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‘Nasci e vou morrer transgressor’


Por JÚLIA PESSÔA

28/02/2013 às 07h00

As portas do elevador do hotel se abriam e fechavam, e eu sabia que, em algum momento, Ney Matogrosso sairia dali e viria em minha direção. A cada movimento delas, um frio pungente na boca do estômago se confundia com a baixa temperatura do saguão, até que escutei: "Está bem gelado aqui, e eu estou com o corpo quente". Era ele, preocupado com a voz. Sem plumas, sem maquiagem, sem extravagância, sem estrelismo, sem sequer um par de óculos escuros.

De jeans e camiseta branca, sentou-se no sofá ao meu lado aquela referência musical, estética e comportamental da cultura brasileira. Não sei se foi o desligamento do ar condicionado – pelo qual, agradeci em pensamento – ou a placidez com que fui recebida, mas o frio na barriga passou. Ali, de cara limpa, fala mansa e em uma conversa com olhos nos olhos, Ney Matogrosso, que sempre povoou meu imaginário cultural desde a infância, estava maior do que nunca.

Em Juiz de Fora desde a última segunda-feira, o cantor lança hoje à noite, no Cine-Theatro Central, a turnê nacional "Atento aos sinais", nome que deriva de uma das canções do repertório. "Sou atento às pessoas, a quem conversa comigo, aos acontecimentos ao meu redor."

Prova desta atenção é o fato de o show que estreia nesta quinta ser estruturado em torno de canções de artistas que ainda não têm grande alcance nacional. "São bandas e músicos que são conhecidos regionalmente, mas quero ajudar a fazer o Brasil todo conhecer." Entre os nomes brindados pela tão sedutora quanto atrevida voz de Ney estão Dani Black, Luis Capucho, Tono, Vitor Pirralho e Criolo, além dos veteranos Caetano Veloso e Paulinho da Viola.

Depois da Princesa de Minas, Matogrosso deixa seus sinais pelas principais capitais do país. Em entrevista exclusiva à Tribuna, o artista fala sobre suas ações e transgressões a uma repórter encantada pela simplicidade de um ícone nacional no auge do seu vigor aos 71 anos. Atenta a cada um de seus sinais, até o momento em que as portas do elevador do hotel se fecharam mais uma vez, marcando o final do encontro.

 

– Tribuna de Minas – Como surgiu o nome da turnê "Atento aos sinais"?

– Ney Matogrosso – Canto uma música que fala isso em um certo trecho, e achei uma ideia muito interessante. Sou uma pessoa atenta aos sinais. Achei que era um nome conveniente, que consegue traduzir bem o meu trabalho e a mim mesmo.

 

– Por que estrear uma turnê nacional em Juiz de Fora?

– O Cine-Theatro me disponibiliza três dias inteiros para a preparação, coisa que lugar nenhum oferece. Quando a gente começa a fazer um trabalho assim, precisa de um tempo para montar tudo, fazer luz, ensaiar o repertório no palco com figurino, e só aqui consigo o tempo e a infraestrutura necessários para fazer tudo isso. Fiz isso com meus últimos shows e tem dado muito certo. Acabei tendo uma relação com a cidade e o teatro, que é lindo.

 

– Como é essa fase final da preparação para a estreia?

– Essa reta final para mim é muito cansativa, porque eu sou envolvido com todos os aspectos do show. Tudo passa por mim, e eu preciso que seja assim. Eu tenho a ideia, a concepção para um show e aí procuro pessoas que me ajudem a realizar essa ideia de diversas formas. Mas todos os detalhes passam pelo meu olhar, então acabo tendo muita coisa para fazer, para resolver, além dos próprios ensaios. E sou muito atencioso com cada detalhe. Gosto de um bom acabamento em tudo, sabe?

 

– O você preparou para o figurino de "Atento aos sinais", já que essa é sempre uma grande expectativa nos seus shows?

– Dessa vez decidi que não terei apenas um figurino, quero ter vários e decidir cada dia o que vou usar. Trouxe para cá apenas os dois que vou usar aqui, mas terei muitos outros ao longo da turnê. Porque eu notei uma coisa: fazendo show com um figurino só, vejo muita foto que poderia ter sido feita em qualquer lugar (risos). Se eu tiver vários, isso vai me estimular mais por ter várias imagens, algo que eu gosto bastante, além de também pluralizar o show de uma certa forma.

 

– E de onde veio esse apreço pelo figurino, essa preocupação e muitas vezes ousadia estética que é tão marcante na sua carreira?

