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Dudude Herrmann celebra 40 anos de carreira em BH


Por RAPHAELA RAMOS

27/03/2012 às 06h00

"Tenho para mim que foi de um dia para o outro." Uma frase da maturidade. Questionada sobre as dificuldades da interrupção de uma história de 15 anos à frente da Benvinda Cia. de Dança, a bailarina, improvisadora e coreógrafa mineira Dudude Herrmann traz à superfície o que aprendeu sobre o desapego. "Difícil é a vida", diz ela, ressaltando que a linguagem da improvisação a ajudou a se relacionar com o próprio trabalho usando afeto medido. A Benvinda, que se destacou pela criação de uma linguagem particular, chegou ao fim em 2007. Mas o tempo agora é de outras conquistas.

Ao completar 40 anos de carreira, Dudude, considerada uma das pioneiras da dança contemporânea no Brasil, acaba de lançar em Belo Horizonte seu primeiro livro "Caderno de notações – a poética do movimento no espaço de fora", com patrocínio da Wärtsilä através da Lei Rouanet. "Ele escolheu a hora certa para chegar ao mundo material. São ao todo 400 páginas, com um DVD encartado", explica a coreógrafa, de 52 anos. No último final de semana, ela comemorou sua trajetória artística com o evento "Uma andorinha só não faz verão". Além de mostrar sua publicação aos espectadores, Dudude dividiu o palco com amigos em performances e concertos para dança e violão. Em breve, conta ela por telefone, pretende trazer a obra para Juiz de Fora.

 

 

Tribuna – Ao completar 40 anos de carreira, o que pensa a respeito da arte? E sobre a escolha de se dedicar a ela?

Dudude Herrmann – O fazer artístico é algo viciante, maior que o indivíduo. Por exemplo, onde estou com a cabeça para fazer um evento como esse (comemoração pelos 40 anos de carreira) em BH? Vou seguindo as pistas e os desejos de compartilhamento, aí, dá nisso (risos). A arte para mim é um lugar de potência, de descoberta. É um alimento fundamental para o exercício da sensibilidade. Considero indescritível ter acesso a um alimento que trabalha a favor da percepção de mundo, que aguça a curiosidade, altera o olhar e, por vezes, modifica os hábitos.

 

– Desde o início, essa foi a direção da sua procura?

– Graças a Deus, nunca busquei nada. Não tive tempo para me perguntar o que queria ser quando crescesse, porque a vida não para. Não dá para ficar pensando enquanto as contas vencem. Precisei arranjar um jeito de me virar. Tive filho cedo. Sempre com muito humor, fui trabalhando enquanto me divertia, crescia e aprendia a compartilhar. Na verdade, o artista no Brasil se reinventa o tempo todo. Não é possível manter um viés só. Por um lado, isso é bom, mas, por outro, a inconstância exige muito. Aí entra a criatividade. Quando não há dinheiro, lança-se mão da criatividade e da simplicidade.

 

– Que tipo de relação você mantém com seu corpo hoje e quais as principais mudanças nesse sentido desde o começo da sua trajetória?

– Tenho 52 anos e danço com meu corpo de hoje. Não posso querer voltar e dançar com meus 14, 20 ou 30 anos. Sigo adiante. Não se pode esquecer que a dança, além de ser uma atividade que promove a beleza e o entretenimento, é uma linguagem de expressão. Portanto, ela não é só demonstração de serviço: levantar a perna até a cabeça, fazer certinho. Eu, aliás, sempre gostei de fazer tudo torto. Tive uma boa escola, bons professores e autonomia. O Grupo Trans-Forma, do qual fiz parte na década de 1970, foi o primeiro de dança contemporânea em BH e um dos pioneiros do Brasil. Era uma escola que deixava a gente fazer. Entrei com 12 anos e fui fazendo.

 

– Mas você passou pela rigidez do clássico?

– Sim. Experimentei todo tipo de dança. Sou, aliás, uma artista misturada. Não me considero só da dança. Ela é minha primeira habilidade, mas também tenho relação com artes visuais, música, escrita, numa ampliação de fronteiras continuada.

 

– Por que a Benvinda Cia. de Dança chegou ao fim após 15 anos?

– A gerência de uma companhia é enlouquecedora. Concluí que escolas e grupos livres têm tempos finitos, pois não há suporte. O único suporte é a resistência dos artistas. Na Benvinda, cheguei ao ápice e decidi parar, senão enlouqueceria. Em vez de fazer o que estudei, havia me transferido para o computador. Para quê? Com o tempo, aprendi a exercitar o desapego e a ter sangue frio. Hoje, se desenvolvo um trabalho e morro na praia, simplesmente digo: "sinto muito, não posso continuar". Antes, sofria se não tivesse mostrado o suficiente. Aprendi, mas sem deixar de achar isso um horror. Tanto que fui desviando meu caminho por escolha e me aproximando da linguagem de improvisação. O improvisador treina e cria performances com custos reais. A mesma performance pode ser feita com uma, duas ou três pessoas. O cenário é aquele que está ali, a roupa é aquela que se tem. Trata-se de uma atitude política. Escolho linguagens mais imediatas para estar no campo da expressão, já que não conto com muitas formas de viabilização.

 

– Quer dizer que a atitude política supera a opção estética?

– Sim. E isso não acontece somente na dança.

 

– A Benvinda se propôs a desenvolver uma linguagem particular, valorizando movimentos cada vez mais orgânicos. Como você explica a invasão do cotidiano na dança?

– A dança descobriu a rua por ser mais viável. Na rua, há contato direto com o transeunte, o artista se coloca à prova, mistura-se mais diretamente com outros pensamentos. A arte como um todo se aproximou do formato da performance pelos motivos que falei antes. A performance é campo híbrido, permite que todas as habilidades bebam na mesma fonte e sejam mais imediatas.

 

– Em sua pesquisa "Poética de um andarilho – a escrita do movimento no espaço de fora", você habitou praças ao longo de 12 meses, observando o movimento urbano. Quais as principais descobertas e reflexões trazidas por essa experiência?

– Fui para a praça de segunda a sexta, como um bom funcionário público, com desejo de me alimentar. Desejo de entendimento da conexão entre arte e vida. Faço meu trabalho a partir da observação da vida, daquilo que sobra dela – ou lhe falta.

 

– Você lançou seu livro "Caderno de notações – a poética do movimento no espaço de fora" em Belo Horizonte. Como ele foi costurado?

– O livro possui uma veia poética, porque o escrevi apenas quando estava em trabalho, nas praças JK (Mangabeiras) e Duque de Caxias (Santa Tereza). Terminei em 2004 e o fechei. Depois, entrei na saga de fazer projetos e procurar patrocinadores. Consegui um apoio em 2009. Nesse período, a Viviane Gandra (que assina a edição final) convidou o artista Marcelino Peixoto para fazer a primeira leitura e "limpar" o trabalho. Ele deu o tom do livro, tirou as gorduras. A obra é cheia de aforismos, quase haicais. Vem de uma prática da observação do movimento por alguém que dança, mas os assuntos são os da vida.