Sensualidade e alegria em movimento
"Um evento feito a duas mãos." Assim Alexandre Gutierrez, diretor do Departamento de Cultura da Funalfa, sintetiza a proposta da programação do 5º Festival Nacional de Dança, fechada em conjunto com a classe artística local. De hoje a 7 de julho, Juiz de Fora vai ser palco de videodança, oficinas, noite de gala, intervenções urbanas, palestras e espetáculos. Para assistir às produções de grupos convidados e às mostras de coreografias, realizadas neste sábado, às 15h, no Cine-Theatro Central, e neste domingo, às 16h, no Centro Cultural de Benfica, é necessário trocar convites por um livro de literatura em bom estado, na sede da Funalfa, de segunda à sexta, das 9h às 17h.
Os trabalhos apresentados vão do clássico ao contemporâneo, passando por dança de salão, balé, sapateado, jazz, danças urbanas e étnicas. Abrindo a temporada, a Cia Aérea de Dança, do Rio de Janeiro, apresenta "Mistura e manda" hoje, às 20h30, no Teatro Pró-Música. Em cena, toda a sensualidade, o gingado e a alegria dos malandros cariocas, temperados por um estilo para lá de brasileiro: o samba. Conforme aponta o músico e compositor Aldir Blanc, "’Mistura e manda’ tem a ousadia de coreografar aquilo que é instintivo e espontâneo – e é essa tentativa (eu diria mesmo esse sonho) que faz grande passagem do meramente folclórico para o artístico. Da chama inconsciente para o ato cultural".
Segundo João Carlos Ramos, fundador do grupo que surgiu em 1992, oito bailarinos apresentam aquilo que ele chama de samba/dança. "É uma montagem inspirada na obra musical do falecido Paulo Moura. É completamente baseado na cultura do Rio, na gafieira, na praia e nas ruas", comenta Ramos, atuante também na Europa e nos Estados Unidos. No Brasil, já coreografou peças musicais interpretadas por Luiz Fernando Guimarães e Débora Bloch, com direção de Jorge Fernando, além de shows e videoclipes de artistas como Jorge Ben Jor, Lulu Santos, Zeca Pagodinho e Paulo Moura.
Do folclore ao contemporâneo
Quem vem de Belo Horizonte representando o folclore brasileiro é o grupo Sarandeiros. A companhia apresenta o "Dança, Brasil", espetáculo inspirado no livro homônimo, publicado em 2002 pela editora Leitura e escrito pelo diretor da trupe Gustavo Côrtes. Para dar conta de toda a riqueza cultural do país, a produção leva para o palco quadros que abrangem as grandes festas nacionais, como o carnaval, a festa junina e a natalina. A apresentação está marcada para o dia 5 de julho, às 20h, no Pró-Música.
Da dança contemporânea, o festival traz dois representantes: as companhias Morena Paiva e Dani Lima, ambas também da capital fluminense. No dia 30 de junho, às 19h, no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM), Morena apresenta o solo "A ordem e o movimento". O trabalho mistura parte de um processo de pesquisa que percorre o funk e o erudito. "É uma investigação que trata das relações que a gente tem de consciência do corpo. São conceitos e formas de abordagens que procuram entender como o erudito e as manifestações mais populares dialogam. Tem uma visão que coloca o funk dentro de uma proposta de continuidade", afirma a bailarina, que vai falar sobre essas questões em workshops que acontecerão dentro do festival.
Como último grupo convidado, a Cia. Dani Lima leva para o CCBM, no dia 6 de julho, às 20h, o espetáculo "100 gestos". A obra, que estreou em 2012, no espaço Cultural Sérgio Porto, no Rio, se desenvolve na tentativa de investigar o corpo, apostando em experiências multidisciplinares. O público vai poder conferir uma montagem que transita pelos requebros de quadris do rock dos anos 50 à comunhão eletrônica das raves, sem deixar de lado elementos do modernismo e do universo dos videogames. É uma verdadeira visão fragmentada e mestiça dos movimentos do século XX. "É uma mistura de referências das formações dos bailarinos, das histórias, das coisas que eles viveram. Um menino traz a relação com o hip-hop, outra garota, do balé", conta Dani, diretora do grupo.
Momento de traçar caminhos
Entre as diversas atividades oferecidas, os destaques são a mostra de curtas do Festival Internacional de Videodança, Dança em Foco e o Fórum de Políticas em Dança: Ações de fomento da Funarte (Fundação Nacional das Artes), oferecidos pela primeira vez na cidade, com a presença do coordenador de dança da instituição, Fabiano Carneiro. Na visão de Lilian Gil, bailarina e uma das integrantes da comissão formada pela classe artística, é uma oportunidade de discutir alternativas para traçar caminhos para a arte local.
"A gente não faz nada sem entender onde está e para onde vai. Aqui tem muita gente que produz, dançarinos, pesquisadores e professores formados na área, mas há pouco fomento para a dança. Precisamos levantar essas questões, e, neste dia, vão estar na mesa pessoas importantes para a política pública da cidade", afirma ela, satisfeita pela iniciativa da Funalfa de ter ouvido os artistas ao decidir a programação da edição deste ano, o que já sinaliza mudanças para a cena juiz-forana.
"Queríamos entender quais seriam as necessidades daqui. Por isso, nos dividimos em modalidades para pensar o que seria interessante trazer para cá, dentro das condições financeiras. Não conseguimos chegar a um consenso, estamos longe de um modelo ideal, mas é uma experiência para dar uma cara para o evento." Conforme Lilian, os trabalhos apresentados serão acompanhados pelos comentários do time de críticos do blog ctrlaltdanca.com, algo comum no eixo Rio-São Paulo, mas audacioso para o município. "A crítica especializada em Juiz de Fora não existe. Vai ser uma forma de avaliarmos o que está sendo feito" conclui. A programação completa do festival está disponível aqui.









