Emoção é de quem sente
Toda obra de arte deve tocar? Só é arte se emocionar? Todo artista produz com a intenção de inquietar? Qual a relação entre o desassossego e a comoção que uma obra artística pode causar? Essas e muitas outras questões, aparentemente controversas no universo das artes visuais, pode ser respondida de maneira simples através da trajetória de Tomie Ohtake. Nascida no Japão, em 21 de novembro de 1913, e radicada em São Paulo desde 1936, a artista de paleta sóbria e gestos precisos é capaz de arrancar lágrimas com suas obras abstratas, amplamente sugestivas. Munida de altas doses de sensibilidade, a senhora de cabelos pretos e aparência frágil não se rende aos sentimentalismos, recusando os contornos afetivos de seu exercício. "Nunca pintei com o emocional. Sempre pintei mais friamente. É sempre colocando camada, camada, camada. Colocando muitas cores, camada, camada, até chegar onde eu quero. O gesto era bem mais calmo, caía sempre sobre a tela e seguia uma direção que era mais mental", explicou em depoimento para a retrospectiva apresentada em 2000, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro.
Aos 23 anos, para visitar o irmão que havia emigrado para o Brasil, Tomie foi a São Paulo e por lá ficou, já que não havia como voltar a seu país, na época envolvido na Segunda Guerra Mundial. Casada com um engenheiro agrônomo e exercendo as atividades domésticas, em 1952, já com 39 anos, ela começou a estudar pintura com seu conterrâneo Keisuke Sugano. Um ano depois, passou a integrar o grupo Seibi, que reunia artistas nipo-brasileiros como Manabu Mabe e Flávio-Shiró. "Salta aos olhos uma série de propostas educativas que, se por um lado visa os próprios integrantes do grupo, por outro, e com muito mais ênfase, busca uma expansão de seus horizontes, não só pelo estreitamento dos laços de amizade entre eles, mas, principalmente, pela busca em atingir também pessoas espalhadas pelo interior", destaca o professor do departamento de sociologia da USP Paulo Roberto Arruda de Menezes, no artigo "Grupo Seibi: o nascimento da pintura nipo-brasileira", publicado na 27ª edição da "Revista da USP".
Entre Oriente e Ocidente
Madura ao iniciar sua carreira e estrangeira numa terra dominada por multicores, Tomie Ohtake tornou-se uma artista cuja própria biografia é capaz de localizar a produção. Da caligrafia oriental ao informalismo europeu, cujas matérias utilizadas nas obras conduzem e indicam o resultado final, passando pela típica pintura sumi-ê de sua Kyoto natal, a artista buscou um caminho original e nem um pouco literal. Talvez, por isso, não assuma a emoção como princípio motor. O caminho percorrido pela quase centenária foi gradativamente planejado e executado. Partindo do figurativo, ela alcançou a abstração que não resvala em ausência de sentido, mas sugere sem ser óbvia. "O trabalho dela é de muita coerência e qualidade. Em certas fases, ela tem uma abstração informal, em outras mostra uma pintura meticulosa, com pinceladas calculadas, de muito rigor e depuração. A produção dela passa por várias fases", analisa o professor do Instituto de Artes e Design da UFJF Ricardo Cristofaro.
Segundo o curador e crítico Paulo Herkenhoff, a produção de Tomie pode ser vista pela ótica precisa e objetiva do zen-budismo. "O gesto é calculado, disciplinado, não ansioso, despregado de qualquer outra intencionalidade que não seja se revelar como superfície. A pincelada é comedida, repetida e aí encontra, no espaço mínimo, a possibilidade da diferenciação no momento vivencial irrepetível propiciado por cada uma delas", aponta Herkenhoff em ensaio sobre o trabalho da artista. Apesar de alinhada à corrente do abstracionismo informal, na qual se inserem os integrantes do Seibi, a artista transitou por diferentes linguagens e expressões. Para Cristofaro, o rótulo se deve a uma tradição da historiografia da arte e é difícil de ser aplicado a Tomie, dona de uma longa e diversificada trajetória. "Acredito que a própria origem, oriental, e o início tardio justifiquem essa contenção e aparente simplicidade da Tomie Ohtake", sugere o artista plástico Petrillo.
Considerada uma das artistas mais caras do país, Tomie Ohtake possui em Juiz de Fora ao menos três trabalhos em coleções locais. Adquirida em 2001, com a finalidade de compor o acervo da galeria Hiato, Petrillo, artista e coordenador do espaço, não resistiu e acabou levando para casa a gravura em metal da nipo-brasileira. "Gosto muito da simplicidade e contenção dela. É um trabalho muito contemplativo", comenta, dizendo apreciar bastante as esculturas da artista, como os tubos de aços da série "Ultramarinho" que se contorcem em movimentos fluidos, presentes tanto no instituto que leva o nome de Tomie quanto no jardim frontal do Museu de Arte Contemporânea da USP.
Doada ao Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm) pelo Museu Chácara do Céu, do Rio de Janeiro, a gravura de 1995, que integrava o projeto "Amigos da gravura", desenvolvida pela instituição carioca, é um dos dois trabalhos de Tomie na casa do poeta juiz-forano. O outro, ofertado pelo Banco Bozano, Simonsen, é uma serigrafia da série "Eco art", e esteve em exposição no último ano. A obra original, uma pintura, integrou a mostra que ficou em cartaz no Museu de Arte Moderna durante a Eco 92, reunindo 120 pintores, de 22 países das Américas. "Essas obras que compõem o acervo, embora de projetos diferentes, mantêm a expressividade e precisão, unindo tradição e dados contemporâneos, resultando em síntese perfeita entre a força da técnica e a beleza das formas", avalia Paulo Alvarez, responsável pelo setor de expografia do Mamm.
Dessa expressividade do trabalho de Tomie surge uma inevitável emoção. De acordo com Ricardo Cristofaro, ao se dizer fria, Tomie Ohtake revela sua consciência de como fazer para alcançar um resultado desejado, mostrando-se plena de controle da própria obra. "Ao afirmar isso, ela se coloca como uma operária, uma pessoa que sempre se dedicou muito ao trabalho, criando circunstâncias para que ele aconteça. O trabalho em si é resultado de uma sensibilidade que podemos entender de diferentes formas. Essa é a riqueza da arte", observa o professor. "A emoção, na verdade, é consequência do trabalho e do contato com o espectador. A emoção também pode ser de quem recebe, de quem frui a obra", defende Petrillo.









