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O filho fiel do samba


Por BRUNO CALIXTO

28/10/2011 às 18h30

Até o fim de sua vida, no dia 18 de fevereiro de 1986, Nelson Cavaquinho, cujo centenário de nascimento será comemorado neste sábado, era visto como uma figura de extrema simplicidade, mesmo nos tempos mais prósperos, estourando com suas composições – principalmente nas vozes de grandes intérpretes, como Elis Regina, Beth Carvalho e Clara Nunes. Das noites de sucesso no Teatro Opinião, no Rio, com os bolsos forrados do cachê, o sambista virava as madrugadas nos botequins e não negava um prato de comida ou uma "birita" a quem quer que fosse, voltando para casa sem um tostão. Daí a alcunha de São Francisco do Samba.

Por isso, os tributos ao centenário de Nelson não se resumem a seu trabalho. No carnaval desse ano, por exemplo, a Mangueira prestou seu tributo ao folião na Sapucaí. Outras lembranças a Nelson também foram feitas ao longo de 2011, como os discos da EMI e da Lua Music, além de shows recentes, executados por Moacyr Luz, Gabriel Cavalcante, Adriana Moreira, Karina Ninni, Ilana Volcov e Karine Telles com Eduardo Gudin, que conviveu com Nelson e, ao lado dele e Roberto Ribertti, compôs "Euforia". Carlinhos Vergueiro, que batizou o amigo de Garrincha do Samba é o responsável pelo disco "Carlinhos Vergueiro interpreta Nelson Cavaquinho", lançado essa semana.

Outra homenagem justa a Nelson Antônio da Silva, o popular Nelson Cavaquinho, ocorreu esta semana, no Museu da República, no Rio, em cerimônia que contou com a presença de Nelson Luiz da Silva, único filho vivo do sambista, Dona Nena, viúva de Guilherme de Brito, parceiro mais constante de Nelson, Beth Carvalho, Paulo César Pinheiro, Paulão Sete Cordas, Nei Lopes, Nelson Sargento, Haroldo Costa e Milton Gonçalves. Durante o encontro, Nelson Luiz destacou a influência do pai na música genuinamente brasileira. "Meu pai fez aquele samba lindo, que dizia ‘depois que o tempo passar, sei que ninguém vai se lembrar que eu fui embora’. E ele está sendo lembrado, é bonito de ver. Já me mandaram passagem para outra homenagem, programada para novembro, em Pernambuco. Até a Dilma (Rousseff) deve ir."

O "Musicograma", da TV Brasil, apresenta, hoje, às 21h30, sua homenagem a Nelson Cavaquinho. Além de imagens de acervo, com Nelson interpretando seus principais sucessos, o programa traz depoimentos do seu parceiro Guilherme de Brito, do sambista João Nogueira, da cantora Beth Carvalho, de Dona Zica e do produtor e compositor Hermínio Bello de Carvalho, outro famoso mangueirense, autor dos versos de "Chão de esmeraldas", que Chico Buarque musicou para a Verde e Rosa.

"Sua obra, como a de Cartola, é atemporal – e será sempre evocada quando, nas pequenas mídias, ainda houver espaço para sua divulgação", ressalta Hermínio Bello de Carvalho, cujo envolvimento com a escola de samba já não existe mais. "Nelson e Cartola são mais reconhecidos fora da Mangueira do que pela comunidade que habita o morro. Os grandes amigos que fiz por lá já se foram : Cartola e Carlos Cachaça, parceiros; Neuma e Zica, Padeirinho e outros tantos compositores igualmente importantes como Nelson Cavaquinho. Nosso ponto de encontro era no Buraco Quent, na casa de Cartola ou do Carlos (Cachaça), ou então na Birosca da Efigência do Balbino."

O pesquisador musical Márcio Gomes lembra que Nelson Cavaquinho esteve duas vezes em Juiz de Fora. Uma para um show com Cartola no Cine-Theatro Central no final de década de 70, e outra, a convite da Funalfa, para uma apresentação no Pró-Música em meados de 1980. "No Pró-Música, ele dividiu o palco com Ministrinho. Já no Central, Jorge Sanglard e eu tivemos a oportunidade de ficar conversando e bebendo com ele e Cartola por horas no extinto Restaurante Curtição, que ficava ao lado do teatro", diz, após informar sobre a primeira referência de Nelson Cavaquinho no samba juiz-forano. "Foi na década de 70, quando eu, ainda universitário, participava de um conjunto chamado Gardênia Dourada (reflexo do que acontecia no Rio), cujo repertório era basicamente Nelson, Cartola e clássicos do choro", lembra. "Foi uma época em que foram lançados vários LPs com a obra de Nelson, e, fascinados, nos debruçávamos sobre aquele tesouro, aprendíamos aquelas músicas e saíamos tocando aquele repertório pela cidade."

 

Alma carnavalesca

Período próspero ao pensamento artístico no país, a década de 30 se debruçou sobre a sonoridade de Villa-Lobos, a estética de Di Cavalcanti, o regionalismo de Jorge Amado e a visão renovada de intelectuais como Sérgio Buarque. Foi neste berço cultural, entre o morro e o asfalto, que Nelson Cavaquinho se tornara um íntimo amigo da música. "O pai dele, Brás Antônio da Silva, tocava tuba na Banda da Polícia Militar. Domingo era dia de música em casa, nos diversos lugares onde a família morou. Em cada novo bairro, Nelson ia recolhendo influências. Na Lapa, teve contato com os malandros e valentes; já na Gávea, conviveu com os chorões, fascinando-se com os tocadores de cavaquinho. Entusiasmado, quis aprender o instrumento", comenta o jornalista Fábio Gomes, editor do site www.brasileirinho.mus.br.

