Edmon Neto lança ‘O desportista na cama’, seu primeiro livro

Escritor, professor e músico lança livro que reúne poemas escritos principalmente a partir de 2018


Por Cecília Itaborahy, sob supervisão de Fabíola Costa

27/09/2022 às 07h00- Atualizada 27/09/2022 às 11h56

Edmon Neto
Edmon Neto estreia com livro de “poeta e acadêmico que um dia fez levantamento de peso” (Foto: Divulgação)

Tem quem prefira ler as revistas de trás para frente. Os motivos podem ser vários. Para a entrevista com o multifacetado Edmon Neto, que lança em Juiz de Fora seu primeiro livro, “O desportista na cama”, no dia 6 de outubro, comecemos por sua conclusão: “Mas o que vale a pena mesmo é ter coragem”. Isso faz sentido porque é exatamente a coragem que permeia seu livro de estreia, desde a vontade de publicar aos temas dos poemas. Professor, cantor, baterista, acadêmico, escritor, vivente, medroso e esperançoso – suas funções se apresentam, cada uma de sua maneira, em uma publicação que é uma ode ao ato de escrever e à persistência daqueles que escrevem e que, assim como os atletas, têm sua coreografia: “(com a escrita) aprendemos a formular melhor as nossas perguntas e a treinar melhor os nossos dribles”.
“Que decisão a terra toma/ para dar cabo à vida nova?”, questiona Edmon no livro. É uma decisão em meio a essa rotação da terra que fez com que ele encontrasse coragem de expor seus textos. Primeiro, com o empurrão do professor e escritor Fernando Fiorese. Ele perguntou por que Edmon não lançava seus poemas, ao que esse respondeu que havia muita bobagem escrita. Fiorese, então, retrucou: “Às vezes é preciso publicar inclusive as bobagens”. Outros acontecimentos foram sendo somados nesse caminho, até, por fim, a publicação de “O desportista na cama”, por meio da editora Urutau. “Depois de rever muitos materiais e descartar as bobagens impublicáveis, acredito que escrevi um livro de muitas facetas e com certa inquietação de formas poéticas que deixam entrever a experiência com a linguagem. Ou podemos dizer que é um livro de poeta e acadêmico que um dia fez levantamento de peso e resolveu misturar tudo isso.”

O escritor e o atleta

A maior parte dos poemas foi escrita a partir de 2018. Cada seção recupera um contexto vivido da forma mais íntima por Edmon, nas viagens, escritas como relatos de maneira tardia, ou seja, já na volta, nas percepções pandêmicas de crescimento e mudança das plantas e no esporte. Atleta e poeta trilham caminhos conjuntos no livro que, não à toa, recebe esse nome. Essa relação foi sendo desenvolvida à medida em que Edmon foi, pelo seu corpo, vivendo essa comunhão, e à medida em que lia textos de outros pensadores que já partilhavam atitudes parecidas. O nome do livro foi recuperado de uma frase do poeta francês Henri Michaux: “Le sportif au lit”, que, em tradução livre, é, exatamente “O desportista na cama”: seu “roubo” declarado.
Gilles Deleuze, em “A literatura e a vida”, sugere que a leitura é atividade física, e o escritor, um atleta. “Tanto essa imagem quanto essa ideia me impressionaram e passei a persegui-las desde então. Tudo se intensificou quando comecei a praticar levantamento de peso e a levar algumas reflexões para a minha própria pesquisa, em que busquei uma aproximação entre atividade física e intelectual. Por isso, ‘O desportista na cama’ também é um desdobramento de um trabalho acadêmico, e como tão bem captado pela poeta Laura Assis (na orelha do livro), é uma ‘espécie de culminância de esforços que leva às últimas consequências as disputas entre corpo e linguagem’. Quais os limites do corpo? Quais os limites da linguagem? Eu ainda carrego essas perguntas.” E tudo isso fica claro na seção de abertura do livro e na que faz o fechamento e diz: “Decidir já é levantar”. Tal como um levantador de peso que decide, então, unir suas forças para subir um peso maior que o próprio corpo, o poeta decide unir suas aspirações externas (e até internas) ao corpo e as fazer reverberar.

EDMON capa divulgacao
(Foto: Divulgação)

Falando com seu tempo

“Acho que trabalhei bastante com as minhas memórias, e talvez esses poemas já estivessem em gestação em algum lugar do meu corpo”, acredita Edmon. “Gosto de acreditar que as coisas escritas não precisam de definição imediata. Na verdade, talvez seja nessa que resida a poesia. E como muitos já disseram, ela pode estar em qualquer lugar. A poesia pode estar no sublime ou no gesto cotidiano mais comezinho. Resta saber como ela, a própria poesia, lhe afeta. Ou melhor: resta saber como transformar o que lhe afeta em palavra poética.” Como crônicas, além das memórias, Edmon fala sobre aquele que chega até ele, habitando sua casa, seu corpo e as ruas, como um observador atento às mudanças. “Mesmo que eu não saiba sobre o êxito da minha escrita, isso é o que mais me interessa hoje. Falar com o meu tempo.”
E falar com o tempo e sobre o tempo, muitas vezes, pode ser doloroso pelos obscurantismo tantas vezes citados nas páginas de “O desportista na cama”. Edmon diz que uma das seções, a “Dísticos para dois”, é um dos poemas que ele evita ler: o leva a lugares onde ele não quer mais estar. Mas é dando aula, fazendo música e escrevendo que ele foge disso. “No fim das contas, acho que é possível encontrar uma solução amalgamar em que eu possa ser músico-escrevente, professor-cantador, poeta-literato, ou quaisquer outras combinações não estanques que me possam ser atribuídas. Mas o que vale a pena mesmo é ter coragem”, para voltar ao começo de tudo.