Mais perto do que o Imperador viu

Restauradoras retornam com a pintura original, marmorizada, nos corredores que contam histórias

Abertura do porão é novidade do “novo museu”

Ritmo das obras intenso para reabertura

Obras de arte sairão dos corredores escuros para a contemplação da comunidade
Olho o chafariz, bem na entrada da Villa Ferreira Lage, e tento trazer à memória o museu que visitei quando criança. Em vão. O que vejo agora não me faz lembrar. É inédito. E a novidade não se faz só para mim, mas para muitas outras gerações que não tiveram o prazer de ver o que o imperador viu ao se hospedar no lugar, em 1869. Passados anos e anos de pinturas paliativas e retoques emergenciais que ajudaram a descaracterizar o espaço, o museu retoma suas configurações originais, idealizadas por Mariano Procópio e sua esposa Maria Amália. A convite da instituição, a equipe do Caderno Dois da Tribuna adentrou o canteiro de obras para conferir, na última terça, o que a comunidade dos arredores do museu e alguns representantes da MRS Logística, uma das patrocinadoras no projeto de revitalização, poderão ver nesta sexta, quando acontece a primeira visita pública ao restauro.
A terra é muita, como são muitos os trabalhadores escavando e aterrando as laterais do edifício. Trata-se de um escoramento para recompor a estrutura do casarão. Douglas Fasolato, superintendente do museu, nos conta que, no início das obras, havia a previsão de 200m de fissuras, mas, durante o processo, passou para mais de 1.000m. São muitas as rachaduras visíveis tanto do lado de fora, quanto de dentro. Em alguns cômodos, já foram tampadas e aguardam a restauração da pintura. Logo no hall do casarão, estão pinturas de tirar o fôlego, descobertas por debaixo de uma camada de tinta amarela, que por longos e longos anos tomou conta de grande parte do interior do prédio.
“Vamos tentar recuperar os momentos mais antigos”, diz Douglas, que nos guia pelos cômodos nus de móveis e ocupados por funcionários que habilmente trabalham com a precisão dos detalhes, como uma mulher que, pacientemente usa vapor para retirar, centímetro por centímetro, o papel de parede. Nos anos finais do século XX, a viúva Maria Amália fez uma reforma no prédio, conferindo a sofisticação que havia encontrado por sua estadia em Paris. No closet do quarto principal, por exemplo, escolheu outra estampa, que não a de flores azuis sobre fundo preto, fixada sob as ordens do marido Mariano. A descoberta só foi possível pela antiga técnica de colagem dos papéis, aderidos a uma camada de jornal, e que, agora, revela a data de algumas transformações vividas pelo museu.
A ideia da imponente e meticulosa obra pela qual passa a instituição, cujas portas foram cerradas em 2008, é fazer harmônico o convívio destes dois momentos: o inicial , projetado por Mariano na época da construção, em 1861, e o posterior, proposto pela viúva entre 1882 e 1884. Até porque, nesses dois períodos, reside a história da casa. Foi após a morte do empreendedor que dá nome ao lugar que a Viscondessa de Cavalcanti alugou a casa para morar durante um tempo. O local, de fato, era oponente e, sobretudo, bastante calmo. Ainda há uma aura bucólica no observatório, localizado no que seria o quarto andar da residência, um pequeno cômodo de onde Mariano via as estrelas e observava o jardim circundante. Ali, chama atenção a telha germânica, chapada, que cobre toda a casa e foi integralmente recomposta.
Trabalho de formiguinha
Com uma paleta em tons pastéis e um pequeno pincel, Luciene Akaboshi e suas colegas do Atelier Histórica trazem de volta a casa repleta de detalhes em pintura. “Não estamos refazendo nada, só resgatando o que já havia e permaneceu escondido”, conta. Nesse processo de restauração, detalhes em ouro nos tetos foram revelados e também integrarão a casa, agora, muito mais luxuosa, ainda que coberta por papelões nos chãos e lonas sobre algumas paredes. Ainda que o escritório, a copa, as salas e os corredores chamem atenção, é no porão que se esconde a porção curiosa do casarão. O superintendente do museu espera que, na abertura oficial da casa, seja possível visitar – de maneira inédita – essa região, que guarda as áreas de serviço, a cozinha, a adega, o ambiente para o preparo dos alimentos, o banheiro dos funcionários.
Num quarto anexo aos prédios, o marceneiro Pedro Paulo Victor coordena o restauro de janelas e outras peças em madeira. Segundo conta, algumas janelas continham assinaturas dos artesãos que a fizeram na parte interna. Pedro é um dos muitos contratados pela Concrejato, empresa responsável por toda a revitalização e que trouxe à cidade uma equipe de cariocas. Poucos são os trabalhadores residentes em Juiz de Fora. A obra fez populoso o museu, que conta com 16 funcionários, entre a parte administrativa e técnica, além de cerca de dez estagiários. Grande parte deles trabalha nas dependências do Prédio Mariano Procópio, que, inaugurado em 1922, segue o padrão das galerias europeias. Sua magnitude, agora, é impressionante.
Foi preciso montar uma complexa estrutura de ferro para fazer a revitalização da clarabóia e do lanternim. O andaime, colossal, é de deixar qualquer artista contemporâneo morto de inveja. Mas de obra contemporânea, ali, apenas isso. Nas salas, funcionários contratados e efetivos trabalham na catalogação de todas as peças do museu. O mineralogista Claudio Barra Amaral já mediu, identificou a procedência e descreveu as características de cerca de 600 pedras, mas ainda faltam mais de mil. “Uma amostra leva mais de cinco minutos para ser feita”, afirma. Na outra sala, o historiador Sérgio Augusto Vicente exibe os exercícios de caligrafia do imperador aos 7 anos.
Já a museóloga Graça Almeida conclui o levantamento de gravuras do acervo. O trabalho no museu parece interminável, mas não será. O ano de 2015 é o prazo final para que as portas se abram. E toda uma equipe trabalha para isso. Um comitê curatorial já foi montado para arquitetar a exposição de longa duração do espaço. As pernas doem. O passeio é longo, os espaços são grandes, e a expectativa também. Vi reconstruírem um museu destroçado, coisa que o imperador nem pode imaginar.








