‘Tem que arrepiar’
"Tem que arrepiar, colocar pra fora o que vem de dentro e não dá pra segurar. É um estado de espírito." Sem rodeios e à mercê do que mandar a emoção, é desta forma que Sandra de Sá, diva da black music brasileira, descreve seu processo criativo.
Ao longo de 33 anos, a cantora passeou por diversas vertentes musicais, do samba ao soul, das raízes africanas ao rock. "Faço o que estou ‘afinzaça’ de fazer, sem complicação, sem rótulos, sem barreiras. Música é isso", simplifica. De volta em grande estilo, Sandra é a principal atração do show em comemoração aos 163 anos de Juiz de Fora, na próxima sexta-feira, dia 31 de maio.
Com a mesma irreverência, a artista conta que conquistar diferentes paladares musicais em mais de três décadas "é uma honra e um orgulho total". "E é também fruto de uma vontade muito grande de cantar, de dançar, de viver. Isso contagia. Com música, se você inventa demais, acaba se perdendo. O lance é querer estar feliz e levar isso para as pessoas, aí fica fácil dialogar com qualquer público, em qualquer tipo de evento. Todo mundo quer ser feliz."
Antenada na diversidade e na versatilidade da música brasileira, Sandra traz a Juiz de Fora o projeto "Baculeju", que já fez multidões caírem no suingue e relembrarem grandes sucessos do soul nacional.
No repertório da roda de groove, canções que representam o que a artista chama de MPB – Música Preta Brasileira, reunindo hits de músicos do calibre de Tim Maia, Jorge Ben Jor, Simonal e Bebeto. "É música que faz jus ao Brasil, o país mais musical do mundo. A gente faz tudo, rock, funk, soul, xote, tudo com suingue. E com suingue é bem melhor", conta Sandra, que teve participações de Seu Jorge, Preta Gil, Serjão Loroza e Buchecha nos ‘baculejus’.
No caldeirão dançante do show, também entram sucessos próprios, como "Olhos coloridos", que transita entre o funk’n’roll e o rock’n’soul, e tornou-se hino da black music nacional. "Estou muito empenhada no Baculeju, que surgiu do som que eu fazia em casa, com amigos e mistura muita coisa boa."
Para a artista, há espaço para todos os gêneros musicais, desde que haja equilíbrio. "O que acontece, às vezes, é uma indústria anti-cultura, repetição de coisas muito iguais que não acrescentam a ninguém. Acho que o jeito de investir na qualidade não é criticar, é ‘chegar junto’, abrir um diálogo, fazer trabalhos conjuntos. Com isso, todo mundo cresce."
‘Não dá para ficar de fora’
Sempre engajada em causas sociais, como campanhas contra o racismo, a discriminação e a violência, Sandra, que já foi alvo de preconceito no início da carreira, acredita que estamos no limiar de dias melhores, ainda que a passos lentos. "Acho que as pessoas estão mais conscientes, inclusive as que sofrem preconceito. Se você se submete, vai ficar assim para sempre. Esse ‘papo de coitadinho’, de desistir de alguma coisa ‘porque aquilo não é para mim’ não está com nada. É conhecendo os próprios direitos e defendendo-os que vamos caminhar para uma sociedade mais justa."
Recentemente, a artista se juntou a outros ícones culturais do país, como Chico Buarque, Zélia Duncan, Caetano Veloso, Arlete Salles e gravou um depoimento em apoio à proposta de emenda constitucional que permite o casamento civil de homossexuais, elaborada pelo deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ). "Acho que é papel de todo mundo lutar pelo respeito a coisas que podem fazer a humanidade crescer. Se Deus me deu uma voz que pode falar mais alto, ‘bora lá! Não dá para ficar de fora."
Encorpando o groove do aniversário da cidade, os rapazes do Silva Soul também farão o balanço da noite, mostrando à "diva" carioca o suingue "made in Juiz de Fora". "Realmente é especial. Ela é ‘a’ voz feminina da soul music brazuca. Em um show gratuito, há sempre a oportunidade de agregar mais gente, sem limite de idade ou condição financeira. A cena black da cidade está cada vez mais forte, e já convocamos a galera do rap para cantar com a gente. Os B-boys tomarão conta da praça, e a Sandra vai se sentir em um grande baile soul a céu aberto", promete o baixista Marcelo Castro.
Na estrada com a turnê do CD autoral, que já passou por São Paulo e se prepara para ir ao Rio e Belo Horizonte, o Silva prepara uma setlist de clássicos e novidades, perfeito para esquentar o friozinho do outono de Juiz de Fora, como anuncia Marcelo. "A base são as músicas do nosso disco, mas tem alguns hits na manga para aproximar quem ainda não nos conhece. O rap também vai estar no palco, com os manos do "Encontro de MCs", e, pela primeira vez, com Negro Bússola representando a velha-escola da cidade."
SANDRA DE SÁ E SILVA SOUL
Sexta, às 18h (Silva) e às 20h (Sandra)
Praça da Estação