Com um repertório de mais de 600 composições – a maioria inéditas ou esquecidas -, já que dificilmente as escrevia, preferindo guardá-las na memória, Nelson Cavaquinho criava principalmente de madrugada, quando estava acompanhado do violão e de um copo de cerveja ou cachaça. "Nunca fiz samba por encomenda, por isso jamais vou compor um samba-enredo. Acho horrível você ter de fazer aqueles lá-lá-lá e oba-oba obrigatórios na linha melódica das escolas de samba. Faço músicas para tirar as coisas de dentro do coração. E foi assim desde o dia em que fiz meu primeiro samba", disse Nelson, conforme publicado na revista "Samba & Choro", sem imaginar que, no centenário de seu nascimento, viria a ser coroado com o samba-enredo "O filho fiel, sempre Mangueira", cujo enredo foi assinado pelos carnavalescos Mauro Quintaes e Wagner Gonçalves.

Embora dissonante quanto à produção de sambas para desfiles, os versos "Quando eu piso em folhas secas, caídas de uma Mangueira, penso na minha escola, e nos poetas da minha Estação Primeira…" representam mais que um hino de exaltação à escola querida. O trecho é de "Folhas secas", universalizada na voz de Elis Regina. Nelson Cavaquinho é o autor de outros sucessos, como "Luz negra" e "A flor e o espinho" (com Guilherme de Brito). Além disso, seu currículo também inclui algumas composições raras, como "Deus não me esqueceu", "Sinal de paz" e "Depois da vida".

Apesar de ter feito várias composições, gravou apenas quatro álbuns. "A qualidade de sua obra explica essa permanência. Ainda que pareça incrível, existe ainda um público que reverencia a qualidade", afirma o compositor Hermínio Bello de Carvalho, rechaçando a premissa de que, para obter sucesso, naquela época, o pré-requisito era ser do morro ou do asfalto. "Todos os grandes compositores, como Cartola, Zé Keti, Nelson Cavaquinho e Padeirinho, foram reconhecidos dentro de um círculo limitado em que, por sinal, os paparazzi não tinham o menor interesse, pois não estavam na grande mídia."

Na obra de Nelson, Márcio Gomes destaca as temáticas: dor ("A flor e o espinho"), traição ("Notícia"), morte ("Pranto de poeta") e até mesmo o suicídio ("Suicídio").

 

Alma carioca

Nelson Antônio da Silva nasceu na Tijuca, mas foi na Gávea que aprendeu a tocar cavaquinho e começou a fazer música por um cachê de cinco mil réis, segundo consta no "Dicionário Cravo Albin da música popular brasileira". Curiosidades e histórias da sua vida boêmia estão presentes em suas composições. Com sua primeira esposa, por exemplo, ele foi forçado a casar na delegacia, e, por intermédio, do sogro, conseguiu um emprego na Cavalaria da Polícia Militar. Nelson e seu cavalo, o Vovô, patrulhavam o morro da Mangueira, onde conheceu e ficou amigo de sambistas como Zé Com Fome, Cartola e Carlos Cachaça. Como vem descrito na obra "Receita de samba", por causa da boemia, Nelson se esquecia do trabalho e, ao retornar ao batalhão, muitas vezes acabava preso. Ele mesmo conta: "Eu ia tantas vezes em cana que já estava até me acostumado com o xadrez. Era tranquilo, ficava lá compondo. Entre as músicas que fiz no xadrez está ‘Entre a cruz e a espada’".

Para o musicólogo Ricardo Cravo Albin, poucas pessoas tão densas e interessantes quanto Nelson Cavaquinho vieram ao mundo. "Lembro-me de que ele me foi apresentado pelo (cronista) Sérgio Porto no Zicartola, o lendário bar de Zica e Cartola, na Rua da Carioca. ‘Este aqui, chapinha, é o cantor e compositor Nelson do Cavaquinho, que não é do cavaquinho, mas do violão. Que não é cantor porque é rouco e desafina. Mas te garanto que compositor ele é, e dos melhores, apesar de ter o mau hábito de vender muitos dos seus sambas’", detalha, antes de realçar como o compositor iniciou seu "autorretrato" diante dos seus olhos. "Ele comandou o máximo de ‘bebes’, o mínimo de ‘comes’ e fez duas ou três aparições no palco do bar durante a noite."

Quem arremata, por e-mail, é o crítico musical José Ramos Tinhorão, desafiado a citar, em versos, a obra de Nelson. "Tome um homem e seu violão, cante pelas ruas como um antigo trovador da Idade Média a beleza das flores, a efemeridade da vida e a angústia metafísica da morte, e esse será o retrato de Nelson Cavaquinho. Com sua cabeleira branca, seu permanente ar de dignidade e a sua voz enrouquecida por muitos anos de cervejas geladas, o que Nelson Cavaquinho canta (fazendo percutir, mais que dedilhando, as cordas do seu violão) é a saga de um homem que vive em estado de poesia. E cuja obra, por isso mesmo, não morrerá."