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Outras ideias com Elisângela Gomes Saar


Por MAURO MORAIS

31/05/2015 às 04h00- Atualizada 01/06/2015 às 16h17

Preta, como é carinhosamente conhecida, não se sente só (LEONARDO COSTA)

Preta, como é carinhosamente conhecida, não se sente só (LEONARDO COSTA)

Com a vassoura nas mãos, limpando o piso branco do recém-inaugurado estabelecimento que abriu na Via São Pedro (Av. Pedro Henrique Krambeck), Elisângela Gomes Saar me recebe com um sorriso no rosto, dizendo para eu ficar à vontade. Falando alto, andando rápido e entrecortando sua fala com cumprimentos a todos que passavam diante de seus olhos, a mulher rapidamente confirmou o que seu comportamento diz: “Estou muito feliz, realizada. Aqui descobri minha dignidade. É um sonho que nunca esperei realizar.”

O tal sonho poderia ser, como ela mesma diz, “o puxadinho”, à frente de sua casa, medindo cerca de 5m², com banheiros feminino e masculino, além de lavabo, freezers, pia, estufas e outros elementos característicos de uma lanchonete. Não é. O sonho não é palpável. O sonho está ligado à sensação de preenchimento, só alcançada quando chegaram até ela aqueles que hoje ocupam os bancos na calçada de seu negócio, o Água de Coco da Preta. O espaço, que em plena tarde de terça-feira não parava vazio, foi o primeiro a conquistar alvará na via frequentada por atletas, amadores ou não. “Sempre gostei de cozinhar, de ter gente em casa. Não importa quem seja, gosto de gente”, conta Elisângela, aos 40 anos.

A Preta do Renato

De onde vem “Preta”? “Meu marido, quando era vivo, sempre me chamava assim. Quando se foi, não consegui nem tirar a aliança do dedo”, diz, para logo tirá-la, mostrando as inscrições “Preta”, de um lado, e “Renato”, de outro. Aos 17, recém-separada e com uma filha de 2 anos, ela conheceu o homem com quem se casou aos 20. “A diferença de idade entre nós era de 30 anos”, conta. Há quatro anos, o representante comercial foi vítima de um câncer de pâncreas. “Tinha uma vida social muito badalada. Mas não foi isso o que mais mexeu comigo, foi a falta dele. Ele era meu amigo, meu parceiro, meu companheiro”, emociona-se. “Como era muito apaixonada, entrei numa depressão e, para sair dela, resolvi subir, eu e um cooler”, recorda-se ela, que então morava no Bairro Bandeirantes. “Um dia, sentei na calçada, e as pessoas ficavam me pedindo água. Um amigo meu me disse: ‘Preta, vende coco, porque aí você vai conhecer pessoas e sair dessa tristeza’. Topei. Ficava gritando todo mundo. Um dia um parou, e depois todos pararam. Agora já falam que é um point”, orgulha-se.

Em casa

De onde vem a Preta? “Nasci no Bairro Furtado de Menezes”, responde. “Éramos muito pobres, miseráveis, mal tínhamos o que comer. Era preciso pegar resto de feira para minha mãe cozinhar”, lembra. “Se todos os irmãos estivessem vivos, seriam dez”, destaca a mãe de apenas uma filha. De onde Preta vem, só não faltava força. “Com 7 anos, eu já trabalhava em casa de família. Já tive várias fases. Aos 12, minha mãe me tirou daqui, e fui trabalhar no Rio de Janeiro, para tomar conta dos sobrinhos da minha antiga patroa. No meu último emprego, era cuidadora de um senhor”, enumera a mulher, que só conheceu a bonança quando conheceu Renato, que após a morte lhe deixou uma pensão. “Não vim para cá para ganhar dinheiro, vim para me livrar da depressão”, reforça. “Ainda assim, trabalho muito, quase 15 horas por dia. Agora tenho uma ajudante pela manhã, mas às 6h já estou de pé assando pão de queijo. Às 7h, abrimos o puxadinho.”

6 quilos em 2 meses

Para onde Preta vai? Além. Com o ombro dos amigos que fez nos cerca de três meses vendendo açaí, água de coco, um delicioso suco de caldo de cana com limão e gengibre, além de salgados e picolés, Preta descobriu que nenhuma lágrima dura o sempre, e tudo pode se transformar. Com a ajuda deles, construiu e equipou seu negócio, que conta até com bicicletário e chuveirão. Este domingo será o primeiro dia em que a via, no sentido São Pedro – BR, ficará parcialmente fechada para a realização de atividades lúdicas. “Queremos que aqui vire um lugar para vir com a família, sem a obrigação de ter que fazer exercícios”, diz ela, do alto de sua recente experiência. Resolvo, então, perguntá-la se o convívio com essa “turma fitness” também lhe despertou para a vida saudável. “Já estou pedalando. Emagreci uns seis quilos em dois meses. Aqui eles cuidam de mim”, emociona-se. “Sou assim, fico muito alegre e muito emocionada em questão de segundos.” Despeço-me, então, da mulher intensa na voz, nos gestos e nos sentimentos. Ao partir, escuto-lhe dizendo “Vou contar da entrevista para a minha mãe, e ela vai até chorar”. No fundo, bem no fundo, Preta só aparentava estar à vontade, calma e tranquila. Devia estar apreensiva, e nem percebi. O brilho de seus olhos ofuscaram qualquer desconforto.