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No sertão, sem preconceitos


Por MÁRCIO CORINO

27/11/2012 às 07h00

A grande atração do segundo dia do Festival de Cinema Primeiro Plano é o filme "Kátia", dirigido pela cineasta e professora do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Juiz de Fora, Karla Holanda. O longa, centrado na figura de Kátia Tapety, a primeira travesti a se eleger a um cargo político no Brasil, foi selecionado pelo Prêmio Petrobras de Cinema, na categoria longa/digital, em 2010. O filme, finalizado em 2012, já foi exibido nos festivais de cinema de Brasília e na Mostra Internacional de São Paulo. "Já havia feito uns 15 curtas e médias, a maioria sem patrocínio. Com ‘Kátia’, pude fazer o filme que pensei. O patrocínio foi fundamental para que eu pudesse obter as condições de produção necessárias", afirma Karla.

Embora a diretora seja do Piauí, foi quando morava em São Paulo que ouviu falar sobre Kátia pela primeira vez, através de jornais e da internet. "Ela já era uma figura midiaticamente conhecida. Seu sobrenome me chamou a atenção. Tapety é uma das famílias mais tradicionais ligadas à política do estado", explica Karla, que destaca a representatividade da trajetória da protagonista. "O que mais me impactou foi o fato de uma forte história de ruptura com os modelos convencionais, que a trajetória de Kátia representa, vir justamente de um dos estados mais pobres do país e, precisamente, de uma pequena cidade cravada no sertão, geralmente associado a terra de ‘cabras machos’, como se ali os preconceitos, naturalmente, aflorassem mais. E não era nada disso. A possibilidade de abalar estereótipos me motivou bastante a levar adiante o projeto do filme."

Nascida no sertão do Piauí, uma das regiões mais religiosas e conservadoras do estado, Kátia Tapety, hoje com quase 60 anos de idade, batizada com o nome de José Nogueira Tapety, foi eleita a vereadora mais votada do município de Colônia do Piauí por três vezes seguidas e exerceu o cargo de vice-prefeita entre 2004 e 2008. Morou com seu companheiro por mais de 20 anos e foi "mãe" de três filhos. "Kátia contou para nossa equipe que seus irmãos saíram da cidade para estudar, primeiro em Oeiras e depois em Teresina ou outras capitais. Ela ficou. Seu pai não deixava que ela estudasse em colégios para não expor ‘o filho afeminado’. Nem à missa podia ir. Quando ia, levava uma surra. Ela era criada para cuidar dos bichos", conta a diretora.

O processo de construção do filme começou em 2007, quando Karla achou o número do telefone de Kátia na internet. O primeiro encontro aconteceu em janeiro de 2008, na cidade de Oeiras. De lá, foram até Colônia do Piauí, onde mora a protagonista. "Gravei conversas com ela e com outros, paisagens da região e ambientes familiares com uma pequena câmera. Trabalhei naquele material pesquisado. Em 2010, saiu o resultado do edital da Petrobras, e em maio do mesmo ano voltei a Colônia. Muito havia mudado. Kátia não havia conseguido se reeleger vereadora, seu casamento acabou, seu ‘filho’ já não morava com ela, e o ex-companheiro não queria participar do filme. Mudanças de rumo no roteiro. Na verdade, a cada encontro, novas mudanças, novos rumos. As filmagens mostraram que o roteiro seria só um pontapé, tudo mudava a cada instante", lembra Karla, que voltou à cidade outras vezes, filmando 30 horas, que, editadas, resultaram no filme de 74 minutos, exibido hoje e também no dia 19 de dezembro, às 19h, no Mamm.