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‘A literatura brasileira tem uma das melhores tradições’


Por MAURO MORAIS

30/07/2013 às 07h00

Pelas fotos, poderia ser a Festa Literária de Paraty, com seus autores quase superstars. Pelo numeroso público, poderia ser, até mesmo, um concerto de um grande nome da música popular. Mas não. Apesar do que se fala aos quatro cantos, a poesia também arrasta multidões. Pelo menos é o que aponta o Festival Internacional de Poesia de Lima (Fip Lima), no Peru, um dos maiores do gênero na América Latina. Encerrada no último dia 7, com uma apresentação da cantora brasileira Maria Creuza, a segunda edição do festival homenageou o Brasil, levando à capital peruana dez poetas nacionais. Entre eles, os badalados Angélica Freitas e Fabrício Corsaletti, ambos expoentes da nova geração. Em peso no evento, Minas Gerais foi representada por Fabrício Marques, de Belo Horizonte, com passagens por Juiz de Fora; Camila do Valle, leopoldinense que também estudou na UFJF; Affonso Romano de Sant’Anna, natural da capital mas criado na cidade; e Iacyr Anderson Freitas, radicado em Juiz de Fora. Ao lado de escritores do mundo inteiro, incluindo o chinês Bei Dao, os brasileiros integram a 12ª edição da revista "Fórnix", antologia que reúne os poetas participantes do Fip Lima 2013, sob o tema "Todo o imaginável é possível", que também norteou o evento literário. Organizador do ambicioso projeto, o poeta e ensaísta Renato Sandoval conversou por e-mail com a Tribuna. Semelhante a um ativista, o homem de barba e cabelos grisalhos e óculos de aros redondos não exibe o cansaço de uma empreitada tão grandiosa, mas relata uma crença emocionante nos versos. Com um português inteligível, com algumas pequenas confusões com a língua espanhola, Sandoval mostra-se bastante atento à poesia brasileira e elogia a presença verde-amarela no festival. "Todos foram de altíssimo nível, e o público reconheceu a qualidade dos versos brasileiros", destacou.

 

 

 

Tribuna – Quais foram os maiores desafios para estruturar o Fip Lima?

Renato Sandoval – Os desafios foram muitos: primeiramente, a Fórnix – associação que eu dirijo – tem apenas três pessoas trabalhando e, nessa segunda versão do evento, contou com a valiosa ajuda de mais três colaboradores. Outro problema foi a quase absoluta falta de orçamento. Embora tendo na conta bancária apenas US$ 1, conseguimos organizar um festival avaliado em US$ 350 mil. Naturalmente isso é produto, único e exclusivo, de um trabalho de gestão, mesmo que pareça um milagre. É verdadeiramente um pesadelo não ter grana real, pois coisas tão aparentemente fáceis como pegar um táxi ou convidar um poeta para um café podem virar uma grande façanha. Além disso, outro desafio é que ainda não convencemos o Estado, as empresas privadas e os próprios poetas de que a poesia é um bem importante na vida das pessoas e, em consequência, deve ser difundida e promovida como qualquer outro bem.

 

– De que forma se estabelecem as conversas entre as poesias feitas ao redor do globo?

– Pensando apenas nos poetas, um dos objetivos fundamentais do Fip Lima é mostrar outras tradições literárias além das nacionais para conhecer outras maneiras de fazer poesia, de ver o mundo e, sobretudo, aprender com elas. Os poetas peruanos padecem de um agudo narcisismo, sentindo-se herdeiros de uma importante tradição inaugurada por Vallejo, Eguren, Martin Adan e outros. E eles também sofrem de uma lamentável endogamia, pela qual se leem, se criticam, se celebram ou se odeiam, sem saber que o mundo literário – o mais real! – é muito maior do que eles creem. Então é preciso olhar para fora, abrir as janelas para deixar entrar o ar fresco. Nesse sentido, tenho a enorme fortuna de ter poetas amigos em muitos países, e todos eles são sempre muito generosos e estão sempre dispostos a acudir ao chamado poético que eu lhes posso fazer.

 

– No Brasil, nós temos a Flip, que é o nosso maior evento literário, com diversos convidados estrangeiros. Mas as escolhas da Flip se baseiam, em grande parte, no mercado. Esse é um imperativo de seu Fip Lima?

– Acho que tem uma grande diferença entre o que é uma feira e um festival. Uma feira tem um sentido basicamente comercial e quantitativo (número de livros vendidos, de assistentes etc), e isso pode ser válido. Num festival (ao menos é o caso do Fip Lima), entretanto, o importante é a visão de sociedade e literatura que se quer propor, o impacto (grande ou pequeno) no imaginário das pessoas e não nos bolsos, o contato direto entre escritores ou entre esses e o público.

 

– Como você seleciona seus convidados?

– Naturalmente, a qualidade literária é o fator mais importante para a escolha, mas também, no possível, o carisma e a simpatia deles é também um aspecto que levamos em consideração.

 

– Esse ano o evento homenageou o Brasil. Qual a sua avaliação da produção brasileira?

– Sem dúvida, a brasileira é uma das melhores tradições, embora ainda pouco conhecida e prestigiada, fora do mundo de língua portuguesa. Tem tantos nomes que eu admiro, não apenas em poesia mas também em narrativa, teatro e outras expressões, só para falar em literatura. No meu caso pessoal, do século XX conheço razoavelmente bem a poesia do modernismo, da geração de 1945, os diversos concretismos e, mea-culpa, pouco menos a feita nas últimas duas décadas, algo que felizmente compensei com a visita ao Peru de dez importantes poetas que participaram no II Fip Lima. Na primeira edição, o Lêdo Ivo, por exemplo, foi uma das estrelas, tanto pela sua notável poesia quanto por sua incrível simpatia e inesgotável vitalidade. Para o segundo festival, meu desejo original era contar, entre outros, com Augusto de Campos e Ferreira Gullar, mas por diversas razões isso não pôde acontecer.

 

– Temos percebido, no Brasil, que o mercado editorial tem voltado atenções para a poesia, investindo em livros com tiragens maiores. Inclusive, a antologia poética de Paulo Leminski configura um marco comercial. Você percebe um novo momento para a poesia brasileira contemporânea?

– Eu mesmo, via internet, adquiri a poesia completa do Leminski, editada pela Companhia das Letras. Pelos jornais, revistas e blogs estou vendo que hoje parece haver mais interesse do que antes. Mas, sinceramente, não acredito que no Brasil, nem em outros países, a poesia se transforme em objeto de consumo majoritário. Se isso acontecesse, nós, pobres poetas, estaríamos no paraíso.

 

– No Fip Lima, um evento grandioso, vocês conseguem reunir um grande número de espectadores para as mesas. Isso se choca contra os que dizem que a poesia não tem leitores. Qual a relevância do espectador para a poesia?

– No ano passado, no primeiro Fip Lima, contra a opinião de todo mundo, inclusive da minha pequena equipe, alugamos um teatro ao ar livre com capacidade para 4.200 pessoas. Acreditava que para a inauguração ficaria lotado, e o sabia porque em Medellin tinha visto algo assim. Era uma questão de boa organização e, isso sim, muita, muita fé. Quando, por fim, o teatro de fato encheu, todos choravam de emoção e de incredulidade, os próprios poetas e o público em geral. Tudo o que é imaginável é possível. E, quando as coisas se tornam possíveis é preciso saber mantê-las e desenvolvê-las. Aliás, o que importa é o povo. Os poetas são importantes, mas num festival as coisas são muitos mais complexas e sutis. Paradoxalmente, um festival de poesia não é para poetas. Os poetas se devem aos outros.