Emergência da diversidade
O apego às pinceladas já se manifestava em Juiz de Fora nas primeiras décadas do século XX. O Núcleo Hipólito Caron, fundado por César Turatti em 1922, abriu caminhos para a fundação da escola que seria o ponto de encontro das artes na cidade. A Sociedade de Belas Artes Antônio Parreiras reuniu os mais ávidos pelos ensinamentos artísticos da época e viveu seu tempo áureo entre meados das décadas de 1950 e 60. Faziam parte da talentosa geração Carlos e Nívea Bracher, Dnar Rocha, Renato Stehling, entre tantos outros cujos traços são hoje facilmente identificados. A relação cada vez mais íntima com as tintas fez escola, expandiu-se. Chegou à movimentada Galeria de Arte Celina, dos irmãos Bracher, na galeria Pio X. Se o espaço era exíguo – 8x8m -, ilimitada era a disposição para imaginar e criar arte. Mais de 500 eventos povoaram o ambiente em 1966. A pintura, ainda que ampla quanto às características de seus traços, firmou-se por aqui como uma escola de seguidores livres, mas, não por isso, menos fiéis.
Veio o novo século, a contemporaneidade (ou que já está além dela), carregando consigo uma nova geração de artistas que estampam as galerias da cidade e, sobretudo, estampam "a cidade". "A produção artística contemporânea majoritariamente não se guia pela prática apoiada em gêneros, linguagens específicas ou meios tradicionais, mas pela capacidade de adequação das questões trabalhadas aos meios mais eficazes para as expressar, comunicar ou expor", elucida o diretor do Departamento de Artes e Design da UFJF, Ricardo Cristofaro. "A produção contemporânea também se organiza por múltiplos sistemas e dispositivos que, em muitos casos, dispensam as galerias de arte e os espaços tradicionais de exposição", acrescenta.
A impossibilidade de apontar uma nova "escola" na cidade atrela-se, inclusive, à utilização do próprio termo, segundo a coordenadora do bacharelado em artes visuais da UFJF, Priscila de Paula. "O termo ‘escola’ já tem uma conotação de uma cartilha, de um programa a ser seguido. Ele era muito legítimo porque estava relacionado à modernidade, às vanguardas. Mas em relação à arte contemporânea cai por terra, pois não consegue abarcar essa infinidade de linguagens, nem sempre associadas à arte sob um ponto de vista tradicional", avalia. "Não é mais tão simples reconhecer artista e objeto. Eles se expandem na arte contemporânea."
Talvez essa "nova escola" nem seja tão nova assim, sugere a professora do IAD e artista plástica Valéria Faria. "Os meus mestres, os artistas da cidade que participaram da minha formação há 20 anos, apesar de alguns trabalharem com linguagens mais definidas – a exemplo de José Alberto Pinho Neves e Arlindo Daibert, que desenvolveram importantes produções no campo do desenho, da pintura e da gravura -, já tinham uma visão mais aberta desta quebra de fronteiras entre as linguagens da arte", acrescenta.
‘A arte contemporânea é fotográfica’
Ainda que não haja uma possível nova escola das artes na cidade, uma questão é certa para Valéria. Cada vez mais, a fotografia vem sendo assimilada e incorporada à multiplicidade das linguagens visuais. "Philippe Dubois, um importante pensador da imagem atual, já afirmou que ‘a arte contemporânea é fotográfica’", diz. "Muitos artistas que utilizam a fotografia neste trânsito entre linguagens sequer são fotógrafos. Neste sentido, a fotografia é concebida como uma ‘imagem-ato’, para além de sua concepção meramente de máquina", explica.
A fotografia já é considerada um tecnologia das artes, como levanta o também mestre e pesquisador do IAD, o artista plástico Afonso Rodrigues. "Ela é não apenas o objeto da arte, mas também o suporte do discurso de muito artistas, o que registra e influencia o trabalho", assevera. Assim, misturam-se os fotógrafos-artistas e os artistas-fotógrafos.
