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Escritura ‘sinGullar’


Por MAURO MORAIS

30/07/2013 às 07h00

Recortando e juntando papéis coloridos, Cláudia inventou um rinoceronte. Mas a criação da menina, com mais força do que ela, se apresentou como uma rinoceronte fêmea que queria ter um filhote. Da tesoura e dos restos de papéis que Cláudia reunia nasceu um jacaré, uma capivara, um hipopótamo, e outros bichos que em nada serviam à futura mamãe rinoceronte. Por obra do acaso, surge do lixo um rinocerontezinho, que, junto da mãe, se embrenha na selva de papéis. O poema, enxuto mas de extrema sensibilidade, ganha força lúdica ao lado das ilustrações – feitas em colagens – confirmando que o vigor de Ferreira Gullar extrapola os bons versos. A menina Cláudia e o rinoceronte (Editora José Olympio, 48 páginas), sexto livro infantojuvenil do poeta, dramaturgo, tradutor e crítico de artes plásticas, foi inspirado na paixão da mulher, a também poeta Cláudia Ahimsa, fascinada pelo mamífero das selvas africanas. O livro chega às prateleiras coroando a reedição da obra poética do escritor maranhense radicado no Rio de Janeiro.

Com novo projeto gráfico assinado pelo designer Leonardo Iaccarino, vencedor do prêmio Jabuti do ano passado pela capa de A anatomia de John Gray, a reedição traz design arrojado, com toda a coleção em cinza com a assinatura do escritor em diferentes cores. Os cinco primeiros títulos que a Editora José Olympio atualiza são A luta corporal, Dentro da noite veloz, Poema sujo, Muitas vozes e Em alguma parte alguma, todos com novas apresentações, assinadas por importantes intelectuais da cultura brasileira.

Último livro de poemas de Ferreira Gullar, Em alguma parte alguma, de 2010, versa sobre a passagem do tempo, a existência humana e a vastidão do cosmos. A parte mais durável de mim / são os ossos / e a mais dura também, começa Reflexão sobre o osso da minha perna, que se finaliza com a fina ironia e com a sutileza características do escritor: o osso / este osso / (a parte de mim / mais dura / e a que mais dura) / é a que menos sou eu?. Segundo o poeta e ensaísta Antônio Carlos Secchin, em apresentação do livro, na mais recente obra de Gullar pulsa a urgência da vida, tanto utilizando-se de um olhar microscópico, quanto macroscópico. Subjaz nessa poesia de buscas e encontros uma nota subterrânea e renitente de que o homem é condenado a sua arbitrária individualidade e só lhe resta inventar – por exemplo, na arte – outras ordenações (ou desordenações) do mundo, em que a morte seja vencida, os encontros sejam possíveis, e as coisas, enfim, ganhem sentido, comenta Secchin.

Lançado em 1999, após 12 anos da publicação do prestigiado Barulhos, Muitas vozes reúne o tom memorialístico de versos sobre a vida, a morte e as lembranças de infância. Para o crítico literário Marcos Pasche o livro deve ser ouvido, já que o autor articula com maestria a arte da palavra. Sua atmosfera sonora é um impulso a apreender o que nos está ao lado e além pelo tato auditivo, e, quando da ausência de barulhos, a buscar pela poesia uma tradução do silêncio, analisa. No princípio / era o verso / alheio // disperso / em meio / às vozes / e às coisas / o poeta dorme / sem se saber, brinca o eu lírico de Nasce o poeta, que entre as memórias e os sons ao redor vê o poeta crescer de um emaranhado de referências e sensações.

Obra máxima de Gullar, Poema sujo, lançado em 1976, quando o escritor ainda se encontrava exilado em cidades como Paris, Moscou, Santiago, Lima e Buenos Aires, tornou-se um dos maiores expoentes da arte feita durante o regime militar. Escrito sem formalismos, no estilo concreto, o grande poema, ainda se configura em atual desabafo. Como diz o autor, relatando a história de seu texto, trata-se de uma experiência poética única, cheio de cheiros, sons e gestos. Poema longo, que devora a si mesmo e renasce, com uma espécie de zangada visibilidade, comenta o escritor Marco Lucchesi em sua apresentação da reedição.

Seja em sua inédita incursão pela ilustração, sejam os versos simples sobre uma menina e seus recortes, ou seja a densidade de versos repletos de memória e inquietação, Gullar, como confirmam seus muitos prêmios, é, hoje, um dos grandes nomes da literatura nacional. À despeito de seu Reflexão sobre o osso da minha perna, o que dura, muito mais que seus ossos, são suas palavras. E a atualização gráfica de sua obra é prova de sua permanência e coerência.