O que esperar da cultura em 2015
2014 também parece ter sido o ano que não terminou na cultura de Juiz de Fora. Afinal, foram muitas as expectativas não superadas e poucas as novidades. Nada que tirasse o fôlego, mas também nenhuma tragédia. Um ano que, talvez, não seja daqueles que marquem a história coletiva. Porém, não rendeu motivos para nos envergonharmos. 2015, no entanto, segundo perspectiva de gestores locais, será um ano em que, definitivamente, os entraves econômicos se verão refletidos na área cultural. Ainda assim, alguns dos muitos equipamentos culturais prometidos para o ano que se passou não devem continuar de portas fechadas até o fim do segundo semestre.
Conquista não apenas de um extremo da cidade bastante negligenciado, por anos, na cultura local, o Centro de Esportes e Lazer (CEU) da Zona Norte deve ser inaugurado até meados de março. “Já está tudo encaminhado para isso. Ele está pronto e só não foi aberto, ainda, por conta da morosidade natural dos processos licitatórios”, explica o superintendente da Funalfa Toninho Dutra, pontuando que está aberto um edital para chamada pública de uma organização social que vai conduzir os trabalhos no local. “Provavelmente teremos um funcionamento primoroso perto do que vimos em uma reunião em Brasília, já que as cidades estão com muitas dificuldades para manter esses espaços”, completa.
Apesar de todo o atraso, a praça ainda pode ser a primeira no Brasil a inaugurar com o formato de 7.000m² (existem outros dois formatos: 700m² e 3.000m²). Os altos custos para manutenção do equipamento, que está localizado na Avenida JK, na altura do acesso ao Bairro Araújo, não comprometerá o orçamento da Funalfa, gestora do local. “As projeções para o ano, e não sou eu quem diz, não são boas. Mas para tudo o que apontamos já temos recursos assegurados”, garante Toninho, confirmando para 2015 a primeira Bienal da Dança, em outubro, o Foto 15, em agosto, o Festival Nacional de Teatro, em setembro, e uma semana de artes plásticas para artistas que não trabalham com fotografia.
“O orçamento reflete o que vivemos no país nesse momento. A Funalfa encerra um ano pesado sem nenhum grande problema financeiro. Tudo muito calculado, sem dívidas e sem problemas. Vamos pagar, ainda esse ano, a primeira parcela da Lei Murilo Mendes”, diz o superintendente, sem falar em valores, mas afirmando que a previsão é de um orçamento, já aprovado, pouco maior que em 2014. Para o próximo ano, também está mantido o valor da lei de incentivo, até agora sem acréscimos, mas também sem cortes. O carnaval também não sofrerá alterações e continuará na semana anterior do feriado. Questionado sobre a permanência dos atuais gestores da cultura na PJF, o prefeito Bruno Siqueira é direto: “Todos os nossos secretários e pessoas de cargos comissionados da Prefeitura estão aptos a continuarem e aptos a serem modificados. São decisões futuras que tomaremos”.
Menos obras e mais espaços
Ao menos outros dois espaços prometem ser inaugurados no primeiro semestre de 2015: o Memorial da República Presidente Itamar Franco e o antigo prédio do DCE. Contemplada com recursos do Fundo Estadual de Cultura – FEC, ainda em 2013, a Biblioteca Municipal Murilo Mendes deve entrar em reforma nos próximos meses. “Vamos recuperar parte do telhado e também melhorar a rede de computadores e o acervo”, compromete Toninho Dutra, referindo-se aos R$ 70 mil destinados pela Secretaria de Estado de Cultura e outros R$ 14 mil como contrapartida da Prefeitura.

Com as obras concluídas, o Memorial da República deve ser aberto ao público no final de março. De acordo com o professor do Instituto de Artes e Design, José Alberto Pinho Neves, responsável pelo acompanhamento do projeto, o novo espaço vivencia os últimos ajustes, além da conclusão da proposta de expografia. Já o prédio na esquina da Rua Floriano Peixoto com Avenida Getúlio Vargas deve ser finalizado em fevereiro, mas ainda estão em discussão a ocupação e gestão do lugar.
