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Diário de bordo


Por LINDEMBERG NUNES REIS, ENGENHEIRO ELETRICISTA

27/03/2013 às 07h00

Sabe aquele conceito que temos quando pensamos em um deserto?

Sim, estou falando de associarmos o deserto a um lugar cheio de areia, com um sol escaldante durante o dia e um frio extremo durante a noite, com pouquíssima vegetação e com raros animais habitando – entre eles escorpiões, lagartos e camelos – e com aquela escassez de água que nos faz sentir sede só de pensar. Pois bem, eu diria a você que deveria rever seus conceitos.

Proponho pensar num deserto diferente. Substitua a areia por sal. Considere uma temperatura amena durante o dia e continue certo de que o frio durante a noite é de cortar a pele. Continue certo também de que a vegetação é rara – existindo uns poucos cactos, um aqui e outro acolá – e que os animais mais parecidos com camelos se chamam lhamas e medem menos que a metade do tamanho de um dromedário.

Esse lugar se chama Salar de Uyuni, a maior planície salgada do mundo, e está localizado no sudoeste da Bolívia – chegando até próximo da divisa com o Chile -, num lugar comumente chamado de altiplano andino, a cerca de 3.650m de altitude. Esse deserto é tão lindo, com belezas tão particulares, que é classificado como a primeira maravilha natural do mundo.

Para chegar não é fácil. O trajeto mais comum feito pelos brasileiros é o seguinte: um voo sai do Brasil e segue até La Paz, a capital boliviana. Depois, uma viagem de ônibus por, aproximadamente, 11 horas a fio (geralmente das 21h de um dia até as 8h do dia seguinte), sem nenhum ponto de parada e com estradas beirando a calamidade. Por fim, chegue à cidade que dá nome ao deserto: Uyuni. De Uyuni, um veículo de tração 4 x 4 faz o passeio de dois dias que, garanto, é inesquecível!

No primeiro dia, sugiro a entrada no salar passando pelo cemitério das máquinas, onde máquinas a vapor, vagões e linhas férreas estão literalmente enferrujando e sendo corroídas pelo sal (já que o governo boliviano achou por bem parar de escoar minério para o sul do país por aquele meio de transporte). Em seguida, conheça o Hotel de Sal, onde tudo é feito com sal, desde os blocos da construção até as cadeiras e as mesas da cozinha. Por último, o dia lhe reserva um pôr do sol magnífico.

No segundo dia – após dormir em um vilarejo cuja eletricidade só está disponível das 19h às 21h e onde tomar banho é, de fato, um ato heroico dado o frio intenso -, indico acordar às 5h e seguir rumo a um lugar pitoresco, cujo trajeto leva o dia inteiro. Estamos falando da Laguna Colorada. O lago, de cor avermelhada e habitado por flamingos de todas as formas e cores, é o que poderíamos chamar de um oásis no deserto. O lago contém ilhas de bórax, cuja cor branca contrasta com a cor avermelhada de suas águas, resultado de sedimentos vermelhos e pigmentação de algumas algas.

Extremamente cansado pela jornada vivida até aqui, mas com a certeza de ter conhecido um dos lugares mais fantásticos do mundo, terminei a viagem e retornei à cidade de Uyuni, e fui mais ao sul da Bolívia e conheci os gêiseres bolivianos. Mas isso eu conto depois!