Do asfalto às emoções: Daniel Medeiros Valle leva Juiz de Fora ao Prêmio Candango de Literatura
Em ‘Compridas sombras azuladas pelo asfalto’, autor traduz o asfalto, a cidade e as emoções humanas em literatura premiada

“Receber esse reconhecimento pelo meu trabalho é gratificante demais.” É assim que o escritor Daniel Medeiros Valle define a emoção de ser indicado ao Prêmio Candango de Literatura 2025. O juiz-forano é um dos dez finalistas da 2ª edição da premiação, que acontece nesta sexta-feira (31), com seu mais recente lançamento, “Compridas sombras azuladas pelo asfalto”.
Escritor desde os 16 anos, Daniel conta que só em 2013 teve coragem de publicar o primeiro livro – concluído dois anos antes, aos 21. Apesar de a vida ter o levado por outros caminhos, ele afirma nunca ter deixado a ficção de lado. Neste novo trabalho, o autor explica que a coletânea de contos se debruça sobre questões existenciais do cotidiano – histórias em que os personagens confrontam suas verdades e investigam os mecanismos do mundo ao redor.
“Esses contos foram escritos entre 2019 e 2024. Eu não pensava muito em publicá-los, mas em 2023, percebi que certos temas e sentimentos se repetiam. Vi que poderiam formar uma obra coesa e decidi organizá-la.”
Caracterizadas por uma prosa introspectiva, as narrativas mesclam realismo com conjecturas e intuições, criando uma experiência literária que busca capturar o elemento humano com força e ternura. Os contos abordam temas como trabalho, identidade e relacionamentos, explorando as contradições e as possibilidades que permeiam esses espaços fundamentais da vida.
Um livro sobre identidades
Com o uso de metáforas poéticas e elementos de fluxo de consciência, as narrativas fragmentadas jogam com a língua e as reflexões filosóficas. Focadas nas emoções dos personagens, apresentam uma linguagem rica e imagética para expressar as nuances das vivências humanas, compondo um ambiente contemplativo e melancólico.
“Acho que são inquietações ligadas ao nosso dia a dia. O livro gira em torno de temas como trabalho, relacionamentos e memórias. Outras questões, como identidade, morte e luto, também aparecem com frequência. São questionamentos que nascem da experiência da existência cotidiana e que, às vezes, nos perturbam. Há aflições de classe, mas também de natureza psicológica e de saúde mental”, explica.
Daniel reforça que, embora o livro não seja autobiográfico, há traços de sua própria trajetória nas histórias. “Em outras palavras, trata-se da lida coletiva e individual num mundo em que nossa agência parece sempre limitada. Não vejo o livro como autoficcional, mas muita coisa vem da minha experiência. Todos os temas me afligem também, embora eu os considere universais.”
Juiz de Fora: fonte de inspiração e desafios

Questionado se o contexto urbano de seus contos reflete vivências da “Manchester mineira”, Daniel confirma que sim. Nascido e criado em Juiz de Fora, ele diz que a cidade se tornou uma personagem importante do livro, mesmo quando não é nomeada.
“Juiz de Fora é parte de quem eu sou, da minha identidade e, sem dúvida, acaba se manifestando na obra.”
Embora veja o município como fonte de inspiração, o autor reconhece os desafios de produzir arte na cidade. Para ele, a falta de incentivo e de diálogo entre poder público e artistas dificulta o fortalecimento da cena cultural local.
“Nunca me surpreende ver artistas daqui se destacando, mas conquistar esse reconhecimento com meu trabalho me dá esperança de contribuir para chamar a atenção do público – e da administração pública – para o nosso potencial criativo. Quem sabe, assim, possamos ampliar as possibilidades para os produtores locais?”
Daniel defende que um diálogo mais estreito entre governo e comunidade artística é essencial para avanços reais.
“É preciso ouvir os produtores e suas demandas. A impressão é de que a produção artística ainda é vista como gasto, e não como investimento capaz de gerar benefícios ao município, ao público e até aos cofres públicos.”
Ele reconhece, no entanto, que os desafios culturais não são exclusivos da cidade, mas acredita que Juiz de Fora tem potencial para ser um polo cultural nacional.
“Uma cidade com a localização, o tamanho e o número de artistas que Juiz de Fora tem poderia ocupar esse papel. É necessária uma mudança significativa na percepção da gestão municipal sobre a arte. É um debate longo, mas que precisa ser iniciado. Eu não tenho todas as respostas, mas gostaria de participar do diálogo – as possibilidades são muitas.”
Alegria e expectativas para o prêmio
Indicado em sua segunda edição, Daniel celebra a conquista e destaca a importância do reconhecimento. “Eu sabia como seria difícil aparecer em uma lista dessas, de um dos maiores prêmios literários do país. Então, é claro que fiquei muito feliz.”
O Prêmio Candango de Literatura é uma das principais distinções literárias do Brasil, reconhecendo obras de destaque pela qualidade técnica e originalidade. Iniciativa da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal, a premiação distribuirá R$ 195 mil entre os vencedores de sete categorias. A cerimônia de entrega acontece nesta sexta-feira (31), no Teatro Nacional Cláudio Santoro, em Brasília.
*Estagiária sob supervisão da editora Gracielle Nocelli