– Do teatro, com certeza, que é o que eu fazia antes da carreira musical, lá pelos anos 1960. Mas já aí eu tinha que me exercitar como cantar, tive que fazer vários personagens em uma mesma peça: saía, me caracterizava como outro e voltava… Veio daí essa coisa com figurinos, com a estética.

 

– E recentemente você fez alguns trabalhos no cinema: "Luz das trevas", dirigido por Helena Ignez; "Primeiro dia de um ano qualquer", do Domingos de Oliveira e "Olho nu", documentário de Joel Pizzini. Como é o Ney ator?

-Para mim, como ator, é mais fácil fazer cinema, porque o teatro solicita tanto de você quanto a música. Não dá para ensaiar uma peça e fazer um mês, tem que fazer um ano. E eu não me sinto apto a abandonar a música por um ano. Para fazer cinema você para um mês, dois meses, resolve, e já está de volta ao seu trabalho. Mas é uma coisa que eu gosto muito, desse exercício de ator.

 

– Você está com 71 anos e, ao lado de Gil, Caetano, Milton e alguns outros, faz parte de uma geração de artistas que continua na ativa desde que começou a carreira. Como é ver o passar dos anos do palco?

– Não tem mistério, ainda sinto muito prazer em subir no palco, cantar. Não sei nem dizer como é a passagem de tempo, para mim é algo normal. Não estou fazendo por obrigação. O que mais me move em continuar trabalhando, em primeiro lugar, é o prazer que eu tenho de fazer o que faço. E, em segundo lugar, é o prazer de oferecer isso à plateia.

 

– Tantos anos de carreira criam um efeito curioso: sua música conquistou várias gerações. Como fazer com que seu trabalho se mantenha interessante para pessoas tão diferentes?

– Eu vejo muito esse processo, as diferentes gerações que vão me descobrindo, que se aproximam de mim, e eles são cada vez mais novos: adolescentes, pré-adolescentes… Tem uma coisa muito interessante: Secos e Molhados está sendo descoberto hoje por pessoas de 12, 13 anos, e eu sou ‘aquele lá’ (risos). Eles ficam curiosos a meu respeito. Acho que a mente aberta faz isso, mente aberta para o mundo e para tudo. Não vivo do passado, não sou saudosista, nunca fui. Isso mantém meu trabalho sempre renovado, sempre olhando para frente.

 

-Na época da ditadura, você foi ameaçado algumas vezes, sob a justificativa de estar "se excedendo". Mesmo assim, você já declarou que nunca quis sair do Brasil, que o bom era fazer o que você fazia aqui…

– Claro! Queria fazer aqui, questionar aqui, perturbar a ordem daqui. Aqui aquilo tinha significado. E até hoje faço isso. (risos) O mundo está muito mais careta, em todos os sentidos, embora exista uma teórica de ‘liberdade’ proporcionada pela internet em termos de sexualidade, de comportamento… Mas que é virtual, não é de verdade.

 

– Você acha que como artista, esse é um dos seus papéis, questionar, quebrar tabus?

– Eu sou um ser humano transgressor. Nasci transgressor, vou morrer transgressor. Não sei ser de outra maneira.

 

– E a música brasileira, está careta também?

– Ouço dizer que a música brasileira sofre uma crise. Não acho que haja crise de criação. O que há cada vez mais é dificuldade de mostrar seu trabalho, de chegar a tocar numa rádio. A gente sabe que tudo é jabá, tudo funciona com dinheiro, tudo pago. Essa dificuldade cria essa mentalidade de que há uma crise, porque chega muito pouca coisa ao ar. Mas se você procura, você encontra. Esse meu trabalho é o resultado disso, uma prova de que tem coisa muito boa por aí.

 

– Você disse que não vive de passado, não é saudosista. Mas em todos esses anos, algum momento é especial?

Estou sempre em busca do que está por vir, meu caminhar é para frente. Mas me lembro de momentos marcantes, que determinaram mudanças em minha vida. "O pescador de pérolas" foi um e "Bandido" foi outro. "Bandido" foi um momento em que eu deixei de ser um ex-Secos e Molhados e tive uma carreira própria. E "O pescador de pérolas" foi quando provei a mim mesmo que eu não era meramente um camarada que se fantasiava e ficava nu se requebrando. Quis me testar pra ver se eu era ou se não era cantor: pus um terno branco e não mexi um dedo.

 

– Esse rótulo de "camarada que se requebrava" já te incomodou?

– Me incomodava muito na época. Hoje não preciso ficar preso a nenhum rótulo que me dêem. Já fiz de tudo no palco, já experimentei meu talento de diversas formas. Hoje nada me incomoda.