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Pesquisadores acessam obras originais na web


Por RENATA DELAGE

29/04/2012 às 06h00

Os muitos tons que coloriram as versões de uma das histórias infantis mais contadas desde o século XIX resumiam-se ao preto, vermelho, azul e verde, nas páginas amareladas do livro original de Lewis Carroll. O manuscrito de "Alice no País das Maravilhas", originalmente "Alice’s adventures in Wonderland", é um dos tesouros da British Library, disponibilizado na íntegra em páginas da internet. A história, criada para entreter as filhas do vice-chanceler da Universidade de Oxford e decano da Igreja de Cristo, Henry Liddell, em meados de 1860, deu origem a uma série de adaptações para o cinema e o teatro, além de inspirar estudos e discussões a respeito de seu teor enigmático, moral e filosófico. As 92 páginas caprichosamente transcritas à mão por Carroll figuram como apenas uma das inúmeras – e notórias – reproduções de originais de trabalhos literários, históricos e científicos espalhados pela rede e, com isso, compartilhados com o grande público.

Após 24 séculos, os manuscritos do Mar Morto, que incluem os textos bíblicos mais antigos de que se tem notícia, foram liberados para consulta pública na internet. Desde 1965 mantidos no escuro, em salas climatizadas do Museu de Israel, em Jerusalém, os fragmentos de pergaminhos e papiros – em suas línguas originais, hebraico, aramaico e grego – foram disponibilizados, segundo o Google, em alta resolução, para que pesquisadores possam visualizar detalhes dos documentos.

Seguindo o mesmo conceito, a Universidade de Cambridge, na Inglaterra, através da Cambridge Digital Library, compartilha uma das maiores coleções de trabalhos do homem considerado por muitos o mais importante físico de todos os tempos, Isaac Newton, para que "pesquisadores, professores e aprendizes de uma vida toda possam explorar uma ampla gama de recursos e descobrir seus próprios tesouros". Dentre os trabalhos disponíveis no site da instituição, estão os manuscritos originais das famosas leis da mecânica, bem como a versão comentada pelo próprio cientista.

"Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã. São muitas, eu pouco." Os versos de Carlos Drummond de Andrade, em "O lutador", são citados pela doutora e pesquisadora Moema Rodrigues Brandão Mendes para elucidar que o ato de escrever é também a arte de reescrever. "Não podemos dizer que um texto é definitivo até que seu autor morra, pois o autor a cada nova edição tende a reescrever seu texto", avalia. Estudiosa da chamada "crítica genética" – que tem como ponto de partida a pesquisa dos manuscritos – Moema defende a importância da linha que desmitifica a ideia de que o escritor é "quase um deus". "Muitos acreditam que escrever é colocar o texto de uma só vez no papel, resultado de uma inspiração divina. No entanto, percebemos, ao analisar os trabalhos de Rachel de Queiroz, Murilo Mendes, Gilberto e Cosette de Alencar, que houve um processo de reescritura constante."

Até pouco tempo, segundo Moema, o manuscrito era considerado apenas o rascunho da obra. Contudo, hoje, materiais, como cartas, cartões, diários e telegramas, são considerados manuscritos e, portanto, objetos de um estudo minucioso. "Rachel de Queiroz concebeu ‘Memorial de Maria Moura’ todo em agendas, assim como Gilberto de Alencar, que escreveu o romance ‘Reconquista’ em seis pequenos cadernos de folhas pautadas", exemplifica.

Caligrafia, rabiscos, discretas ilustrações, comentários nas bordas. Detalhes que fazem dos manuscritos objetos de extremo valor, pois permitem a imersão, mesmo que apenas em parte, no processo de criação do autor. "Ainda existe a ingenuidade do leitor de achar que a obra que compra na livraria é resultado da vontade autoral. Existem muitas modificações por motivos editoriais, em favor de uma ou outra ilustração ou do tamanho de página. Ter acesso ao manuscrito é ter o contato com o texto fidedigno e poder partir de suas próprias interpretações, não da de terceiros", conclui Moema, que ministra disciplinas no programa de mestrado em letras do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES).

"Os manuscritos nos ajudam a redescobrir aspectos intrínsecos à obra e ao artista. Através deles, percebemos o que o inquietava, o que lhe chamava a atenção." Nas obras do acervo de Murilo Mendes, arquivadas hoje no museu de arte que leva seu nome, não faltam anotações, palavras-chave e marcas em páginas que continham informações relevantes ao poeta, segundo o responsável pela divisão de arquivo da biblioteca do Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), Bruno Horta. "Há uma edição de ‘Os lusíadas’ em que Murilo escreve os nomes completos de personagens de episódios marcantes da obra. Em outra, Murilo questiona um verso de um dos cantos da obra camoniana, escrevendo no final do livro que tal verso ‘não é decassílabo’."

O Mamm abriga, ainda, manuscritos do acervo Alencar, objetos de estudo de Moema, ligados à construção da identidade artístico-literária juiz-forana. Entre eles, estão "Memórias sem malícia" e "O escriba Julião de Azambuja", de Gilberto de Alencar, e "Giroflê, giroflá", de Cosette de Alencar. Em parceria com o CES, a pró-reitoria de Cultura da UFJF vem desenvolvendo um projeto de resgate de manuscritos para a composição de um dossiê genético. "O objetivo é disponibilizar, futuramente, esses estudos, através de um link no site do Mamm, a fim de que as pessoas possam conhecer mais sobre a memória literária de Juiz de Fora", diz Bruno.

A tendência ao compartilhamento também é a meta do Museu Imperial de Petrópolis. Nos arquivos históricos, os originais da literatura são chamados de "fontes primárias". Contudo, a relevância do estudo dessas manifestações pessoais e únicas é igualmente destacada. A análise de fontes primárias, a exemplo de esboços de estudos e traduções de obras como "Mil e uma noites" feitos por Dom Pedro II (documentação de caráter privado do arquivo da Casa Imperial do Brasil), permite a interpretação de uma série de "relações sociais e políticas, uma leitura das entrelinhas da época, e que certamente não está nos documentos oficiais", constata Alessandra Fraguas, historiadora e responsável pelo apoio técnico às pesquisas do arquivo histórico do Museu Imperial.

Levando em conta que apenas 7% do acervo da instituição – incluindo arquivo histórico, museologia e biblioteca – ficam expostos em caráter permanente, o museu investe, desde 2009, no projeto de digitalização de todo o acervo, composto de 250 mil documentos em seu arquivo histórico. Atualmente, apenas uma pequena parte deste material pode ser visualizada na página oficial da instituição. "É uma tendência mundial essa disponibilização, mas é um processo caro, e, no momento, não contamos com patrocínio. Se, por um lado, o grande objetivo é difundir a importância histórica e cultural e ampliar o acesso a esses documentos, por outro, é uma forma de preservá-los, pois evitamos seu manuseio e possíveis danos", explica a historiadora.