‘Não vejo a minha rota de trabalho como uma linha ascendente’, afirma Karine Teles, homenageada na Mostra de Cinema de Tiradentes
Atriz, roteirista e diretora reflete sobre carreira e dificuldades da profissão; projeto ‘Princesa’ está em fase de viabilização

Karine Teles acaba de receber homenagem pela trajetória de sua carreira na Mostra de Cinema de Tiradentes. No audiovisual, ela deu vida a personagens marcantes tanto no cinema independente (como em “Riscado” e “Benzinho”) quanto em novelas (“Vale tudo” e “Pantanal”) e em algumas das produções brasileiras mais celebradas das últimas décadas (“Que horas ela volta?” e “Bacurau”). Mas essa trajetória nem sempre foi fácil: ao receber o prêmio, ela contou que já pensou em desistir da carreira de atriz muitas vezes, e que ainda hoje não escolhe personagens apenas pelo que tem vontade de interpretar. Mesmo diante das dificuldades de ser artista em um país que, como define, “uma hora tem Ministério da Cultura e na outra não tem mais”, o prêmio representou para ela um momento de olhar para a própria carreira e celebrar. “Me senti vista e respeitada.”
Receber o reconhecimento em Tiradentes, como conta, foi um choque. Isso porque a sua trajetória também passa pela cidade: o filme que foi uma verdadeira virada de chave em sua carreira, “Riscado” (2010), foi exibido nesta mostra. Chegar em um momento como esse, é claro, fez com que ela refletisse sobre o caminho traçado até aqui. “Depois parei para processar. Eu não acredito em auge, porque o auge pressupõe uma queda, e espero que isso não aconteça… espero que eu esteja em um caminho”, diz. A ligação com Minas Gerais é ainda mais intensa pela trajetória da própria família, apesar dela ser nascida em Petrópolis: “Fui feita em Minas Gerais. Meu pai trabalhava em Juiz de Fora e minha mãe sempre ia visitar”, revela.
A atriz entende que sua carreira, agora mais consolidada, não seguiu um modelo padrão que se via na cena cultural brasileira há anos atrás: “Não vejo a minha rota de trabalho como uma linha ascendente, mas como uma estrada sinuosa, com curvas, descidas e subidas. Um caminhar, que é o que mais me interessa. Eu gosto de fazer o trabalho muito mais do que ver ele pronto. (…) Não tenho esse desejo de ascensão, mas de permanência. Que eu possa estar exercendo a profissão que escolhi enquanto estiver viva e com saúde”. É um pouco sobre esse assunto que o filme “Riscado” se aprofunda, ainda em uma perspectiva diferente da que ela está agora. “É um marco e nasce de uma angústia profunda minha, de já estar trabalhando como atriz há muito tempo e não conseguir pagar as minhas contas com o meu trabalho. E de pensar se estava insistindo em algo que não aconteceria, se não era dar murro em ponto de faca”, relembra. A obra tem direção de Gustavo Pizzi e roteiro assinado pelos dois.
Aquele momento de mudança de paradigma veio acompanhado da gravidez de seus filhos gêmeos, Artur e Francisco (que inclusive estiveram com a mãe no momento de entrega da premiação). Mas, desde então, projetos importantes foram aparecendo e foram sendo desbravados por ela. Ainda hoje, no entanto, parte dessa angústia permanece quando é questionada sobre que papéis prioriza em sua carreira. “Eu queria te responder que eu escolho o que eu quero, mas é mentira. Às vezes aceito o trabalho que se apresenta porque sou uma profissional e vivo disso, preciso pagar minhas contas. Mas é claro que já fui oferecida coisas que para mim era impossível aceitar. Já fiquei e fico até hoje em situação de não estar trabalhando porque não quis fazer um projeto em que não acreditava”, revela. Na televisão, no entanto, ela entende que encontrou uma forma de fazer que a interessa muito, que é a da presença diária e desenvolvimento das personagens. O que não a interessava e permanece não interessando, no entanto, é a fama que vem com participações como nas novelas das 21h. “É algo que eu tentei não assimilar, porque é o que menos me interessa na profissão. Espero que a fama só esteja na minha vida como consequência, porque nunca foi meu objetivo”, diz.

