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A sétima arte perdeu seu protagonismo?


Por MARCOS ARAÚJO

27/01/2015 às 07h00

Cleber Eduardo (à esquerda), Francis Vogner dos Reis (centro) e Felipe Bragança (à direita) discutem os rumos do cinema na atualidade

Cleber Eduardo (à esquerda), Francis Vogner dos Reis (centro) e Felipe Bragança (à direita) discutem os rumos do cinema na atualidade

“No escurinho do cinema, chupando drops de anis”, diz a música “Flagra”, de Rita Lee. Ao entoar esses versos nos idos dos anos de 1980, a cantora deu destaque a um hábito que atravessou o século XX, época em que a sétima arte era considerada protagonista na divulgação da imagem em movimento. Essa forma artística, desde que foi criada, ajuda muita gente a se descobrir e também a enxergar o próximo, conhecer outros tempos, outras culturas, outros territórios. Não serve apenas para contar histórias, tem um importante papel na constituição do que somos, uma vez que, como espelho, às vezes desfocado, reflete a realidade. Entretanto, uma nova era se impõe, e as imagens, antes limitadas à caixa escura, ganham novas formas de escoamento em função da internet, onde diversos canais possibilitam e facilitam vários tipos de acesso. Não se admira mais o fato de um filme poder ser visto por meio de celular, algo jamais vislumbrado no passado. A diversidade de maneiras de contato com as imagens muda a relação das pessoas com o cinema e faz pensar qual o papel dele na sociedade contemporânea. Essa reflexão é o tema principal que move as discussões na mineira Tiradentes, onde se realiza, desde a última sexta-feira, a 18ª Mostra de Cinema, que se encerra no próximo dia 31.

O crítico de cinema e roteirista do filme “Jogo das decapitações”, Francis Vogner dos Reis, lançou a pergunta: “Qual o lugar do cinema neste mundo contemporâneo, no qual existem infinitos meios de produção e distribuição das imagens, como o YouTube?” Na visão dele, a relação da imagem com o espectador é fundamental, uma vez que este deve ser tomado como refém pelo cinema e depois devolvido ao mundo de outra maneira, tocado pela magia cinematográfica. Porém, esse vínculo vem sofrendo impactos, já que o cinema perdeu seu protagonismo. “Hoje, ir a uma sala de exibição, com pessoas diferentes, está cada vez mais raro. Assim, há uma mudança nessa relação com o que vemos e, claro, isso provoca consequências, inclusive política, no cinema, que já não tem mais a centralidade da produção audiovisual”, destaca Francis.

Imagens fragmentadas

Para o também crítico e curador da Mostra de Cinema de Tiradentes, Cleber Eduardo, o mundo tornou-se imagético e fragmentado, o que fez mudar a percepção das pessoas quanto ao cinema. “A sala escura e silenciosa quase não vemos mais, já que a sessão pode ser cortada pela chamada de um celular, por uma mensagem, o que nos leva a crer que a relação do espectador com o cinema mudou, uma vez que há diversas plataformas nas quais o silêncio, por exemplo, não se faz necessário, como a televisão. Acaba que as pessoas estão levando isso para o cinema”, pontua o curador. Ele ainda acrescenta que, num mundo no qual a arte cinematográfica está em constante disputa, ela precisa se fazer resistente para conviver com as outras possibilidades.

“Isso já tinha acontecido primeiro com o surgimento da TV, quando o cinema procurou fazer frente. Houve nos anos 1950 e 1960 um adensamento dos personagens, principalmente no cinema europeu. Foram propostas estéticas que bateram de frente com o modelo industrial da televisão. O homem, por exemplo, passou a ser representado de maneira mais sombria; o incesto, indigesto para a TV, ganhou destaque como tema nas telonas. Essas foram algumas das armas que o cinema passou a lutar quando começou a perder sua hegemonia. Temos que lembrar, é claro, que as cidades cresceram, ficaram mais perigosas, o que, de alguma forma, inibe a saída das pessoas de casa e, neste sentido, a TV ganha ponto”, enfatiza Cleber, acrescentando que hoje tudo está se convergindo para o Netflix, em que a pessoa se livra do cinema, enquanto espaço, e da grade da televisão. “O espectador tornou-se o senhor do processo, pois só vai ver o que quiser, onde quiser e quando quiser. Esse cinema que obriga a pessoa a ver o filme de uma vez só, pode estar em xeque, já que tudo pode ser fragmentado.”

Com uma visão diferente de todo esse processo, o diretor do filme “A fuga da Mulher Gorila”, Felipe Bragança, que também escreveu o roteiro de “O céu de Suely” e teve uma retrospectiva de seus trabalhos em Los Angeles, Paris e Berlin, dispara que o cinema ainda não acabou, porque nunca existiu. “Ele é uma lenda urbana”, admite o cineasta, que traz outra questão para essa discussão: Qual o lugar do cineasta nesse contexto? “Os diretores estão covardes, estão cagões. Não gosto de pensar o cinema como um bibelô que precisa ser guardado. Acho que os cineastas devem parar de pensar assim e se jogarem no mundo. O cinema tem que sair da resistência e atacar. Temos que parar de tentar proteger esse cinema, joia rara, herança do século XX, e se lançar e desbravar um território que ainda estamos tentando entender”, defende Felipe, insistindo que o cinema é forte o suficiente para se misturar com outras plataformas e tirar disso algo melhor. Ele ainda adverte: “O cinema é tão um delírio, uma lenda, que, na tentativa de protegê-lo, pode-se matá-lo”.