Tópicos em alta: cartas a jf / sergio moro / dengue / polícia

Outras Ideias com Luiz Carlos Cardoso

Raquel, Inês, Luiz e Ludimila cantam e vivem a família em seus sete álbuns (Olavo Prazeres) Para muitas situações, 12 dificilmente será um número superlativo. Para filhos, porém, exprime um excesso árduo, custoso e altamente complexo. Luiz Carlos Cardoso cresceu rodeado por 11 irmãos, numa casa onde a escassez nunca foi sinônimo de distâncias. Na […]

Por MAURO MORAIS

27/12/2015 às 07h00

Raquel, Inês, Luiz e Ludimila cantam e vivem a família em seus sete álbuns (Olavo Prazeres)

Raquel, Inês, Luiz e Ludimila cantam e vivem a família em seus sete álbuns (Olavo Prazeres)

Para muitas situações, 12 dificilmente será um número superlativo. Para filhos, porém, exprime um excesso árduo, custoso e altamente complexo. Luiz Carlos Cardoso cresceu rodeado por 11 irmãos, numa casa onde a escassez nunca foi sinônimo de distâncias. Na tempestade, filhos e pais se uniram ainda mais. Nos muitos vendavais que enfrentaram, se ampararam na fé. E seguiram juntos. “Eles não tinham sapatos. Temos uma foto que mostra quando todos os primos ganharam apenas um par. Meu pai tirou a foto com um pé calçado, o outro escondido. E outro primo usou o segundo pé do sapato. Os que ficaram atrás estavam todos descalços”, conta a filha de Luiz, Raquel Cardoso. “Era uma questão de escolha: viver sozinho ou se unir para ter força?”, indaga ela.

Aos 60, com poucos e grisalhos cabelos e muitos e grandes sorrisos, Luiz exalta o que a infância lhe ensinou: “Não me vejo fora da minha casa. Minha família me inspira e me alimenta”. À sua volta, Inês, com quem está junto há mais de 32 anos, e as filhas Raquel e Ludimila. À sua volta, a música na qual acredita. Por que fazer música gospel?, pergunto ao fundador da banda Vinho Novo, que completou 25 anos de estrada neste 2015. “É o que nos inspira mais, o que está mais próximo de nosso coração. O principal ponto do gospel é a família. Não adianta falar uma letra linda, se não vivo bem com meus próximos.”

O conteúdo continua após o anúncio

‘Tudo posso’

O pai de Luiz era corretor imobiliário, vivia às voltas com casas, mas gostava mesmo de gente. “Ele cuidava da família e de um rebanho maior, por ser pastor e regente de coral. Ele discipulou os 12 filhos, e crescemos nesse convívio”, conta Luiz, um homem que cita trechos da Bíblia e reconhece alguns excessos e radicalismos do meio evangélico. “Jesus dá outro motivo para viver, porque tudo aqui é muito efêmero. A própria Bíblia fala que tudo que vier à mão para fazer, façamos com toda a força”, diz ele, que, há cerca de 20 anos, estava no carro que seguia para um importante show no Rio de Janeiro. “No início do nosso ministério, fomos fazer um show na Lagoa, com todos muito entusiasmados, contando com a participação de um saxofonista famoso, e nosso carro caiu na Serra de Petrópolis. Foi ribanceira abaixo e ficou preso numa árvore”, lembra. Todos se salvaram, e a fé, segundo ele, indicou que seguissem na vida e na música. “Quando Paulo fala ‘Tudo posso naquele que me fortalece’, fala de passar necessidades de pão, de emprego, mas não fala de muito dinheiro. Paulo era um construtor de tendas e vivia de ofertas pequenas. O cristianismo em que acreditamos em casa nos mostra que é preciso viver para nós e para os outros”, comenta, para logo concluir: “Religião não é um rótulo, mas um estilo de vida”.

‘Esforça-te’

Até criar, ao lado da esposa, a banda Vinho Novo, da qual é violonista, vocalista e compositor – com canções gravadas por diversos artistas brasileiros e executadas, até, em igrejas católicas -, Luiz trilhou um extenso caminho na música. “Sempre trabalhei com a canção, desde novinho. Tive algumas bandas locais, depois fui para São Paulo, para um banda muito boa, com 30 discos gravados, chamada Vencedores por Cristo. De lá, fui para Belo Horizonte, onde montei um quarteto vocal feminino. Depois fui para o Rio e voltei para Juiz de Fora”, destaca. “A música gospel não era esse filão, como é hoje. Era romântica, agora é um meio de vida. Sempre trabalhei com a música como missão”, completa ele, que já vendeu mais de 50 mil cópias de um dos sete discos lançados, que chegaram à Europa e aos Estados Unidos. Aposentado como professor de educação física, Luiz se dedica à banda e, principalmente, à família. “Quem está em missão não se vê aposentado”, brinca, logo citando o bíblico Isaías: “Um ao outro ajudou, e ao seu irmão disse: Esforça-te”.

‘Uma só carne’

A música, como diz Luiz, não é apenas hobby, mas uma comunhão. E o projeto não é “arrebentar na mídia, mas o quê e como fazer para ser útil”. Interessa-lhe, muito mais que o som, a palavra e o gesto, cuidados e carinhos repassados às filhas. “Nossa família é um espelho para mim, tanto pelo carinho que me dão, quanto pelo caráter que têm, além do relacionamento do meu pai com minha mãe. Os problemas são iguais para todo mundo: a falta de dinheiro, doença na família, morte de pessoas queridas. O que altera é como você escolhe mudar”, diz a serena Raquel. “Nosso cunho é viver o cristianismo de forma autêntica, sendo o que a gente prega”, conta Luiz, que, para o próximo ano, pensa nos mais de cem familiares: “Quem sabe reunimos, no palco, toda essa família?” Inspiração para dias sombrios, de guerra e distâncias. Inspiração quando família mostra-se um dos conceitos mais urgentes. Inspiração que mostra um Deus que é, acima de tudo, casa.

Receba nossa
Newsletter

As principais notícias do dia no seu e-mail



Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é dos autores das mensagens.
A Tribuna reserva-se o direito de excluir postagens que contenham insultos e ameaças a seus jornalistas, bem como xingamentos, injúrias e agressões a terceiros.



Leia também

Desenvolvido por Grupo Emedia