Tempestade interior
Com a intensidade dos contrastes barrocos, a pintura arrebatou Carlos Bracher. Paixão avassaladora. "Coisa meio desequilibrada." Terrível e fantástica ao mesmo tempo. "Os quadros vinham em prantos de tal paixão", reflete. Até mesmo a palavra era sufocada pelo excesso de vontade de pintar. Em mais de cinco décadas de entrega às artes plásticas, o pintor juiz-forano, de voz tranquila e traços fortes, segue sua trajetória de paradoxos: recluso na histórica Ouro Preto e aberto ao mundo. Há cinco anos, autor e obras rodam, por mais uma vez, a Europa, em exposições que ocupam galerias, museus e palácios exponenciais.
"Encontrei-me com Minas Gerais através da pintura de Carlos Bracher", disparou Carlos Drummond de Andrade. E as raízes mineiras de Bracher encontram-se agora com os laços da ascendência do artista. Pela primeira vez, o pintor de 71 anos expõe na Suíça, terra de seus ancestrais. "Essa reverência a minha história humana e pessoal tem um caráter muito especial. É uma espécie de retorno", diz. As 48 obras abrigadas, até o dia 22 do próximo mês, pela Fundação Brasilea, em Basileia, assumem o árduo papel de remontar os 50 últimos anos da produção do artista na mostra que leva seu nome.
A retrospectiva já passou por Moscou, Bruges, Bruxelas, Luxemburgo, Praga, Frankfurt e Dusseldorf e apresenta trabalhos escolhidos pelo próprio Bracher, que aponta as fases norteadoras de sua obra. "Existem exemplares representantes da Fase Inicial de Juiz de Fora, Paisagens Mineiras, Catedrais Siderúrgicas, Retratos e Autorretratos, Homenagem a Van Gogh e Série Brasília", enumera. Os quadros serão expostos, ainda, em Itália, Suécia e França.
Bracher é considerado um dos maiores expoentes da pintura brasileira da atualidade, com mais de dez mil obras executadas. Condecorado com as maiores honrarias das artes plásticas nacionais, é também o artista nacional que mais expôs no exterior, assinando dezenas de mostras individuais em importantes templos da cultura mundial.
Pinceladas em fúria
"O expressionismo é uma espécie de tempestade por dentro da gente. Avassala o interior", sentencia. A fúria das pinceladas e o lirismo "pateticamente escuro e barroco", descritos por Affonso Romano de Sant’Anna, são marcas inquestionáveis na criação de Bracher. "Eu nunca tinha visto, só nos livros e filmes/ um tal arrebatamento de artista", propôs, nos versos de "Para Carlos Bracher", o intelectual – um dos muitos nomes eternizados pela complexa arte de pintar retratos vivos dominada pelo pintor.
"Quando fui com Nívea pintar em Ouro Preto, nos anos 60, tive um impacto. E estou nesse impacto até hoje", revela Bracher. A identificação imediata com o local fez com que o autor escolhesse, em 1972, morar naquela "cidade do sonho e da melancolia", como escreveu o também juiz-forano Gilberto de Alencar. "Acredito que uma das faces dessa paixão por Ouro Preto seja a possibilidade da conjunção do meu sentido expressionista, irracional e avassalador, com o barroco, extremamente tortuoso, caótico", avalia.
Como indica Affonso Romano, Bracher pertence a uma "estirpe de pintores que elegeram um lugar afastado dos grandes centros para organizar sua alma cromaticamante". Como Van Gogh foi para Arles, Saint-Rémy e Auvers-sur-Oise, Bracher radicou-se em Ouro Preto. A exposição dedicada ao centenário de morte do gênio expressionista, em 1990, composta por cem quadros, é um dos marcos da carreira do pintor mineiro. "Resolvi fazer uma série profunda. Uma homenagem íntima a esse grande artista e grande homem. Um belo conjunto do ser", destaca Bracher, que esteve nas cidades nas quais Van Gogh buscou refúgio.
Em 1993, a homenagem estampou o Palácio Imperial de Pequim, figurando como a primeira mostra assinada por um brasileiro na China. "O artista brasileiro fez a ponte cultural entre o Ocidente e o Oriente", escreveu o vice-ministro da Cultura do país na época. "Escreveu de próprio punho, o que tem muito valor por lá", conta Bracher. A exposição também esteve na Holanda, França, Japão e Colômbia.
‘As artes são os verbos de nós mesmos’
Os fortes laços com a cidade histórica, uma das matrizes do pensamento artístico e literário do país, deram origem, no último ano, ao livro "Ouro Preto – Olhar poético", no qual Bracher se debruça, a partir de textos e aquarelas, sobre os mistérios da Vila Rica. "Sempre gostei de escrever e hoje me volto de maneira mais profunda a esse instinto. A arte não é para se entender, mas para comover. As artes são os verbos de nós mesmos, seja nas cores ou nas palavras", declara, sobre a maneira como enxerga o seu ofício.
Contudo, sua cidade natal nunca abandonou o artista. "Juiz de Fora é a cidade da minha substância, da formação e do meu firmamento humano e sensível", relata. "Meus queridos companheiros da Parreiras, minha casa na Rua Antônio Dias, os valores que aprendi. Esses valores são o que amamos, e eles nunca me deixaram. Sou hoje dividido por duas cidades. Ou melhor, as duas cidades se somam em meu afeto e minha fidelidade."
Em plena produção, Bracher destaca um dos trabalhos ao qual se dedica atualmente. "Um livro sobre Juscelino Kubitschek e o sonho humano", diz. A constante inquietude que motiva a arte é o que move o autor há mais de 50 anos. "A vida é um enigma." Mais que buscar soluções para tal mistério, Bracher perambula pelos caminhos que este pode oferecer.









