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No meio das ruas: clássicos nacionais


Por MAURO MORAIS

28/04/2015 às 06h00- Atualizada 28/04/2015 às 09h27

Adauto Venturi faz releitura de

Adauto Venturi faz releitura de “Tiradentes supliciado” no Jardim Glória

Escultura de Adauto inspirada em

Escultura de Adauto inspirada em “Abaporu”, de Tarsila do Amaral, próximo à Praça Antônio Carlos

De um lado, o rosto de Joaquim José da Silva Xavier. Do outro, sua perna. O clássico “Tiradentes supliciado”, de Pedro Américo, encontra-se ainda mais dilacerado na gigante escultura instalada na Praça Rubens Abreu, entre a Rua Dr. João Pinheiro e a Alameda Engenheiro Gentil Forn, no Bairro Jardim Glória. A obra, produzida pelo artista visual Adauto Venturi, integra o projeto “Desnudamento de ícones”, financiado pela Lei Murilo Mendes. Feito em ferro, o trabalho acaba de ser instalado e ainda deve receber iluminação e tratamento no piso. Recortando a imagem pertencente ao Museu Mariano Procópio, o artista se aproxima de uma alegoria ou cenário, em diferentes níveis. Presente em diversos livros de história, a cena passa a contar, então, com o fundo de prédios e mata, reafirmando a onipresença de um Tiradentes heróico e, também, insultado.

“Já tinha feito essa leitura em duas dimensões e agora decidi-me pela terceira. É uma proposta de desconstruir um quadro reconhecido”, comenta Venturi. Como a confirmar a visão do artista, um morador das redondezas observa atentamente a obra e rasga elogios ao identificar o célebre quadro. “Desconstruindo Pedro Américo II” é a quinta escultura do projeto que termina em maio, com a sexta instalação, uma releitura do relevo de um escravo louvando aos céus, abaixo do busto da Princesa Isabel, presente no parque do Mariano Procópio. Segundo Venturi, o trabalho já está 75% concluído. “O ícone, ali, é a abolição. Hoje em dia ainda temos muito trabalho escravo, além de o ser humano ainda ser muito escravo do sistema”, reflete, trazendo para o momento e intenções atuais a arte de tempos passados.

Além da obra no Jardim Glória, o artista instalou peças na Praça Jarbas de Lery, em São Mateus; na rotatória de acesso ao Bairro Estrela Sul; na praça entre a Avenida Rio Branco e a Rua Morais e Castro; e no canteiro entre a Praça Antônio Carlos e o canhão do exército. Esta última, instalada em fevereiro, tece uma releitura do consagrado “Abaporu”, de Tarsila do Amaral. “Com esse trabalho, comecei a considerar outros elementos na escultura. Nele temos um cubo que faz a representação da moldura. Utilizei lâmpadas de LED, e a obra ganhou vida e dinâmica muito próprias”, destaca Venturi. Orçado em R$ 22.400, o projeto que tem dispersado monumentos de impacto pela cidade, joga luzes sobre a carência de esculturas públicas em Juiz de Fora, que soma diversos bustos de diferentes personalidades, mas poucas criações artísticas de fôlego a adornar as ruas.