Do que ainda há por falar
Todos os dias, milhares de pessoas passam pela Av. Rio Branco. Algumas miram o enorme prédio da Santa Casa de Misericórdia, outras nem sequer se dão conta dele, tamanha sua prevalência na paisagem. Dessas, a grande maioria desconhece o projeto da construção, cheio de detalhes e cuidadosamente elaborado para captar uma maior incidência de luz, assinado por Arthur Arcuri. Autor de muitas outras edificações, o engenheiro que se notabilizou como arquiteto e completaria 100 anos no último 25 de fevereiro se tornou sinônimo do Marco do Centenário, do Campus Universitário e do antigo Colégio Magister, mas não de seus muitos outros trabalhos. É possível ter gente morando em casas projetadas por ele sem saber, aposta o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFJF Marcos Olender, que, ao lado dos arquitetos Ademir Ávila, Bernardo Vieira e Mônica Olender, assina a curadoria de Arthur Arcuri: ‘um pingente da arquitetura’, exposição que entra em cartaz hoje, no saguão da Reitoria, a partir das 19h30.
Exibida na I Bienal de Arquitetura da Zona da Mata e Vertentes, realizada em 2011, a mostra, reformulada e preparada para o espaço, ressalta com sua inserção num lugar de passagem – ponto tão caro no projeto do campus – a prevalência de Arcuri e sua integração com Juiz de Fora, cidade onde decidiu permanecer mesmo com tantos contatos nas grandes capitais. Considerado por Lúcio Costa como autor de uma obra persistente e valiosa, além de amigo de Oscar Niemeyer, o arquiteto projetou a fachada das Lojas Americanas, no Calçadão da Halfeld, em 1945; a fachada da Fiação Santa Terezinha, em 1950; a Fábrica Schuery, na Rua Fonseca Hermes, no ano seguinte; e a fachada da Companhia Mineira de Refrescos, no Bairro Mariano Procópio, em 1968. Ainda na lista de construções empresariais, ele criou, na década de 1950, o prédio da Facit, no Nova Era, e o Seminário dos Dominicanos, no Bairro Paineiras, entre outros.
Seu primeiro projeto foi o Matadouro Municipal, de 1938, localizado na Av. Francisco Valadares, no Bairro Poço Rico. O projeto foi feito durante a guerra, mas o Brasil não estava na guerra, e o equipamento furou o bloqueio. Nós aqui não contávamos mais receber o equipamento para o matadouro, quando veio através do Japão. Deu a volta ao mundo para o material chegar aqui a tempo, comentou Arcuri em 1982, em depoimento à Divisão de Memória da Funalfa. Segundo Bernardo Vieira, cujo mestrado – concluído em 2006 – foi todo dedicado à análise de algumas residências projetadas pelo arquiteto, o matadouro tem grande influência do art déco, estilo que seria superado ao longo de sua trajetória, em prol do modernismo, o qual lhe conferiu notabilidade.
Concebido em 1941, quando Arthur Arcuri ficava mais tempo no Rio de Janeiro que em Juiz de Fora, o projeto do hospital Santa Casa de Misericórdia, quarto trabalho do arquiteto, mostrou-se um grande desafio para o profissional, pelas grandes dimensões do imóvel, mas existia por trás do empreendimento a experiente Pantaleone Arcuri, que encerrava suas atividades na mesma década. Sob o esquema e a orientação dele, fizemos o projeto no Rio de Janeiro. O Dr. João Villaça ia toda semana debater o problema conosco. E, por isso, o projeto da casa dele também foi feito por mim, explicou Arcuri. Na Santa Casa, o que me chama mais atenção é o estudo de implantação. Ele tinha grande preocupação com insolação e setorização. Ele se preocupava com o bem-estar, pontua Bernardo Vieira, humanizando a produção do arquiteto.
Na casa encomendada por Villaça, além do harmonioso arranjo espacial, prevalece a ideia de casa como extensão do jardim. Situada na Rua Gilberto Alencar, logo atrás da Igreja São Sebastião, a construção se apresenta bastante alterada da proposta original. Segundo conta Vieira, o dono do imóvel dizia na época que sua residência parecia projetada para um belo piquenique. A mais importante que eu considero é essa do João Villaça […]. Porque nessa eu já apliquei os princípios divulgados por Le Corbusier: a casa sobre pilotis, aproveitamento de terraço e jardins, declarou Arcuri.
Entre os projetos residenciais presentes na exposição por meio de registros fotográficos – arte que ele cultuou no decorrer da vida – feitos pelo próprio Arcuri, destacam-se as casas de Reginaldo Arcuri, no Centro, de 1941; de Olavo Costa, também na região central da cidade, de 1944; de Romeu Arcuri, no Bairro Poço Rico, de 1949; de Antônio Carlos Pereira, no Nossa Senhora de Lourdes, de 1951. Com painel assinado por Edson Motta e calha central, conferindo outra dinâmica ao telhado, a residência de Luiz Stheling, projetada em 1952, é uma das mais curiosas, além de inegavelmente modernista. O Arthur é um profissional que, dentro da formação dele e a partir de sua vivência, foi se formando arquiteto, explica Marcos Olender, membro do Instituto de Arquitetos do Brasil em Juiz de Fora e um dos responsáveis pela agenda comemorativa do centenário do arquiteto.
Longe de se esgotar
Um dos principais riscos de esses tantos projetos permanecerem com suas assinaturas enevoadas incide na perda dessa memória patrimonial da cidade, ou mesmo a alteração dos projetos originais. Hoje grande parte dessas casas estão muito descaracterizadas, outras foram demolidas, lamenta Bernardo Vieira. Segundo ele, o valor da produção de Arcuri é mais que afetivo, haja vista a coerência do todo. De fato, ao observar o conjunto, há uma relação entre o hospital, o antigo colégio já demolido e mesmo o seminário. Na versatilidade de frentes de trabalho, o arquiteto escreveu uma história em linhas retas e em permanente diálogo com as artes. Ele fez tudo isso numa cidade de interior, com uma série maior de limitações e até certa resistência de público, defende Vieira, inserindo seu objeto de pesquisa no rol dos grandes nomes da arquitetura brasileira.
O Arthur conseguiu em vida ter um reconhecimento maior fora de Juiz de Fora do que na cidade. Com o tempo, essa memória foi se apagando, comenta Marcos Olender. De acordo com Vieira, a produção de Arcuri ficou à margem por ter acontecido em Juiz de Fora, uma cidade que não é um grande centro econômico e não teve uma tradição arquitetônica com estudos contínuos, já que a própria faculdade ainda é recente. Outra justificativa dada por Vieira vem da personalidade do próprio arquiteto. Ele não foi um grande marqueteiro do próprio trabalho. Ele era extremamente humilde, constata. Uma questão importante para o patrimônio é reconhecer os trabalhos como fundamentais, completa, certo de que a trajetória de Arcuri carece de mais atenção. Fazendo coro, Olender brada: Arthur introduziu muitos debates na cidade. Ainda há muita coisa por conhecer.









