Inhotim inicia programação de 20 anos com três inaugurações que conectam arte e natureza

Trabalhos de Dalton Paula, davi de jesus do nascimento e Lais Myrrha sinalizam história que museu quer traçar


Por Elisabetta Mazocoli

28/04/2026 às 17h20

O Instituto Inhotim completa 20 anos em 2026. Para dar início às celebrações de aniversário do maior museu a céu aberto do mundo, foram inauguradas três exposições de artistas contemporâneos de renome. “Dupla cura” marca a primeira exposição panorâmica de Dalton Paula, com mais de 100 obras do artista, incluindo trabalhos inéditos; davi de jesus do nascimento apresenta a individual “Tororoma”, que reforma a Galeria Nascente e reúne pinturas, vídeo gravado nas Cavernas do Peruaçu e carrancas produzidas pelo Mestre Expedito; e a escultura “Contraplano”, de Lais  Myrrha, que tem uma área de 250m2 e está localizada em um dos pontos mais altos do parque. As novidades refletem os passos traçados pelo museu e revelam o que a equipe curatorial pretende trazer para seus próximos anos de história. 

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‘Fanfarra’ tem 9,6 m de comprimento e 1,8 m de altura (Foto: Ícaro Moreno/ Divulgação)

Para relembrar os passos de um artista que se dedica a contar a história por meio de seus vãos, foi preciso também encontrar o que ainda estava oculto. Ao menos é isso que a curadora Beatriz Lemos conta que a equipe buscou fazer para colocar de pé a exposição “Dupla cura”, de Dalton Paula, que reúne 100 obras do artista, que estavam até então espalhadas pelo mundo — e que nunca tinham sido exibidas em formato panorâmico. Dessa vez, a reunião apresenta uma prática multidisciplinar, que se estende para além dos celebrados retratos, e que inclui também instalação, cinema, performance e fotografia, que mostram um olhar atento para narrativas historicamente marginalizadas e suas memórias coletivas. É uma oportunidade de conhecer o pensamento artístico em diversas linguagens e diversos momentos de um artista que já ganhou reconhecimento internacional e tem obras exibidas no Museum of Modern Art, no Museu de Arte de São Paulo e na Pinacoteca de São Paulo, mas sempre conservou o que é fundamentalmente soberano.

Entre suas obras inéditas para o museu, está “Fanfarra”, que tem quase 10 metros de comprimento por 1,8 metro de altura, e é a maior pintura já feita por Dalton Paula até a inauguração. Esse trabalho apresenta um coral de crianças negras, que aparecem juntas e brincando, e problematiza a representação desse público na história da arte. Ao longo da abertura da exposição, também se apresentou o coral do Sertão Negro, projeto fundado por ele e Ceiça Ferreira, em 2021, que integra arte, práticas comunitárias e bioarquitetura, e que foi uma das inspirações para esse trabalho. “As crianças se desdobraram neste trabalho para pensar a alteridade e a questão da ludicidade”, explica o artista.

A ideia, como explica, é trazer um novo registro para as próximas gerações. “Nosso povo também é alegre, sábio e vivo. Tento trabalhar a partir dessa perspectiva.” O título da exposição, “Dupla Cura”, reforça tanto a ligação com Cosme e Damião (erês com os quais Dalton Paula tem relação desde a infância e que aparecem constantemente em suas obras) quanto com uma cura coletiva. Além da tela, também são inéditos dois vídeos que reforçam essa relação do artista com as crianças e as tradições afro-brasileiras.

Artistas trazem vivências de diferentes Minas Gerais

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Exposição reúne pinturas, vídeo gravado nas Cavernas do Peruaçu e carrancas produzidas pelo Mestre Expedito (Foto: Ícaro Moreno/ Divulgação)

“Tororoma” é batizado a partir de “Terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa. O termo, que define uma corrente fluvial ruidosa e forte, foi escolhido para dar nome à exposição do barranqueiro davi de jesus do nascimento no momento em que ele faz 10 anos de carreira. “Meu trabalho é banhado pelo Rio São Francisco. A permissão de tudo que eu faço vem desse curso d’água, e também muito da energia da minha mãe, que morreu afogada em 2013″, conta. Em Inhotim, o artista reflete sobre a Pirapora que nasceu, trazendo uma outra Minas Gerais, a dos “geraizeiros”, que não é construída pelas montanhas ou pelas minas, mas pelo céu vasto e pelo calor.

O sertão mineiro e, principalmente, a vivência do rio foram suas inspirações para fazer a arte que se encontra nessa instalação, que mistura diferentes formatos em uma experiência imersiva. Sua exposição, inclusive, incluiu um processo de pesquisa que demandou viagens do artista a localidades como Ilha do Ferro e Piranhas, em Alagoas, e vem de experiências com pinturas que revelam parte do mistério desse mesmo rio. Em uma dessas séries, “Sorvedouro”, pintou em aquarela o rosto de seres do fundo do rio. “Em sonho, minha mãe me mostra o semblante desses bichos”, conta. Nesse trabalho, ele busca revelar mais do mistério que envolve o rio. 

