‘Não vejo o cinema brasileiro nos próximos anos voltando ao Oscar’, afirma Rodrigo Teixeira, ganhador da premiação
Produtor de ‘Ainda estou aqui’ faz análise do cenário em Tiradentes e conta que governo não o procurou para saber estratégias de divulgação no Oscar; próximo filme de Brian de Palma, produzido por ele, terá equipe brasileira

Depois de dois anos com uma torcida empolgada por “Ainda estou aqui” e “O agente secreto”, o cinema brasileiro não deve voltar ao Oscar. Ao menos é o que pensa Rodrigo Teixeira, produtor do primeiro filme a receber a premiação e fundador da RT Features. Isso porque, como ele explica, as duas obras que receberam a indicação tinham diretores com nomes que “têm o mesmo peso da bandeira de um país” e pertencem a uma geração anterior, de 50 e 60 anos. Depois deles, houve uma lacuna no audiovisual brasileiro, pelo desmonte do Ministério da Cultura e a falta de incentivo público, que gerou, na análise do cineasta, uma dificuldade de se produzir outra geração de peso. O especialista fez essa afirmação durante fala em mesa sobre a internacionalização do cinema nacional, durante a Mostra de Cinema de Tiradentes, que também teve a presença de órgãos públicos.
Quando compara a trajetória dos dois filmes até chegar ao Oscar, Rodrigo Teixeira percebe que tiveram em comum, além de aspectos sobre a qualidade dos filmes, o renome dos diretores Walter Salles e Kleber Mendonça Filho no cenário internacional — e a circulação em festivais como Cannes e Berlim. Ele destaca, no entanto, que a América Latina foi essencial para a vitória de “Ainda estou aqui”, apesar do mercado do cinema brasileiro ainda olhar pouco para os países latinos. “Eles votaram na gente porque eles entendem que é necessário ter um filme importante pra região ganhando o prêmio. Se ganha, ganha toda a região, não só o Brasil”, afirmou o produtor. Já “O agente secreto”, por sua vez, ele entende que tem outras relações que são complementares às do filme que ganhou em 2025.
Um desses aspectos é a Neon, distribuidora que é responsável pelo filme nos Estados Unidos. “A distribuidora de ‘O Agente secreto’ é a maior distribuidora de filme estrangeiro dos EUA e faz um trabalho excepcional”, comenta ele, exemplificando que ela é a responsável por emplacar quatro dos cinco filmes indicados ao Oscar de melhor filme deste ano. Mas, dentro do próprio país, ele entende que houve pouco diálogo para que o feito se repetisse. “Sabe quantas vezes o governo brasileiro me procurou para perguntar como foi a estrutura de lançamento do ‘Ainda estou aqui’ e como a gente fez a campanha do Oscar? Zero”, diz.
Para além disso, no entanto, ele nota que esses dois projetos levaram tempo e, sem uma política contínua de investimento — além de menor dependência do setor do investimento público —, é muito difícil repetir o feito. “O ‘Ainda estou aqui’ era um projeto de 11 anos. Não era um projeto que começou a ser feito em 2023 e ganhou em 2025, começou em 2011 para ganhar em 2024. ‘O agente secreto’ começou a ser feito depois de ‘Bacurau’, que é de 2019. Ainda que o Kleber tenha começado a escrever antes, estamos falando de sete anos. Esses autores não vão fazer um filme ano que vem, talvez vão fazer um filme em 2028. Eles têm mais chance de voltar de onde saíram”, afirma.
Brasil está na moda?

Apesar de não ser muito otimista quanto à participação do Brasil no Oscar nos próximos anos, o produtor afirma que o país “sempre esteve na moda”, como é possível ver na música, cinema e turismo. “ É um polo culturalmente muito importante, seja na música ou em manifestações artísticas como o carnaval. O cinema não poderia estar distante”, afirmou à Tribuna. Nas telas, inclusive, ele entende que não há uma temática específica que os gringos esperam encontrar. “Acho que não existe uma temática específica, por mais que os dois filmes falem de uma temática conjunta, que é a ditadura militar. (…) Acho que muitos governos internacionais estão vivendo pseudo ditaduras e por isso estão tendo mais interesse em entender o que aconteceu em outras ditaduras”, afirma.
O produtor inclusive destacou o documentário de Petra Costa, “Apocalipse nos trópicos”, pela sua indicação ao Bafta, e reconheceu que o país tem, sim, apesar das dificuldades, grande potencial de se destacar no audiovisual do mundo. Outro exemplo emblemático, em sua visão, é o caso de Adolpho Velozo, que ganhou reconhecimento internacional pela fotografia de “Sonhos de trem”. “O Brasil é um celeiro de excelentes cineastas. Temos excelentes diretores de cinema, excelentes técnicos de cinema. Não é à toa que um fotógrafo que era completamente desconhecido para todos nós foi indicado ao Oscar”, diz. Outra medida importante que ele passou a adotar foi, em suas produções, trazer sempre equipes com profissionais brasileiros: é o que vai acontecer no próximo filme que fará de Brian de Palma.
Setor público apresenta medidas de internacionalização
Durante a mesa, representantes da Ancine e da Secretaria Nacional do Audiovisual do Ministério da Cultura também revelaram os trabalhos do setor público para fortalecer relações multilaterais e bilaterais, promover o Audiovisual Brasileiro internacionalmente, fomentar o ambiente de profissionalização e intercâmbios profissionais e fortalecer a institucionalização do fomento à internacionalização do Audiovisual Brasileiro. Todas essas iniciativas, como explicam Daniel Tonacci (Ancine) e André Araújo Virgens (Minc), tiveram como objetivo reposicionar o Brasil no mundo. “Durante a gestão, tivemos que mudar radicalmente a forma de relacionamento com o mundo e com parceiros estratégicos, retomando a nossa participação em organismos multilaterais, sejam organismos multilaterais mais amplos ou mais especificamente de audiovisual”, explica André, citando a volta para o G20 e os impactos disso para o grupo de cultura.
Outra medida destacada pelos órgãos públicos foi a organização do Festival de Cinema do BRICS, que aconteceu em Fortaleza, e a participação do Brasil e festivais importantes em outros países — como aconteceu na França e levou várias ações culturais para o país, inclusive em Cannes. Também foi revelado que está entre os planos da Secretaria a Film Commission Nacional, que já tinha sido proposta pelo Ministério da Cultura em 2026. No âmbito da Ancine, por sua vez, está sendo reservada uma verba recorde para co-produções internacionais: entre 2022 e 2026, foram sete chamadas públicas que totalizaram um montante de R$ 260 milhões.
*A repórter viajou a convite da Mostra
Tópicos: Mostra de Cinema de Tiradentes