Timoneiro dos próprios sonhos
"Não basta sonhar, é preciso se mexer para que o sonho aconteça." As palavras do cineasta David Schurmann resumem não apenas sua trajetória em busca de viver de algo por que sempre foi apaixonado, as imagens, mas a história de vida de sua família. Em 1984, Vilfredo e Heloísa Schurmann abriram mão de todos os confortos da vida em terra firme em busca de uma aventura. Com os filhos Wilhelm, David e Pierre, na época com 7, 10 e 15 anos de idade, eles viveram uma paixão: dar a volta ao globo em um veleiro.
Na primeira aventura, passaram dez anos no mar, e os garotos cresceram entre diferentes povos e portos, tradições e mares. Segundo David, esta multiplicidade de referências geográficas e culturais foi decisiva não apenas para a construção de sua visão de mundo, mas também de seu olhar como diretor de cinema. "Cada expedição proporciona um olhar diferente, um recorte distinto de realidades, e absorvi isso na vida e na profissão."
Em 1997, quando a família partiu para a segunda grande viagem, David estava a bordo com uma câmera na mão e um fervilhar de ideias na cabeça. O trajeto foi acompanhado, pela internet, por mais de 1,5 milhão de pessoas, em 44 países. E depois de quase dois anos e meio no mar, o veleiro dos Schurmann chegou a Porto Seguro, Bahia, no dia 22 de abril de 2000, selando as comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil. Os dias em alto-mar resultaram no primeiro longa de David, o documentário "O mundo em duas voltas", lançado em 2007 e vencedor dos prêmios de melhor filme nos festivais de cinema brasileiro de Roma, Milão, Buenos Aires e Nova York, além de melhor filme pelo júri popular do Cine PE 2007 e melhor longa-metragem internacional no Independence Film Fest 2008 (Colorado, EUA).
Na ocasião dos registros para o documentário, a pequena Kat, filha adotiva dos Schurmann, já estava a bordo do barco e é agora o mote central do novo projeto de David, o longa "Pequeno segredo", baseado no tocante livro homônimo de sua mãe Heloísa. O filme narra a história da caçula dos Schurmann, adotada por Vilfredo e Heloísa aos 3 anos, após a morte de sua mãe em decorrência de complicações do vírus HIV, contraído em uma transfusão de sangue. A doença também vitimou o pai da menina, amigo da família, e abreviaria a vida de Kat, sem por isso torná-la menos inspiradora e transformadora para os Schurmann. "Não quero explorar o drama, mas sim uma história de um heroísmo simples, mas real, de pessoas normais."
Preparando também um documentário sobre a próxima viagem da família, a "Expedição Oriente", realizada ainda este ano, David vem a Juiz de Fora no próximo dia 3 de outubro para dar uma palestra com lições de motivação, liderança e superação. "O que falo é baseado em experiências reais, com os pés no chão, um discurso de motivação concreto que pode ser aplicado ao dia a dia."
O evento é gratuito e é patrocinado pela ArcelorMittal Juiz de Fora, com apoios da Tribuna, da Rádio Solar, do Cine-Theatro Central e da UFJF. Os ingressos podem ser retirados até o dia 2, das 9h às 13h e das 14h às 16h, na bilheteria do teatro.
Tribuna – Na sua opinião, de onde vem a paixão de sua família pelo mar, por viagens e aventuras?
David Schurmann – Isso tudo começou em umas férias que a família passou no Caribe, quando eu tinha apenas 8 meses. Era a primeira vez que meus pais embarcavam em um barco de turismo, e foi paixão imediata. Dali, eles começaram um plano para que em dez anos pudessem dar a volta ao mundo com a família toda a bordo de um veleiro. Foi uma aventura, um projeto ambicioso, mas com tudo planejado. Meus pais não tinham noção alguma de navegação, então tudo precisou de dedicação e esforço para que o sonho acontecesse. Acredito muito nisso, que para realizar sonhos é preciso não apenas acreditar neles, mas investir para que eles possam acontecer. Isso também sempre norteou minha carreira no cinema.
– Como o contato com diferentes culturas e a vida no mar influenciaram sua paixão por imagens e, consequentemente, seu olhar de cineasta?
– Cada trajeto foi extremamente especial de forma diferente. Na primeira vez, eu era criança, foi uma descoberta do mundo. Ter crescido a bordo do veleiro foi uma experiência excepcional, algo que só pude perceber o quão grandioso é quando fui estudar cinema em terra firme. Diziam que eu vivia uma vida de cinema. Para mim, aquilo era só a vida normal (risos). Ver filmes, na primeira expedição, era a única diversão a bordo, e isso também foi uma grande influência para me apaixonar por imagens, além das diversas a que estive exposto a bordo. Quando decidi o que queria fazer, uni duas coisas que adoro fazer: contar histórias e fotografar. Então comecei a filmar com 13 anos e nunca mais parei.
-"O mundo em duas voltas" foi seu primeiro longa, um documentário sobre uma das expedições. Como este trabalho foi desenvolvido e como é dirigir a própria família?
– É um desafio trabalhar com a família. Quando se tem uma equipe profissional, as pessoas costumam dizer que com o tempo ela vira uma família. No meu caso, foi ao contrário, e isso tem seus ônus e bônus. Por um lado, é preciso criar um distanciamento para se chegar a um olhar objetivo. Gosto de buscar as histórias além do óbvio, retratar os humanos diante de suas experiências, e foi isso que procurei fazer, com uma visão de diretor. Minha família sempre respeitou este trabalho. Por outro lado, tenho acesso a absolutamente tudo que se passa, algo que talvez alguém de fora não tivesse a confiança da família para explorar.
– A família parte, ainda este ano, para uma nova aventura, a "Expedição Oriente", que virará outro documentário seu. O que você pretende trabalhar neste filme?
– Não estarei a bordo o tempo todo, por causa do trabalho com outro longa, "Pequeno segredo". Mas terei uma equipe trabalhando no veleiro o tempo todo, para narrar uma nova saga, os desdobramentos históricos deste percurso, e haverá, claro, muita aventura, além de um foco ambiental muito interessante. Faremos imagens aéreas de locais nunca antes retratados, como partes remotas da Patagônia, algumas pequenas ilhas do Oceano Índico e muitos outros, além de paisagens já mostradas, mas especiais.
– Falando em "Pequeno segredo", como é levar aos cinemas uma história tão íntima e como pretende fazer isso?
– Estamos nos preparando para começar a produção em fevereiro e rodar o filme no meio do ano que vem. É um grande desafio, mas confio muito na equipe. Tivemos um problema inicial com o roteiro, mas conseguimos contratar o Marcos Bernstein, de "Faroeste caboclo" e "Somos tão jovens", e tudo deslanchou. Conheço muito bem essa história e quero contá-la sem que vire um melodrama, uma história incrível que aconteceu naturalmente. Adotar a Kat foi ato simples, mas ao mesmo tempo corajoso e difícil de meus pais, de quem sou o maior fã. Um ato heroico, que hoje, eu, pai de um menino de 4 anos, me pergunto se teria.
DAVID SCHURMANN
Palestra motivacional
Dia 3 de outubro, às 20h
Cine-Theatro Central
(Praça João Pessoa s/n)
Os ingressos podem ser retirados até o dia 2, das 9h às 13h e das 14h às 16h, na bilheteria do teatro