A galeria, inclusive, é onde passava, antes, um rio no Inhotim — e toda a reforma feita parece reforçar esse aspecto, ao mesmo tempo que traz justamente a elaboração dos aspectos que davi busca valorizar. Entre os elementos, estão a terra úmida, o som da água e três carrancas (duas dentro da galeria, recebendo os visitantes, e uma bem no centro dela). “Tem uma porcentagem muito pequena do que é o mistério deste lugar, o mistério dessa profundidade e a força da correnteza do Rio São Francisco e de todos os rios. E, além dessa força, todo o corpo que envolve o rio, desde os instrumentos de pesca até as folias, as festas e como a gente convive com o rio e vive para ele. (…) Vocês vão conhecer minha mãe ali dentro.”

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‘Contraplano’ ocupa área de 250 m² e está localizada em um dos pontos mais altos do museu (Foto: Ícaro Moreno/ Divulgação)

Já as referências da belorizontina Lais Myrrha vão para outro destino: se relacionam profundamente com o Palácio das Artes, feito por Oscar Niemeyer e que fica na Praça da Liberdade, mas também com a própria história do estado no que diz respeito à conexão entre cidade, indústria e meio ambiente. Para ela, a arte deve ser ambígua: não precisa ser boa ou má, mas deve lançar alguma pergunta para quem a vê. O processo para chegar a esse resultado foi a partir de sua produção, em um campo que chama de “Estudos de caso”, em que isola elementos da arquitetura, os desloca e os transforma. É uma escultura, como defende, feita com os cuidados de quem constrói arquitetura — e que também reflete sobre esse processo. “Sempre me interessou essa ideia de que Belo Horizonte era uma cidade planejada. Essa escultura se chama ‘Contraplano’, e não é à toa”, diz. 

Em Inhotim, também se trata de uma resposta ao horizonte cercado de montanhas: não “briga” com ele, mas o complementa, inclusive fazendo com que o visitante veja a área de mineração que está nos arredores do local. A forma com a qual escolheu fazer isso está relacionada às escalas com que trabalha: “Quando vemos essa obra de baixo, parece um prédio enorme, mas não é. Quando entramos aqui, tem um acolhimento, essa área de sombra e refresco.” Essa mudança de perspectiva também a fez mudar de compreensão em relação à obra de Oscar Niemeyer, que tem a chamada “forma livre”, mas que, olhada por outro ângulo, se parecia com uma cava de mineração ou um desenho topográfico. 

Quando foi feito o convite para que ela construísse a obra, que está instalada em um ponto do museu entre trabalhos de artistas homens e estrangeiros (como Chris Burden e Robert Irwin), ela se propôs a olhar para o redor e pensar o que poderia ser feito de diferente. E encontrou como alternativa reforçar obras de arte que fossem vividas pelos visitantes. “Meu sonho é que as pessoas façam piquenique, estendam cangas, fiquem deitadas. Tentei buscar um tipo de situação que talvez tivesse pouco ou não fosse tão evidente nas obras já existentes”, diz.

Próximas exposições

Abril marca o começo do calendário comemorativo e também traz a oportunidade de o museu refletir sobre os caminhos traçados até então. Para a diretora artística Júlia Rebouças, é momento de pensar o que faz Inhotim único no mundo e de que maneira esse projeto se tornou tão singular.  Com a mudança de governança, em 2022, o museu se reestruturou, deixando de pertencer ao fundador Bernardo Paz e passando a ser um patrimônio público. “Esse projeto é de todos nós e precisamos fazê-lo ser perene, consistente e sustentável anos à frente. Por isso que digo que os 20 anos são um momento bonito de olharmos para a história, mas olharmos sobretudo para tudo que vem por aí e todos os desafios que nos acompanham. Estamos felizes e animados, porque achamos que temos uma instituição muito forte e vital”, explica, destacando também que é preciso fazer com que o projeto de autossustentabilidade funcione. 

Foi justamente nesse contexto que os artistas foram escolhidos: eles falam a partir de seus próprios territórios, mas também se conectam a questões de todo o mundo. “São artistas que tratam de maneira absolutamente integrada a ideia de arte, natureza e educação. Artistas que estão muito comprometidos em discutir os fatos que nos cercam e também se desafiam a lidar com os afetos do nosso tempo”, defende. Também por isso, perceberam que combinava com o modelo de governança não só construir novos pavilhões, mas olhar para o parque e as edificações já existentes e pensar em formas de reelaborá-las, como foi feito neste caso. O calendário comemorativo também prevê, ao longo de 2026, outras seis inaugurações e uma exposição dedicada aos 20 anos do Inhotim, com datas para ainda serem anunciadas.