por vezes tortuosos do amor – expressos em canções como "No teu olhar", "Lamento" e "Chorar pra quê?". "Estou muito feliz porque as críticas têm sido positivas, e é algo em que venho trabalhando faz tempo. Além disso, o disco reflete muito da minha trajetória, esse diálogo entre o samba do morro e a cidade", comemora a artista.

 

RODA DE SAMBA

 

Quarta-feira, às 22h

 

Muzik

(Rua Espírito

Santo 1.081)