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As muitas raízes da cidade


Por MAURO MORAIS

31/05/2015 às 04h00- Atualizada 01/06/2015 às 16h18

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Nenhuma narrativa é definitiva. Há curvas, esquinas e demais obscuros espaços onde se encontram histórias que o tempo se incumbiu de esquecer. Toda escrita dá conta de uns em detrimento de outros. Nunca há espaço para todos os créditos. Enquanto o pensamento e o projeto valem mais, a prática – a “mão na massa” – acaba por significar menos. Em Juiz de Fora, a redação da História, como em todo canto, também não dá conta do inteiro. A Bernardo Mascarenhas, Mariano Procópio, Henrique Halfeld e outros importantes empreendedores locais, a justiça por suas atuações está expressa em bustos, placas, ruas e outras manifestações que os inscreveram nominalmente na História oficial. De outros trabalhadores, nem sequer restou o nome.

Ao se emancipar de Barbacena, em 1850, a então Vila Santo Antônio do Paraibuna era apenas um trecho povoado por fazendas. Cinco anos depois, o lugarejo somava 6.466 habitantes, sendo apenas 2.441 livres, segundo registro do livro “Famílias solidárias e desafios urbanos” (UFJF, 2000), da pesquisadora e professora do departamento de história da UFJF Mônica Ribeiro de Oliveira. “Quando falamos das figuras reconhecidas, pensamos em um modo de fazer a História baseado em personagens. A atividade dessas pessoas é inquestionável, mas é preciso pensar na formação por seus vários agentes sociais”, comenta Mônica.

Como por todo o Brasil, a origem da cidade remonta à época da forte presença dos escravos, que mesmo libertos em 1888 continuaram nos arredores das fazendas. São pessoas como os pais e os avôs de dona Zeferina, uma das personagens reais encontradas pela pesquisadora e professora da UEMG Ana Cláudia de Jesus Barreto para sua pesquisa “O lugar dos negros pobres na cidade”, sua dissertação de mestrado que rendeu livro homônimo em 2013. “Teve um bocado de bobo que chorou, porque não sabia como é que ia comer, como é que ia viver”, diz a senhora, em entrevista, contando sobre o 13 de maio no qual sua família abandonou a senzala.

“Com o processo de abolição não houve uma extensão do direito da cidadania para que eles se inserissem no mercado de trabalho formal. Como ainda havia muito café, esses negros, em sua maioria, permaneceram no campo. Nas primeiras décadas do século XX, quando o café começou a se esgotar, eles chegaram à cidade, mas não tomaram o centro urbano, que já estava estruturado. Ocuparam espaços de periferia, bairros como o São Benedito, o Ipiranga e o Dom Bosco. Juiz de Fora é uma cidade negra”, defende Mônica.

Vindos de longe

Ao chegarem à área urbana, os negros recém-libertos se depararam com outros povos, de outros costumes e línguas. Em 1858, desembarcava no porto do Rio de Janeiro a barca Tell, trazendo 236 germânicos para Juiz de Fora. Aquela, segundo estudos do pesquisador Nilo Sérgio Frank, seria a primeira das muitas entradas daquele povo em terras mineiras. Tanto é que, de 1872 a 1900, a população local subiu de 18.775 para 91.119 habitantes.

A mesma Juiz de Fora, primordialmente negra, é a cidade eminentemente estrangeira. “Os grandes contingentes que desembarcaram aqui começaram com os alemães, em 1858, quando chegaram 1.1193 imigrantes, sendo que 25% vieram da Áustria, eram tiroleses. A cidade tinha um perfil agrícola, vivendo da cultura do café e do milho, e foram os germânicos que a transformaram para um perfil industrial”, defende o historiador e pesquisador Roberto Dilly.

Em seguida, vieram os italianos, os portugueses, os sírios e os libaneses. “A História oficial foi contada por cronistas que valorizavam o estrangeiro branco, fenômeno que não acontece só aqui, mas no Brasil inteiro”, destaca Mônica Oliveira, reforçando a presença de teorias racistas, do século XIX, na construção das narrativas sobre o passado nacional. Bisneta de imigrantes italianos empobrecidos, que na cidade se tornaram operários da fábrica de Bernardo Mascarenhas após saírem de Cataguases, Mônica ressalta a precariedade em que viveram esses estrangeiros. “Minha família nunca aparece entre os ilustres imigrantes. E igual a ela, existem várias outras.”

