Internet multiplica rede de boatos
A internet tem se tornado um campo fértil para disseminação de boatos e alarmes sem qualquer relação com a realidade. Nela circulam mitos e lendas urbanas que, uma vez tomado o impulso inicial, ficam circulando indefinidamente. Elas passam de mão em mão via mensagens de e-mail não solicitadas, mensagens instantâneas, correntes de e-mail e, mais recentemente, por meio das redes sociais. A web também vem sendo usada para a propagação de conteúdo indesejado com objetivos comerciais. Uma pesquisa divulgada no último dia 14 de outubro pela Sophos Antivirus colocou o Brasil em terceiro lugar no ranking dos países que mais enviam spams, atrás apenas dos Estados Unidos e da Índia. A avaliação foi feita durante o terceiro trimestre deste ano.
De tão comuns, essas mensagens inverídicas já receberam até mesmo nomenclatura própria. São as pulhas virtuais ou hoax. Elas vão desde dicas de saúde e beleza até formas de proteger o computador contra elas mesmas. Muito comuns também são e-mails com apelos relativos a sequestros ou doenças. Em uma famosa mensagem, há uma foto de uma garota que estaria com câncer e solicita-se que o e-mail seja repassado para o maior número de pessoas possível, pois, para cada destinatário, a Microsoft, que estaria monitorando as mensagens, doaria US$ 0,30 para um fundo criado para ajudar a menina. A história nunca foi comprovada.
Uma das pessoas que recebeu essa história e repassou foi a assistente social Sheila Valente. Comovida com a história, ela decidiu enviar a amigos e familiares. Sempre recebo esse tipo de e-mail e envio. Nunca sabemos a veracidade, então mando para ajudar. Também recebo coisas engraçadas que repasso. Já a dona de casa Ivana Maria Fazolato tem o hábito de compartilhar mensagens que recebe através do Facebook. A que compartilhei recentemente foi de uma menina que estava sofrendo com queimaduras, e a mensagem pedia ajuda. É o mínimo que posso fazer, não custa nada repassar. Embora acredite na procedência da mensagem, ela não descarta checar a veracidade das informações. Sempre procuro a origem, vejo quem está compartilhando. Não posso afirmar que é verdade, mas, se for, estou ajudando. Se não for, alguém vai descobrir e denunciar.
Segundo o secretário geral da comissão de direito e tecnologia da informação da OAB-RJ e autor do livro O spam e as pragas digitais: uma visão jurídico-tecnológica, Walter Capanema, os chamados spammers, que são as pessoas que criam e disseminam mensagens de propaganda ou apelo, costumam acompanhar correntes de e-mails para adquirir novos endereços. Durante minha pesquisa, entrei em contato com essas pessoas respondendo aos e-mails que recebia e constatei que eles buscam qualquer texto com @ para acumular endereços para um banco de dados, tanto em qualquer página na web quanto seguindo as correntes. Eles monitoram as mensagens e vão acumulando endereços, aproveitando-se da bondade de quem repassa a informação. Ainda conforme o especialista, outra forma comum de se obter endereços é através da compra de CDs com milhões de endereços, vendidos de R$ 40 a R$ 90 ou então diretamente de empresas que, ilegalmente, repassam dados dos clientes. Ainda para a pesquisa do livro, uma vez criei uma conta especificamente para cadastro em uma empresa para testar se esses dados eram terceirizados. Depois de algum tempo, passei a receber diversos spams, indicando a prática ilegal pela empresa. O advogado recomenda que, para se proteger e também preservar seus destinatários de ter o endereço eletrônico usado por spammers, o ideal é ignorar e não repassar esse tipo de mensagem.
A jornalista Lívia Mautoni e a estudante de psicologia Fabiana Jiacomine, cansadas de receber tantas dicas de beleza por e-mail ou ouvir dizer que algo funciona, decidiram criar um espaço no blog eunaosouamelia.com, para testar as histórias. Na sessão caçadoras de mitos, elas colocam à prova lendas famosas como xampu de bebê para retirar maquiagem, clara de ovos no rosto para fechar os poros, pomada de assadura para suavizar olheiras ou o batom da morte. Segundo a lenda, que circula em correntes de e-mail, batons de alta fixação possuem chumbo em sua formulação, e seu uso seria perigoso, podendo, inclusive, causar câncer. Esta é uma das histórias que Lívia decidiu checar. Seguindo as orientações do e-mail, ela fez o teste, esfregando um anel de ouro no produto sobre a pele. Se a tinta ficar escura, é indício de que o batom contém a substância. Quando recebi o e-mail, fiquei preocupada, então decidi fazer o teste, pois usava muitas marcas consideradas perigosas. Não tenho como comprovar se faz mal, mas lançamos a discussão no blog. Já Fabiana conta que, desde que começaram a testar as histórias, muitas meninas mandam e-mails contando outras que receberam também pela rede, pedindo para que sejam testadas. Recebemos muitas coisas e testamos com parcimônia. Uma vez nos pediram para ver se era possível esfoliar a pele com açúcar e limão, mas sabemos dos riscos de queimadura do limão. De todos que testamos, apenas a clara de ovo e o xampu se mostraram verdadeiros.









