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Belos seres e seus reflexos


Por RENATA DELAGE

29/08/2013 às 07h00

O balé mais tradicional da história é interpretado com vigor pelos bailarinos da Cia. Brasileira de Ballet, do Rio de Janeiro. Técnica apurada e jovialidade delineiam os contornos da montagem de O lago dos cisnes, apresentada apenas esta noite no Cine-Theatro Central. A cidade recebe pela primeira vez a versão completa da obra do compositor russo Tchaikovsky, que estreou no Teatro Bolshoi, em Moscou, em 1877. O espetáculo carioca – trazido à cidade pela Misailidis Produções – é dirigido por Jorge Texeira e conta com quatros atos, interpretados por 46 bailarinos.

Para o diretor artístico da montagem e também diretor da companhia há 12 anos, cada jovem bailarino acrescenta à obra suas virtudes, o que traz um frescor de novidade ao histórico balé. A história da obra ficou ainda mais popular depois do sucesso de ‘Cisne negro’ (filme indicado ao Oscar e que rendeu a Natalie Portman a estatueta de melhor atriz em 2011), prossegue Texeira.

O lago dos cisnes conta a história da princesa Odete que, tendo sido transformada em cisne, toma sua verdadeira forma numa noite especial. O príncipe Siegfried apaixona-se por ela e deseja romper o encantamento, escolhendo-a como esposa durante o baile do rei. Mas Rothbart, o bruxo maligno que a enfeitiçara, substitui Odete por sua própria filha, Odile. Enganado de início, Siegfried enfim descobre o plano e corre à floresta para reencontrar Odete e declarar seu amor. A princesa o perdoa, mas o lago se agiganta sob a ira do bruxo, atraindo Odete e Siegfried para as águas.

A dualidade entre o bem e o mal, representados pelos cisnes branco e negro, respectivamente, é algo universal e sempre despertará interesse por seu caráter atual, segundo o diretor. Enquanto o ser humano sonhar e se apaixonar, as histórias românticas, os contos de fadas, terão o seu lugar na preferência do público.

A montagem estreou no Rio de Janeiro em junho deste ano, na inauguração do Teatro Bradesco, e traz cenários, figurinos e desenho de luz inéditos, elaborados por Tânia Agra e Bruno Barreto.

Nosso corpo de baile não possui primeiros ou segundos bailarinos, são todos tratados de forma igual, podendo dançar como primeiro papel ou integrar as coreografias em grupo. Essa possibilidade faz com que os integrantes tenham ainda mais empenho e dedicação, além da vontade que já é natural da juventude. Antes dos aplausos, os bailarinos clássicos encaram uma verdadeira maratona de ensaios em busca dos movimentos perfeitos. No caso do elenco carioca, a carga horária diária de ensaios vai das 8h30 às 17h, podendo ser estendida às vésperas das apresentações.

A companhia reafirma, a cada temporada, seu papel de formadora de talentos. Possuir um elenco jovem, como o do trabalho de logo mais (com idades entre 16 e 25 anos), é uma das características do grupo, que está sempre se renovando. Esta noite, por exemplo, será de despedida para uma das bailarinas do elenco, Isabela Coraci, que irá para Inglaterra integrar o Ballet Black. Outros bailarinos também estão de malas prontas para, em breve, se dedicar à dança nos Estados Unidos. Muitos balés, principalmente internacionais, têm visto o nosso trabalho e se interessado por nossos bailarinos, conta Texeira.

Vários talentos que hoje brilham na Cia. Brasileira de Ballet foram recrutados de trabalhos sociais, a exemplo do Projeto Aprendiz, no qual a companhia oferece a crianças de 11 e 12 anos aulas de balé no período da noite. Os jovens que se destacam começam estagiando no grupo até se tornarem membros efetivos do elenco. Cerca de 80% dos bailarinos não são do Rio. Temos jovens de Natal, Belo Horizonte, São Paulo, Goiás, até do Paraguai, enumera. Desses, 90% vieram de projetos sociais ou chegaram até nós por falta de apoio da família quando optaram por fazer balé.

Diferentemente das produções contemporâneas, na qual um bailarino pode fazer um espetáculo sozinho no palco, usando figurinos bastante simples, no balé clássico as produções se destacam por sua grandiosidade no número de participantes e no luxo dos figurinos, o que tornam as montagens mais caras. Para um espetáculo clássico, é requerido um mínimo de 42 pessoas no corpo de baile, bailarinos que precisam estar no auge do seu virtuosismo, diz.

Como não possui patrocinadores fixos, a companhia arrecada a verba necessária aos trabalhos a partir de editais de incentivo à cultura e da bilheteria dos espetáculos. Ainda assim, consegue oferecer bolsas de estudos, além de alimentação e hospedagem aos integrantes. Qualquer trabalho de balé clássico tem plateia lotada. Isso é um sinal de que temos público, mas falta investimento por parte do governo, não só com o incentivo direto, mas também com a possibilidade de dar ferramentas ao setor privado para investir, sabendo que terá mais retorno e menos burocracia, avalia.

Na ativa desde 1967, a Cia. Brasileira de Ballet conta com currículo repleto de prêmios e apresentações por diversas partes do mundo, como China, Estados Unidos, Monte Carlo, Mônaco, México, Argentina e Colômbia. Em seu repertório, figuram outros clássicos, como O quebra-nozes, Gisele e Don Quixote, que já estiveram na cidade. Os dois últimos já têm data marcada para voltar a Juiz de Fora no próximo ano, em maio e agosto, respectivamente, conforme adianta Texeira.

O LAGO DOS CISNES

Hoje, às 20h

Cine-Theatro Central

3215-1400