Geleia geral
Desde 2008, o juiz-forano tem uma certeza quando o carnaval se aproxima, ainda que nem todos saibam as referências a que ela remete: "o Parangolé tá valvulado". Em seu sexto ano de existência, o bloco Parangolé Valvulado, fundado pela classe artística local, repetirá este verso, que se tornou uma espécie de refrão de seus frevos-enredo, sempre compostos a várias mãos. A versão que anima o cortejo deste ano, que sai neste domingo, homenageia o Tropicalismo (ver quadro), citando nomes como Hélio Oiticica, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, os Mutantes, entre outros que ajudaram a sacudir a cena cultural brasileira entre 1967 e 1968 e, segundo os fundadores, influenciam o bloco juiz-forano desde seu surgimento.
Além das ruas, o Parangolé vai passar, neste ano, pelos estúdios. Os integrantes foram contemplados com a Lei Murilo Mendes e gravarão todos os enredos do bloco, além de canções que fazem parte do tradicional "esquenta" dos ensaios e do desfile, como "Balada do louco" (Mutantes), "Tomara" (Alceu Valença) e músicas de autoria dos integrantes do bloco. "Também pensamos em montar uma banda de base para fazer shows fora do período de carnaval. Mas a força do Parangolé está na rua, e de lá ele não vai sair", garante um dos fundadores, o músico Edson Leão.
Segundo os fundadores, o próprio nome do grupo faz referência a criações da Tropicália. "’Parangolé’ é uma obra de Hélio Oiticica feita para ser vestida, que vai fazendo sentido de acordo com o movimento de quem o usa, e isso é muito incorporado no bloco, que vai se construindo enquanto desfila, enquanto as coisas acontecem", explica Edson Leão. "Já o ‘valvulado’ faz menção ao uso de amplificadores a válvulas por guitarristas e baixistas, traço também característico dos tropicalistas", completa o músico Danniel Goulart.
A artista plástica Valéria Faria conta que as influências do movimento cultural sessentista não param por aí e que os idealizadores do bloco acabaram se unindo de forma parecida com a da união dos artistas daquele período. "Cada um chegou com suas contribuições artísticas, e o bloco acabou tendo manifestações culturais muito diversas."
Para Danniel, acrescentar elementos artístico-culturais à folia foi um processo que aconteceu muito espontaneamente. "Nossa intenção era fazer um bloco espontâneo, para a gente brincar, não havia propostas de enaltecer elementos culturais. Mas como todo mundo é muito ligado à arte e à cultura, essas referências acabaram transparecendo muito." Na visão de Edson Leão, a "geleia geral" de referências acabou transformando o bloco em um importante movimento cultural de Juiz de Fora. "Primeiro porque o próprio carnaval é uma expressão cultural riquíssima e o Parangolé está inserido nele. Depois porque o bloco dialoga espontaneamente com diversas manifestações artísticas: a música, as artes plásticas, as performances, é a arte acontecendo na rua, com as pessoas participando."
"Escolhemos temas em homenagem a pessoas, lugares ou fatos relevantes no âmbito artístico e cultural", diz Valéria Faria. Nestes seis anos, o bloco já versou sobre Arnaldo Baptista, Mussum, a feira da Avenida Brasil e a profecia maia sobre o fim do mundo. "Todos eles tinham uma referência antropofágica, de misturar elementos culturais. Os próprios homenageados incorporam isso: o Arnaldo é um multiartista, a feira é aquela bagunça cheia de referências, o Mussum era músico e humorista. No enredo sobre o fim do mundo, por exemplo, fazíamos uma brincadeira com Tim Maia e a profecia maia", conta Edson Leão. "O frevo-enredo nunca é só frevo, tem pegada de samba e até rock, brincamos com a linguagem musical", completa Danniel Goulart.
"É claro que com o crescimento do Parangolé, algo que não esperávamos que fosse acontecer, tivemos que organizar mais nossa pequena bagunça, mas para maior segurança e conforto de todos. Só que nunca perderemos de vista o fato de que o bloco é um momento de confraternização, diversão e desorganização do cotidiano", finaliza Edson Leaõ.
Concentração neste domingo às 14h
Largo do Riachuelo (Centro)