Possibilidade do incômodo
Nos dois filmes que Karine fez com maior público nos cinemas brasileiro, “Que horas ela volta?” (2015), de Anna Muylaert, e “Bacurau” (2019), de Kleber Mendonça Filho, ela interpreta personagens que podem ser consideradas vilãs — ou que ao menos despertam raiva entre o público que reconhece, seja na Dona Bárbara (a patroa na primeira obra), ou na forasteira da segunda, figuras emblemáticas de uma cultura elitista e colonizadora. “Surpreendentemente, também estou no lugar de uma pessoa em que bastante gente do país se identifica”, comenta ela, destacando que “Que horas ela volta?” provavelmente foi o papel mais difícil de sua carreira justamente por isso.
Para essa construção com a própria voz, corpo e rosto, no entanto, ela acredita que sua visão de mundo não pode estar à frente da personagem. “Se eu vou fazer uma mulher que é uma rica, de família quatrocentona e que lida com a pessoa que trabalha na casa dela de forma bastante questionável, tenho que fazer acreditando que está fazendo o correto, que está agindo da melhor maneira. Se eu fizer criticando, acho que eu tiro a possibilidade de quem está assistindo de questionar e sentir esse incômodo”, explica. Em “Bacurau”, por sua vez, ela entende que não era possível fazer uma gênese da personagem, mas encontrar algo nela que representasse um pensamento político do país.
Esse trabalho, inclusive, marcou a parceria entre ela e Kleber Mendonça Filho, que está indicado ao Oscar de 2026 com “O agente secreto”. Ela já era fã do trabalho do diretor desde seus curtas, que assistia em fita VHS: “Eu lembro exatamente do dia que ele me falou, pelo Facebook, que talvez tivesse uma personagem pra mim. Falei: ‘Eu passo correndo lá atrás, faço o que você quiser'”, relembra. Ela também contou que já assistiu ao filme duas vezes e que poderia “viver nele”. “Acho um cinema corajoso, ousado e questionador. Ele usa as referências sempre de maneira interessante e provocativa. Acho lindo que esse filme, com essa narrativa cheia de espaço e de buracos, seja o filme que está concorrendo a tantas categorias do Oscar, que é a grande vitrine do cinema comercial”, conta. No entanto, também não é esse lugar que almeja, como atriz, nem que acredita que o cinema precise sempre buscar.
Trabalho como diretora
Entendendo que a postura de atriz é sempre criativa em relação aos personagens, ela também já tem uma carreira como roteirista (em produções como a série “Os últimos dias de Gilda” e também “Benzinho”, filmado na sua cidade natal) e pretende continuar explorando as possibilidades que existem como diretora depois dos curtas “Otimismo” e “Romance”. Exemplo disso é o projeto “Princesa”, que está em desenvolvimento: “É um filme que comecei a desenvolver no núcleo criativo do Filmes de Plástico, que é essa produtora maravilhosa aqui de Minas com que tenho essa parceria há muitos anos, e estava como roteirista”. A partir das discussões sobre o longa, e com um conselho de Anna Muylaert, ela decidiu que seria a diretora do filme.
A obra está no momento de viabilização da produção. “O ‘Princesa’ é um filme que brinca com a ideia da comédia romântica, que a minha geração cresceu assistindo, e os contos de fada, que a gente cresceu lendo e aprendendo que o auge da felicidade de uma mulher seria ela se tornar uma princesa”, explica. E também expandindo essa brincadeira, que leva para própria vida, ela continua buscando, quando pode, projetos que a fazem se arriscar artisticamente e criativamente. E quer continuar fazendo isso, por exemplo, em filmes de terror, suspense ou de época, que ainda não fez. O momento, como define, é de aproveitar a mostra como quem está em uma trilha e para em um mirante para admirar: “Respira, bebe uma água e segue”, diz.
*A repórter viajou a convite da Mostra
Tópicos: Mostra de Cinema de Tiradentes