"Eu me incluo nessa vertente", diz Valéria, que, embora diga não ser "nem de longe" uma fotógrafa profissional, recorre à linguagem fotográfica em diversas produções. Na série de autorretratos "Requiem 22", tributo à Semana de Arte Moderna de 1922, a artista trabalhou em parceria com a fotógrafa Gleice Lisboa. Porém, em diversos outros trabalhos, em que ela mesma é responsável pelos registros, a fotografia se mistura a outros processos de montagem e edição de imagem. A série "Vanitas" opera neste sentido. "Fotografo objetos que são posteriormente associados a outras imagens processadas em programas de edição. Neste caso, estou mais interessada no sujeito em processo do fazer artístico e menos na objetividade fotográfica."
Desde 2004, Cristofaro realiza pesquisas e proposições artísticas voltadas à utilização da fotografia como meio de expressão do escultórico, seguindo uma trilha traçada por textos e obras dos artistas Constantin Brancusi, Richard Long, Robert Smithson, Bern & Hilla Becher e Gabriel Orozco. "Em meus trabalhos, tanto a escultura como a fotografia são utilizadas como meios indutores de percepção e relação com o espaço tridimensional, e não como campos disciplinares estritos."
Para Priscila, as facilidades ao acesso da fotografia é um dos aspectos fundamentais a sua ampla utilização no campo das artes. "Hoje em dia, é uma tecnologia fácil e imediata e se dá, muitas vezes, de forma muito espontânea e sincera", diz a professora, destacando o interesse crescente pela imagem – sobretudo em uma cidade que possui tantos cursos de comunicação, cinema, artes. A fotografia pode assumir contornos amadores, segundo Priscila – que revela sua admiração pelo estranho, malfeito, imperfeito – desde que estes dialoguem com o conteúdo proposto.
Liberdade de conceitos
Instalações virtuais, intervenções urbanas, imagens, objetos sonoros, poemas, gravuras. A explosão multimídia não deve ser ignorada, segundo Petrillo, artista plástico e professor do curso de arquitetura e urbanismo do CES, sobretudo em uma cidade plural, que tem uma forte escola de artes plásticas. "E as produções locais rumam muito para a fotografia digital", completa. O artista destaca, contudo, que tal caminho não é traçado apenas pelos artistas locais, mas se enquadra em uma lógica global. Petrillo vincula sua produção à pintura, mas uma pintura contemporânea, que utiliza diferentes técnicas e suportes, a exemplo das reproduções de impressões digitais.
Para Cristofaro, uma característica que deve ser observada entre aqueles que produzem arte em Juiz de Fora é a liberdade de deslocamento de conceitos e procedimentos por diversos meios ou gêneros. Liberdade que vem de influências e referências exercidas por códigos que circulam dentro da arte contemporânea internacional nas últimas décadas. "Não vejo no cenário local a formação de uma ‘nova escola’ capaz de ser rotulada. O que temos é a ’emergência da diversidade’. Os novos artistas se inserem em um processo de dissociação das identidades ou singularidades em todos os sentidos: cultural, histórica, territorial, técnica", completa.
Outra vertente pouco valorizada e em franca expansão na cidade é, segundo Afonso Rodrigues, a arte que se desenvolve fora do chamado circuito oficial. A arte periférica, marginal, usa a cidade como suporte e, embora tenha um espaço reduzido, já realiza produções que merecem mais visibilidade, na opinião do pesquisador. "Existe gente boa trabalhando com determinadas práticas não vistas até pouco tempo como arte, como o grafite", diz. "Essa associação do grafite com marginalidade e vandalismo já não existe mais quando o assunto é a arte contemporânea." Juntam-se ainda ao grupo as produções relativas a quadrinhos, tatuagens, videogames, entre tantas outras.
Juiz de Fora tem crescido, e seus espaços de arte vem se fortalecendo, conforme avalia Priscila. As intervenções urbanas e performances nas quais dialogam diversas linguagens artísticas vão surgindo, embora falte, muitas vezes, um amadurecimento que deveria ser mais estimulado pelos órgãos oficiais. "Não basta fazer exposições nos mesmos espaços, com curadorias amadoras. Os artistas estão se formando, produzindo muita coisa interessante, mas apresentam seu trabalho, muitas vezes, em uma espaço vazio. Mais importante que formar artistas é formar o público", conclui.









