Todos os voos de Ministrinho

Armando Toschi, o Ministrinho, foi um grande incentivador do samba
Às vésperas de seu aniversário de 165 anos, Juiz de Fora ganha o registro em película da história de um dos principais nomes do cenário cultural da cidade, cujos 82 anos vividos se confundem, em muitos momentos, com a história da terra onde nasceu e viveu de forma intensa. Com direção de Marcos Pimentel, “Ministrinho voou” é documentário em longa-metragem sobre a vida e a obra de Armando Toschi, o Ministrinho, filmado no ano passado dentro das comemorações do centenário de nascimento do compositor e músico juiz-forano, um dos principais incentivadores do samba. Realizada por meio da Lei Murilo Mendes, a produção terá lançamento neste sábado, às 20h, no Palace 1, dentro da programação do Corredor Cultural.
O trabalho de Marcos Pimentel busca contar a história desse filho de italianos desde seu nascimento, em 4 de maio de 1914, até sua morte, em 22 de dezembro de 1996. Passam por aí a pesquisa sobre a presença e os costumes das famílias italianas em Juiz de Fora no início do século passado; a infância; sua iniciação musical; a criação da Escola de Samba Turunas do Riachuelo, do qual foi o nome mais importante de sua história; a criação, por parte da família, do time de futebol Tupinambás, do qual foi jogador; sua amizade e parcerias com compositores e sambistas juiz-foranos; o trabalho na Cia. Mineira de Eletricidade; a criação do Conjunto Regional Turunas do Riachuelo; a vida em família; sua morte – tudo contado por meio de fotos, gravações antigas e raras e depoimentos de pessoas que conviveram com Ministrinho.
Autor do documentário, Marcos Pimentel não chegou a conhecer Ministrinho pessoalmente. Seu primeiro “contato” com o artista, diz ele, se deu apenas nos anos 90, quando o primeiro CD de Armando Toschi, “Nosso ídolo”, foi lançado após sua morte. “O Márcio Gomes realiza esse trabalho de resgate dos músicos de Juiz de Fora, leva os caras para gravar seus discos e na época me apresentou o trabalho do Ministrinho, do qual gostei muito. Só voltei a ter contato com o Márcio em 2012, quando ele organizava as comemorações do centenário do Ministrinho com a família dele e me convidou para fazer o documentário, adiantando que já tinha muito material, por estar escrevendo um livro sobre ele”, conta o cineasta. “Eu gosto de trabalhar com a memória e com o tempo, e esta foi uma oportunidade de resgatar o imaginário cultural de Juiz de Fora. A vida do Ministrinho permite fazer vários links com diversos momentos da história da cidade.
O volume de material a respeito do artista fez com que o curta se transformasse em um documentário em longa-metragem. São fotos, arquivos caseiros, gravações e entrevistas que se juntaram ao material filmado no carnaval de 2014, quando os 100 anos de Ministrinho foram lembrados. “Fomos acompanhando e documentando esses eventos e de repente vimos que tínhamos um longa nas mãos”, diz Pimentel. “Fomos trabalhando o que tínhamos, colocando recursos nossos pela vontade de levar a história para tela. Começamos com a chegada da família dele em 1909, vinda da Itália. Temos também sua vida como músico e na boemia local, frequentando bares como o Tropical e o Alvorada”, detalha. “E uma das coisas mais importantes ao se resgatar essa memória é conhecer uma cidade que você não habitou, através da memória das pessoas e de arquivos empoeirados. Queríamos que tivesse essa transcendência de falar de uma cidade, dessa boemia, de hábitos e costumes que não existem mais.”
A ‘alma das rodas de samba’
Para Marcos Pimentel, “Ministrinho voou” (nome tirado de uma homenagem feita a ele pelo compositor Roberto Barroso) mostra a importância do músico e compositor para manter vivas até hoje, quase 20 anos após sua morte, músicas de artistas locais que foram compostas há décadas, sem registros sonoros, que sem o incentivo dele teriam sido esquecidas. “Ele tinha poucas composições, mas sempre divulgava as canções dos seus compositores contemporâneos, como Mestre Cocada, Nelson Silva, Ernani Ciuffo. Trabalhava como um catalisador, sempre tinha muita gente a sua volta. Era a alma dessas rodas de samba, frequentadas por várias gerações”, diz. Isso permitiu a Pimentel entrevistar pessoas de várias idades que, em algum momento, conviveram com o artista.
“É mais complicado encontrar o pessoal ‘das antigas’, mas conseguimos conversar com o Biné, ex-integrante do conjunto do Ministrinho e com quem compôs ‘Nosso ídolo’, que talvez seja a música mais tocada nas rodas de samba. É sobre o Jairo, o primeiro homem a sair de mulher no carnaval de Juiz de Fora e que fazia parte do Turunas. E conseguimos muitas imagens de arquivo do Jairo, tanto em vídeo quanto em foto”, conta. “Os entrevistados contam vários episódios da vida do Ministrinho, é possível acompanhar no filme os vários voos dele pelos lugares que frequentava. É um documentário emotivo, dá para ver a emoção das pessoas quando falam dele.”
Memória informal ainda vive
Marcos Pimentel acredita que a “presença” de Ministrinho ainda pode ser sentida na cultura local. “Mais do que um grande músico juiz-forano, ele foi um grande divulgador da cena cultural. Muitas das músicas a que temos acesso hoje são conhecidas porque o Ministrinho fez questão de tocar essas composições durante anos. Se atualmente temos pouco costume de conservar a memória, antigamente era ainda menor. Era muito difícil encontrar as partituras dessas composições de bar, e pouco se gravava. Tratava-se de um universo muito informal, músicas que eram feitas no boteco, no bar, para o carnaval, escritas e registradas apenas nesses locais”, explica o cineasta, destacando que é possível ouvir no documentário o samba da Turunas do Riachuelo de 1934. “O Ministrinho tocava essas composições, e outras gerações iam aprendendo, reproduzindo, e atualmente são ‘hinos’ das rodas de samba, como ‘Se eu fosse feliz’ (Djalma de Carvalho) e a própria ‘Nosso ídolo'”.
‘MINISTRINHO VOOU’
Lançamento neste sábado, às 20h
Palace 1
(Rua Halfeld 581)








