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Velho e novo Gabriel


Por JÚLIA PESSÔA

29/06/2013 às 07h00

Parece que foi ontem, mas 20 anos já se passaram desde quando o então Gabriel Contino, com 18 anos, ganhava a atenção do público e da mídia com versos como Todo mundo bateu palma quando o corpo caiu/ eu acabava de matar o presidente do Brasil, do rap Tô feliz (matei o presidente). A composição foi feita para Fernando Collor, em 1992, meses antes de sua renúncia após movimentos populares ganharem as ruas pedindo por Impeachment.

Em um cenário político de indignação e manifestações que remete ao vivido naquela época, Gabriel o Pensador volta a Juiz de Fora na turnê do álbum Sem crise, depois de oito anos de jejum desde Cavaleiro andante, de 2005. No novo trabalho, o artista encontra-se com seu passado em letras ácidas, participações especiais e referências ao surfe, sem, contudo, deixar de caminhar em frente.

Sem crise representa um retorno ao hip-hop mesclado a vertentes brasileiras, passeando também por outras sonoridades, com samples e batidas eletrônicas, certamente um resultado da parceria com o DJ e produtor Fernando Deeplick, responsável por remixes de Vanessa da Mata, sons novos como o Oba Oba Samba House e a (tentativa de) transformação de Wanessa (ex-Camargo) em diva da dance music nacional.

O Gabriel de várzea aparece na articulação inconfundível de palavras e rimas, que tornaram o artista o embaixador do rap nacional entre os anos 1990 e o início dos 2000. O bom e velho Pensador também está na crítica contundente à corrupção, presente ao longo da carreira do rapper em letras atemporais como as 175 nada especial, O cachimbo da paz, Até quando e tantas outras. Neste álbum, o dedo toca a ferida em Nunca serão, um rap-fábula sobre o personagem Capitão Nascimento, que constata uma conjuntura tão real quanto pessimista ao dizer que Os políticos corruptos cassados nunca serão.

Já músicas como Sem crise, Foi não foi e Homem não presta resgatam o bom humor já visto em composições como 2345meia78 e Festa da música, ambas do estourado Quebra-cabeça, de 1997. Linhas tortas, por sua vez, traz um belíssimo retrato autobiográfico do músico e de sua vocação, transbordando poesia em intimismos como (…)descobri que já nasci com esse problema/ eu gosto de escrever, eu gosto de escrever, crer, ver.

Entre as participações especiais do disco, estão os músicos Pedro Baby (guitarra) e Laudir de Oliveira (percussão) e artistas como Jorge Ben Jor (na mesma faixa de Laudir, Solitário surfista/ Surfista solitário, esbanjando sua tradicional simpatia), Carlinhos Brown, Nando Reis e os meninos da ConeCrewDiretoria, estes representantes da geração de rappers que já nasceu influenciada pelo trabalho de Gabriel.

No repertório de hoje, o velho e o novo Pensador sobem ao palco, com as novidades de Sem crise e os hits de duas décadas, sob promessa certa, em momentos como os atuais, de um coro de apoio arrebatado na interpretação de estrofes como Muda que quando a gente muda o mundo muda com a gente/ A gente muda o mundo na mudança da mente/ e quando a mente muda a gente anda pra frente/ e quando a gente manda ninguém manda na gente!

GABRIEL O PENSADOR

Hoje, às 23h

Cultural Bar

(Av. Deusdedit Salgado 3.955)