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Nó na garganta


Por MAURO MORAIS

28/04/2013 às 07h00

Surreal é tudo aquilo que pertence a um lugar além do real. O encontro com Bob Lester esbarra no sonho por pertencer a uma realidade incrivelmente distante. A história, chegada ao acaso, possui todos os elementos de uma narrativa clássica: emoções que se ampliam paulatinamente para um clímax, e daí, do mais alto ponto, surge o declínio. Um conto de fadas inacabado, que Edgard de Almeida Negrão de Lima trouxe na última quarta, 24, à redação da Tribuna. Carregando a tiracolo uma bolsa contendo uma pasta com diversos recortes de jornais e revistas, além de fotos aos montes, o senhor apresentou-se como um músico centenário, dizendo querer sugerir uma boa matéria. A ideia, que ele dizia incrível, era a própria vida, carregada na lucidez de suas memórias e confirmada na recheada pasta.

Na carteira que carrega no bolso, com o brasão da República e a inscrição "músico", o senhor de cabelos ralos e inteiramente brancos apresenta um documento de registro de intérprete: na frente, o nome de batismo, que já no sobrenome carrega uma curiosidade – ele se diz primo do governador do Estado da Guanabara Negrão de Lima -, no verso, o pseudônimo Bob Lester, integrante do Conjunto Bando da Lua, o famoso grupo que acompanhou Carmen Miranda em seus últimos anos de vida. Não há lugar de dúvidas, eis ali um dos nomes que contribuíram para a mítica era do rádio, período que teve seu auge nas décadas de 1940 e 1950 e deu novos contornos para a história da música brasileira.

Como grande parte de sua geração, Lester conheceu a fama e o contrário dela. Em passagem pela cidade, hospedado num hotel na Praça da Estação, símbolo da riqueza de outros tempos, ele procura trabalho. "Achei que eu fosse encontrar alguma coisa aqui, mas Juiz de Fora está muito dificultosa", diz, para logo completar, quase rogando: "Enxergo bem. Ainda canto, danço e sapateio. Tenho uma dicção bonita, a voz perfeita". Toda a explanação se justifica na idade, que segundo a carteira de músico indica 97 anos, apesar de ele certificar que já completou um século de vida. De acordo com o Dicionário Cravo Albin da música popular brasileira, ele tem 98, mas a Wikipédia (sim, ele está ativo em inscrições na internet!) corrobora os 100 anos.

 

Ele não voltou americanizado

Natural de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, Bob Lester começou a carreira na finada Rádio Cajuti, ainda na década de 1930. Na época, apresentou-se por algumas vezes no Cassino da Urca, sapateando junto a Oscarito e Grande Otelo, e chegou a se sagrar campeão no programa "A hora do gongo", apresentado por Ary Barroso. Uma das fotos que ainda preserva retrata o momento e traz uma dedicatória do autor de "Aquarela do Brasil".

Entre suas muitas apresentações, Lester veio a Juiz de Fora para dois shows na então Rádio Sociedade e retornou em 1942 para um espetáculo na Casa D’Itália, onde conheceu a mulher com quem se casaria. Naquele ano, já com a união selada, partiram para o Rio, e ele acabou se incorporando ao Bando da Lua, que já havia conhecido os Estados Unidos com Carmen Miranda. Ao lado da Pequena Notável, sapateou, tocou violão e cantou, além de conhecer boa parte do globo. Entre idas e vindas – veio em 1952, quando Carmen veio ao Brasil visitar uma irmã, e retornou à Nova York em 1957, após a morte da cantora – , o crooner permaneceu por quase dez anos em território estrangeiro. "Minha senhora ficou aqui, e eu mandava uma importância para ela todo mês", recorda, comentando sobre as duas filhas que já haviam nascido.

Durante o tempo em que viveu nos Estados Unidos, ele conta ter frequentado aulas de dança com Fred Astaire, que chegou a lhe dar um sapato o qual guarda até hoje, e integrado coros nos espetáculos de Frank Sinatra, Doris Day e Bob Hope. Segundo ele, foi por indicação de Hope o nome artístico. Na década de 60, quando o rádio perdia espaço para a televisão e ele já havia se fixado por definitivo no Brasil, Lester começou seu longo percurso nas sombras. Nesse período, sua esposa, sua mãe e suas duas únicas filhas morreram num trágico acidente de automóvel no Sul do país. Traumatizado, ele se isolou e passou por tratamentos psiquiátricos em Porto Alegre e no Rio. O dinheiro da época áurea foi todo gasto com hospitais, e, de acordo com ele, uma boa quantia, desviada por um de seus empresários.

O único bem que permaneceu foi uma casa no bairro Realengo, Zona Oeste da capital fluminense, onde hoje vivem sua irmã e seus sobrinhos, únicos parentes que permaneceram vivos. "Hoje sobrevivo com uma aposentadoria e com a ajuda dos amigos mais próximos", emociona-se, recordando os cinco anos em que morou na rua, apresentando-se em pontos conhecidos da capital carioca. Cheio de planos, ele deseja ir ao "Programa do Ratinho", no SBT, somando mais uma passagem televisiva ao currículo, no qual já constam duas participações no "Programa do Jô" e duas no matinal "Mais você", de Ana Maria Braga.

Cruel realidade

"Pela idade, eu não espero mais nada. Quem sabe é Deus, sobre o meu futuro", aponta Bob Lester, com o olhar vago e com a certeza de que trilhou o mesmo caminho que outros tantos ídolos de sua geração, como Ademilde Fonseca, Izaurinha Garcia, Nora Ney, Jorge Goulart, entre outros nomes. De acordo com Lester, a maioria de seus antigos amigos viveu os últimos dias na famosa casa Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro, mas esse não é, nem de longe, seu desejo. "Ali as pessoas acabam morrendo de sentimento", diz.

Com a memória cheia de brilhos, o senhor de vitalidade inacreditável percebe a mudança no gosto musical brasileiro: "Hoje o funk, o forró e o pagode tomaram conta". Sem se privar de um comentário, ele dispara: "Isso acabou com a nossa cultura". Com o repertório na ponta da língua, ele diz cantar blues, country, rock e samba. Entre as músicas que gosta de entoar, estão "My California" (ele a cantou toda para provar o vigor), "Good bye", "New York, New York", "Taí", "Mamãe eu quero" e "Vida de artista". Para quem acha que o inglês das letras gera alguma dificuldade, ele adianta: "Falo inglês, francês, italiano, espanhol, russo e japonês". Todas as línguas seguidas de longas frases comprobatórias.

Nas lembranças de um tempo que há muito já não existe, coexiste, hoje, um combate cruel entre o orgulho e a decepção. "Vem sempre o sentimento e uma vontade de chorar. Tenho muitas saudades, queria voltar atrás", comove-se, certo de que o show tem que continuar.