Mostra de Cinema de Serranos: cidade com 2 mil habitantes transforma produção audiovisual do interior em protagonista
Evento tem sua segunda edição em setembro e conta com produção juiz-forana

E se o interior pudesse contar a sua própria história? É assim que nasceu a Mostra de Cinema de Serranos, no município da Zona da Mata com cerca de 2 mil habitantes, que acontece no dia 5 de setembro, reunindo três produções que colocam o interior de Minas Gerais em cena.
Entre as exibições, está o curta-metragem “Farpa”, produzido e filmado em Juiz de Fora, que conta com Marcia Falabella, Sandra Emilia e Vinicius Cristovão no elenco. A direção é de Thaís Olivier e Raphael Phields. Vinícius, que estará presente em Serranos, explica que as produções do interior também são sagazes e merecem ser divulgadas: “Eu bato o pé”.
“Quando um filme desse, que é produzido em Minas Gerais, Zona da Mata Mineira, expande, vence o limite geográfico, é toda uma classe artística que vai junto e ganha junto”, defende. É com base nessa ideia que a Mostra de Cinema de Serranos, que este ano realiza sua segunda edição, nasceu.
“Sabe quando você vê um filme e reconhece ali um pedaço de você, mas nunca é a sua rua, a sua igreja, o seu jeito de falar?”, questiona Flávia Vilela, cineasta e realizadora do evento. E explica: “A Mostra nasceu de uma vontade quase teimosa de virar essa chave: e se a gente pudesse se ver de verdade na tela? E se a gente pudesse dar voz a esse lugar?”.
Além de “Farpa”, o evento exibe um documentário que nasceu em Serranos e observa a fé, o tempo e a devoção, “A Santa e o tempo”. Já “Mary e Sebastião” fala sobre uma família que ajudou a construir a própria história de Serranos e Seritinga.

As araucárias, as memórias e o cinema
Na programação da mostra, que acontece na Praça 12 de Dezembro, com entrada gratuita, no centro de Serranos, também está o plantio de uma araucária, árvore símbolo do festival. O plantio busca resgatar parte da história de Serranos, que teve as araucárias como suas guardiãs.
Hoje, as árvores que tanto permeavam a paisagem deram lugar à produção rural, monoculturas e pasto, restando apenas algumas isoladas. Por isso, o gesto simbólico de plantar uma única árvore também traz um recado de preservação da memória.
“Cada uma que ainda resiste carrega em si a história de quem passou por aqui antes da gente. Olhar para elas com atenção é reconhecer nossas raízes e reaprender o valor de algo que levou séculos para crescer”, define Flávia.
O que será plantado na terra, também será exibido na tela: o pertencimento de uma região com história, memória e tradição. “Ver seu próprio filme exibido é um passo à frente. Até em um grande centro, com várias salas de cinema, quando alguém daquela cidade aparece em uma produção já é um evento, já causa uma alegria, uma agitação. Agora imagina isso numa cidade pequena, de praticamente dois mil habitantes”, afirma Marcus Balbi, incentivador da cultura local.

Serranos não tem cinema: não há sala disponível. Por isso, trazer um evento que mostre de fato a região acaba sendo um evento fora da curva no calendário da cidade. A equipe de organização da mostra é pequena, mas a cidade toda se envolve.
“É bonito ver como uma coisa que começou pequena vira algo que a cidade inteira sente que é dela”, reflete Flávia. O comércio experimenta um movimento diferente e os moradores buscam participar e se envolver, além do turismo esperado.
“Queremos público de outras cidades, inclusive da capital. A gente vê tantos filmes que são feitos pensando nesse olhar de quem vem de fora, então por que não inverter essa lógica e trazer esse público para cá?”, questiona.
Paulo Henrique, secretário de Cultura do município, explica que a cidade pode receber o turismo esperado com suas pousadas e restaurantes. Porém, o destaque é o turismo de experiência — que as pessoas possam ser recebidas em casa, hospedadas por moradores.
“E para a gente faz todo sentido trazer isso para cá: a pessoa não vem só assistir a um filme, ela vem dormir na casa de alguém, tomar café na cozinha de alguém, entender esse tempo diferente que a gente vive aqui.”
Marcus destaca também que os filmes exibidos tratam do cotidiano de Serranos, mostrando cenas que talvez, pelo hábito, as pessoas já estejam acostumadas e esqueçam que ali também é bonito e é grande. “A Mostra é isso: é devolver esse olhar.”
As crianças de Serranos também têm, com a mostra, um primeiro contato com a experiência de se ver na tela. “É um olhar novo se formando desde cedo: a criança entende, mesmo sem saber explicar, que a vida dela também é digna de virar cinema.”

‘Os sonhos nascem assim’
“Os sonhos nascem assim: a cada ano queremos trazer mais filmes, mais gente, realizadores de outros lugares — e com isso, trazer o cinema para cá de vez”, relata Flávia, que também assina a direção e roteiro de um dos filmes a serem exibidos, “A Santa e o tempo”.
Para a produção do curta, Flávia mergulhou de cabeça na tradicional Festa da Padroeira, que acontece no dia 8 de setembro. Nossa Senhora do Bonsucesso é conhecida por realizar curas e, todo ano, romeiros pedem por elas e agradecem.
Na mesma época da pesquisa para o filme, Flávia descobriu um tumor com potencial para ser maligno. “E eu pedi a cura. Escutava uma vozinha me dizendo: ‘você vai ser curada, minha filha’. Considero que fui curada, mesmo com todos os exames e médicos acreditando que era maligno, não foi”, relata.
“Esse filme também é um agradecimento a essa santa e a esse tempo que a gente, que é do interior e da montanha, vive. Um tempo diferente, que não é contado nos minutos do relógio.”

Confira a programação da 2ª Mostra de Cinema de Serranos:
Manhã:
10h — Plantio da Araucária (local a confirmar)
Noite: Sessão de Cinema
20h — Abertura e boas-vindas
20h15 — “A Santa e o tempo” (15 min)
Direção: Flávia Vilela
20h35 — “Farpa” (15 min)
Direção: Thaís Olivier e Raphael Phields
20h55 — “Mary e Sebastião” (38 min)
Direção: Ricardo Melo
21h35 — Encerramento
*Estagiária sob a supervisão da editora Cecília Itaborahy








