De acordo?
Em 10 de junho de 1880, quando chegava às bancas a primeira edição da "Revista Brazileira" homenageando o poeta português Luiz de Camões, Dom Pedro II tornava pública suas palavras de apresentação: "Representante da Nação Brazileira, e amigo das lettras e de seus cultores, não hesito em annuir ao pedido de collocar o meu nome entre os dos meus patrícios, que, na grinalda de versos consagrada a Camões, o maior genio da lingua fallada por dois povos irmãos, cantor das maravilhas da navegação, a que devemos o nosso Brazil, conseguiram symbolisar os mais generosos sentimentos, imitando a exuberancia viçosa e bella de um solo, cujas admiradas riquezas offerecemos cordialmente ao espirito industrioso de todas as outras nações. Estas palavras, escriptas ao correr da penna, cingirão a formosa grinalda, ao menos, como laço de sympathia". À despeito das muitas tentativas do corretor de texto, de toda a formalidade, e passadas algumas reformas ortográficas, o texto escrito pelo imperador há 132 anos ainda apresenta-se compreensível.
Assinado ontem pela presidenta Dilma Roussef, o decreto proposto pelos ministérios da Educação e das Relações Exteriores adia para 2016 o uso obrigatório do Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa. A imposição, que alteraria esquemas de vestibulares e concursos, ainda não promoveu um aumento no intercâmbio entre escritores dos países envolvidos e era recebida com temor pelas editoras.
Assinado pelo Brasil em 2008, o acordo foi projetado em 1990 com o apoio da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), composto por Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe, e previa, então, a unificação das regras do português escrito nos países que têm a língua como idioma oficial. Alterado em 2004, o documento foi ratificado por todos os territórios, exceto Angola.
Primeiro país a aplicar as novas determinações, o Brasil ainda encontra entraves na área educacional e, principalmente, no meio editorial. Anunciada pelo Governo como um estímulo ao intercâmbio entre a literatura dos países envolvidos, a nova ortografia não refletiu nesses mercados da forma esperada. Preocupados, os editores brasileiros se atêm ao âmbito nacional, correndo contra o tempo para atualizar seus catálogos.
Numa breve pesquisa por livrarias da cidade, é possível confirmar que a entrada de escritores portugueses não é nada expressiva. Dispersos em prateleiras de literatura estrangeira, os escritores provenientes de Portugal ainda não conseguem ocupar um espaço reservado por aqui. Segundo a editora da Bertrand Brasil, Rosemary Alves, tal cenário é resultado de "uma demanda de mercado, um interesse dos leitores".
Criada em 1953 como importadora e distribuidora de livros franceses e portugueses e incorporada pelo Grupo Record em 1996, a Bertrand Brasil publicou nos últimos três anos apenas uma autora portuguesa, a influente colunista lusitana Margarida Rebelo Pinto. Para Rosemary, a ortografia não se relaciona, seja impedindo ou seja promovendo, com a entrada de bons escritores no Brasil. De acordo com ela, a obrigatoriedade da nova ortografia traria grandes transtornos ao selo, considerando o imenso catálogo de produções que ainda não foram atualizadas. "Para as pequenas editoras, creio que seja mais fácil", comenta, pontuando a escassez de profissionais capacitados para o trabalho.
Um dos autores mais procurados na área ficcional da Livraria Leitura, o moçambicano Mia Couto pode ser encontrado nas três estantes reservadas à literatura estrangeira. Apesar de escrever originalmente em língua portuguesa, o escritor divide espaço com best-sellers norte-americanos e clássicos russos. Segundo Marcos Paulo, coordenador da loja, não há uma demanda expressiva que exija a criação de uma seção dedicada aos livros estrangeiros escritos originalmente em língua portuguesa. Gerente da Livraria A Terceira Margem, Neiva Siano confirma a baixa procura e, por isso, também optou por incluir todos os livros criados fora do país na seção de literatura estrangeira, apesar de contar com um filtro em seu software de busca que possibilita encontrar livros pertencentes a essas literaturas "irmãs".
Embora concorde com a pequena representação dos países do CPLP nas prateleiras nacionais, o livreiro Edwald Winand, da Livraria Liberdade, aposta nesse diferencial, tanto que reserva duas prateleiras aos livros de literatura de língua portuguesa. Entre as publicações, autores timorenses, portugueses, angolanos e até mesmo o chinês de Macau, Henrique de Senna, cuja obra literária foi toda redigida em português. "A língua portuguesa é um universo só, é uma pátria só, é de quem se entende", reflete Winand, que afirma manter os nomes menos conhecidos por causa das vendas mais altas de escritores célebres, como Saramago e Eça de Queirós.
Grande parte das obras estrangeiras em língua portuguesa que Edwald Winand apresenta é aposta da coleção "Ponta de lança", da editora Língua Geral. Comandado pelo angolano José Eduardo Agualusa, o selo enfoca novas vozes da literatura contemporânea da África, da Ásia e da Europa, expressas em português. Presente na apresentação de todas as obras lançadas pela publicação, um texto anuncia: "não se entende o Brasil sem a África ou Portugal, da mesma maneira que não se entende Angola ou Cabo Verde sem a participação do Brasil".
Contribuindo com o coro de vozes contrárias à adoção do acordo, o livreiro Cláudio Luiz da Silva, do Sebo Quarup, percebe no dia a dia a pouca importância que os leitores têm dado às novas convenções. Diante de milhares de obras produzidas anteriormente ao acordo, incluindo a "Revista Brazileira", ele aponta para uma possível pasteurização na escrita. "Exigir que os autores portugueses tenham sua literatura transcrita para o português brasileiro é adulterar e vilipendiar a própria língua", protesta.
Reconhecido por suas diferentes opções estéticas, José Saramago já passa, de acordo com Rosemary Alves, por pequenas alterações para se adequar ao novo regime. Segundo ela a palavra "facto" nas edições recentes foi substituída por "fato". "Esse tipo de alteração não faz diferença", defende. Para o professor da Faculdade de Letras da UFJF André Monteiro, tais mudanças não causam grandes complicações. "Acredito que na prosa as alterações do acordo não façam diferença, mas para a poesia que explora a concretude visual e a concretude sonora, isso pode mudar o sentido", explica.
Com opinião discordante, Cláudio da Silva se atenta para a percepção da literatura como uma expressão da arte, passível de um estilo e detalhadamente construída, o que indica, de forma substancial, a impossibilidade de interferência no que foi redigido. "O que é escrito hoje deve ser respeitado amanhã", clama o livreiro, comentando não ter tido nenhum pedido de livros atualizados, mas, pelo contrário, os mais requisitados são os mais antigos, geralmente as primeiras edições perseguidas por bibliófilos.
Uma das saídas possíveis para esse impasse, apontada por André Monteiro, seria a criação de edições que mantenham as duas versões. "Seria muito purismo meu reivindicar que continuemos com a antiga ortografia", pontua. "Essa construção da nova ortografia não é vertical, ela tem que ser assimilada com o tempo", tranquiliza o livreiro Edwald Winand, seguro de que o novo regime não deverá impactar substancialmente suas prateleiras.