Considerado um dos maiores “elefantes brancos” da cidade, o Teatro Paschoal Carlos Magno finalmente pode entrar em obras no primeiro semestre do próximo ano, com previsão de abertura em meados de 2016. Vencedora da licitação da obra na última terça, a empresa paulista Vero Engenharia orçou em quase R$ 6 milhões a conclusão do espaço, cuja construção foi iniciada há mais de três décadas. Conforme Toninho, o início dos trabalhos depende, apenas, de trâmites burocráticos, e a previsão é de que comece ainda em janeiro.
Passando por uma silenciosa reforma ao longo de 2014, o Cine-Theatro Central deve estar “novinho em folha” até março. “O restauro interno já está quase concluído. Aguardamos verbas para o restauro externo. Aí sim poderemos instalar o Projeto Angelo Bigi, que é uma visita guiada, mais uma fonte de renda para o teatro, com totens que contem a história do lugar e um projetor antigo dos tempos em que o Central servia ao cinema”, comenta o pró-reitor de Cultura da UFJF, Gerson Guedes. De acordo com ele, nas primeiras semanas de janeiro, todas as cortinas estarão trocadas. O processo para aquisição de uma bilheteria eletrônica já foi iniciado e deve entrar em vigor em 2015, bem como a nova tabela de valores do teatro. “Não queremos sacrificar o produtor local, mas rever os valores pagos por eventos como formaturas”, aponta.
Fechado desde 2008 e passando por uma complexa reforma, o Museu Mariano Procópio também conclui, nos próximos 12 meses, importantes trabalhos de revitalização, como a sustentação da Villa Ferreira Lage e a recuperação da claraboia e do lanternim. De acordo com o prefeito Bruno Siqueira, a expectativa é que o lugar se abra para o restauro visitado em 2015. “Nossa ideia é fazer essas visitações para que as pessoas possam tomar conhecimento do nosso museu e das obras que estão sendo feitas. Acreditamos que parte da obra fique pronta ano que vem, e estamos tentando conseguir recursos para a Sala Maria Amália”, explica. “É evidente que não vamos conseguir ter a abertura total, mas já iniciaremos visitas pelo restauro”, comenta, sem citar datas para a ação.

Se tudo der certo, mais público
Se 2014 foi o ano em que o Campus foi a grande atração dos finais de semana dos juiz-foranos, a palavra de ordem “democratização do acesso” continua sendo o norte para as principais políticas culturais do próximo ano. Ainda que a universidade tenha sofrido com um ano de Copa do Mundo, eleições e uma greve dos servidores que durou mais de cem dias, o público que se reuniu na Praça Cívica em projetos como os festivais de circo e de jazz foi um recorde para a instituição. “A ideia é ampliar o alcance, porque à medida em que nossas ações vão ganhando visibilidade, a demanda é gerada naturalmente”, reflete Gerson Guedes, que afirma ainda não ter aprovado o orçamento para 2015.
“Não dá para fazer uma previsão do que vai acontecer. É preciso esperar para ver o que será liberado de recursos para a cultura, mas ideias não faltam”, diz, anunciando, em primeira mão, uma programação especial para o aniversário do Central, em março, com shows de grandes estrelas da música brasileira a preços populares, como Wanderléa e Palavra Cantada. O Museu de Arte Murilo Mendes, segundo ele, também deve se abrir mais à população. “O museu tem que estar sempre atrelado ao Murilo Mendes, porque ele é a razão de ser daquele lugar. Mas aposto que ele mesmo ia querer que fosse um local, também, de oportunidades, para que surjam outros Murilos Mendes”, diz.
Confirmado o nome do ex-prefeito de Ouro Preto e presidente do Instituto Brasileiro de Museus Angelo Oswaldo para a Secretaria de Cultura de Minas Gerais, é provável, também, que a cidade consiga traçar parcerias mais sólidas. Toninho Dutra espera que emendas parlamentares se concretizem. E Gerson Guedes planeja estreitar, ainda mais, os laços com a Prefeitura. Em parceria com a Funalfa, a Pró-reitoria de Cultura da UFJF vai estrear em 2015 o projeto Palco Provisório, para além do Campus, com um show da Orquestra de Jazz do Pró-Música na Feira da Avenida Brasil. “O grande caminho é a parceria”, defende Gerson, otimista. “Não adianta falar que vamos revolucionar a cultura em 2015, porque não será assim. Mas vamos fazer muito benfeito o que nos dispusermos a fazer”, conclui o superintendente da Funalfa, em tom realista.