Segundo Dilly, a vinda dos germânicos visava a criação da Colônia Agrícola Dom Pedro II, “mas a maioria dos contratados não era de agricultores, e as terras eram impróprias”. “Mariano Procópio tinha comprado as terras, mas não as havia demarcado. Existem documentos mostrando que houve, até, um motim. Algumas famílias se insurgiram contra ele. Essas pessoas foram alojados ao redor de uma grande lagoa infectada, próximo ao Largo do Riachuelo, e o tifo se tornou uma epidemia entre as crianças. Tanto na viagem quanto nos quatros primeiros meses, 10% desses imigrantes morreram”, conta o pesquisador, trineto de germânicos, que foram morar na Rua Bernardo Mascarenhas, no Bairro Fábrica, e por lá montaram uma pequena fábrica de borracha.

 

Hoje reflete ontem

Para os estudiosos que se ativeram à história da cidade, a atualidade reflete o passado e sua formação múltipla. Os trabalhadores, fundamentais para a formatação de uma cidade industrial, desenharam o que temos hoje como sociedade. “A implantação de indústrias tem tanto a tecnologia quanto o mercado de trabalho como princípios básicos. Dos negros, poucos foram para esses espaços, servindo como mão de obra na construção civil e no trabalho informal”, explica Mônica Oliveira, citando a preferência pelos brancos nas fábricas. De acordo com Roberto Dilly, o maior grau de instrução e certo poder econômico colocaram esses imigrantes em lugar social mais destacado, daí as muitas trajetórias ascendentes.

“A propaganda na Áustria mostrava o Brasil como o lugar dos sonhos, ideal para se construir uma vida estável e confortável”, conta Dilly, apontando os anúncios encontrados ao longo do tempo, bem como as cartas dessas pessoas. “Eles escreviam confirmando a possibilidade de prosperidade, revelando já terem comprado lotes e vacas.” Contudo, para Mônica, a população de Juiz de Fora, hoje, é fruto do encontro desses grupos, que não ficaram presos entre si. “Os núcleos não se tornaram fortes e se misturaram muito. Acredito que pelas condições de dificuldades, viveram e deixaram que se perdessem valores tradicionais. Se houvesse uma tentativa de recuperação dessa tradição, poderíamos ter a identidade cultural mais sólida hoje”, comenta, destacando movimentos de resistência, tais como os que ocorrem entre os descendentes de germânicos nos bairros Borboleta e São Pedro.

Entre os negros, a caminhada também se assemelha aos passos já dados. “A senzala está transfigurada, permanece com outra roupagem. O negro continua inserido precariamente no trabalho, com baixa qualificação de escolaridade e renda. Percebo que esses espaços da cidade, onde se reuniram ex-escravos, ainda se mantém de forma muito precária”, avalia Ana Cláudia de Jesus Barreto, que em seu estudo relaciona a trajetória dos afrodescendentes na cidade às áreas de risco nas quais moram, próximas de encostas e do curso d’água. “No Dom Bosco, haviam muitos ex-escravos, que saíram das fazendas e foram morar lá. Apesar de algumas pessoas nem se reconhecerem no passado coletivo, percebo uma auto-estima baixa, ao lado de um conformismo muito grande. Eles se sentiram e se sentem discriminados”, pontua.

“O único grande contingente que veio obrigado é o dos africanos, que chegaram tratados como mercadoria”, reforça Dilly. “Os negros estão na franja de nossa sociedade. Esses aspectos nos mostram essa desigualdade, que não é só social, mas econômica e étnica”, concorda Ana Cláudia. A cidade, em seus 165 anos, guarda nas entranhas um passado de encontros – e também de desencontros. Um passado que se inscreve no presente e precisa de muito mais fôlego para se transmutar no futuro.