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Tudo começa e termina em Birmingham

Exibição única de “The end of the end” tira fôlego de fãs de várias gerações; confira opinião dos repórteres da Tribuna


Por Tribuna

26/09/2017 às 06h30- Atualizada 31/01/2018 às 13h57

Birmingham, 4 de fevereiro de 2017, é a data da última noite do Black Sabbath na “The End Tour”. Tudo foi filmado mantendo a emoção mais irracional de poder assisti-los ao vivo. ‘The End of the End’ é o nome do filme-documentário, dirigido por Dick Carruthers, que também assinou a gravação do show “Celebration Day”, do Led Zeppelin. A produção terá exibição única, nesta quinta-feira (28), nos cinemas de todo o mundo. Em Juiz de Fora, a apresentação será às 20h. Repórteres da Tribuna, Júlio Black e Carime Elmor assistiram ao filme na semana passada e trouxeram visões particulares e pessoais, bem como suas próprias relações com a banda, formada originalmente por Ozzy Osbourne (vocalista), Tony Iommi (guitarrista), Geezer Butler (baixista) e Bill Ward (baterista).

‘Nunca fomos uma banda da crítica, sempre do público’

Carime Elmor  – Repórter

Quase meio século depois de lançarem seu primeiro single, uma versão de “Evil woman”, composição da banda norte-americana Crow, Ozzy, Tony e Geezer sentem-se como se o Black Sabbath estivesse atravessando seu auge nos últimos anos, em termos de profissionalismo musical e reconhecimento. “Nunca fomos uma banda da crítica, sempre do público”. Crow e Black Sabbath surgiram em 1968, a primeira acabou em 1972. Enquanto isso, os quatro meninos pobres de Birmingham, uma pequena cidade na Inglaterra, estão 49 anos depois, subindo nos maiores palcos do mundo para a The End Tour – 14ª turnê mundial.

Não achariam que o Black Sabbath duraria três ou quatro anos, e eram acusados pelos familiares de estarem perdendo tempo de vida. Tony Iommi afirma que levou uma década para que tivessem algum reconhecimento como banda de rock. A primeira vez que entraram em um estúdio para gravar o álbum “Black Sabbath”, estreia da banda em 1969, o produtor pediu que voltassem para casa e estudassem música. A imprensa de Londres os perseguia, a ponto de pararem, por um período, de dar entrevistas. Tudo sob o preço de se manterem sendo Black Sabbath, sem entrar em qualquer hype das bandas que iam surgindo. Se pararmos para pensar, não há banda que se assemelhe à estética sonora do Sabbath naquela época – apenas muitas que se inspiram neles desde então.

Black Sabbath The End Tour Lucas Elmor
Foto de Ozzy a poucos metros do palco, na “The End Tour”, em São Paulo, feita por Lucas Elmor, irmão de Carime, que apresentou a banda a ela (Foto: Lucas Elmor)

Tony Iommi é o gênio dos riffs, as composições começavam ali. E, como Ozzy afirma, quando parecia que nada, jamais, superaria o de “Iron Man”, ele chegava com um riff ainda melhor. Geezer Butler é o letrista da banda, acusada de magia negra e ocultismo, enquanto na verdade falava bem mais sobre problemas universais, como a guerra e o meio ambiente, algumas vezes sobre amor ou outras interpretações muito pessoais. “N.I.B”, por exemplo, é só como chamavam carinhosamente o Bill Ward de Bill Nib. Também mencionam, em suas letras, as substâncias entorpecentes que fizeram parte de toda a história de criação da banda. Em “Snowblind”, música do álbum “Vol. 4”, de 1972, a palavra “cocaine” é sussurrada ao fundo. Já “Sweet leaf”, faixa do “Master of reality”, de 1971, é uma história de experimentação e encontro com a maconha. Sobre esse disco, eu, Carime, tenho uma história engraçada. Início da adolescência, começando a dissecar os álbuns, fazia downloads repetidos de “Master of reality” por achar que a tosse no início de “Sweet leaf” era um erro no mp3. Inocência.

“The end of the beginning”

Geezer conheceu Ozzy por ele anunciar em um cartaz, logo após sair da prisão, “Ozzy Zig precisa de uma banda”. Ozzy conta em sua autobiografia, corredigida por Chris Ayres, que foi por ele ter seu próprio sistema PA, e não pela sua voz, que foi chamado para cantar com quem se tornaria o baixista do Black Sabbath. Já Tony Iommi conhecia Ozzy da escola e o achava um completo idiota. Até que cinco anos mais tarde, por intermédio do cartaz, foi parar em sua porta junto a Bill Ward. A verdade é que os dois não queriam mais voltar para suas vidas árduas pós-escola, resumidas em prisão e trabalho braçal em fábricas, que inclusive fez Tony perder a ponta de dois dedos em uma metalúrgica. Naquele dia, conversaram sobre o que se passou desde o colégio e resolveram que convidariam Geezer Butler, que havia feito contato com Ozzy dias antes. Assim, o Black Sabbath começou (ou ainda o Polka Tulka Blues Band).

O documentário mostra a admiração que Ozzy e Geezer têm pelo Tony. “Ele é o lutador da banda”, não somente por esse episódio que já passou muitas décadas, mas principalmente por ter descoberto um câncer enquanto gravavam o último álbum de estúdio “13”. Gravou até o fim, continua nos palcos, e o que mais desejavam, em 2013, era que o álbum de retomada fosse o topo, o primeiro lugar, e conseguiram. Mesmo décadas parados, “13” foi um grande triunfo do Black Sabbath, acompanhando o brilhantismo de toda a história da banda.

A retomada do Black Sabbath com o álbum “13”, a turnê do disco, até chegar na “The End Tour” em 2016 foi uma linearidade de sucessos. Talvez, justamente por saberem a hora de parar – o que parece ser uma decisão extremamente difícil. “Não queríamos ficar insistindo em fazer show até se tornar banal ou irrelevante.”

Saíram de cena com um show grandioso, com os três integrantes, fundadores da banda, em um excelente nível musical. Raro uma banda da época de nossos pais que ainda está em produção e planeja um fim tão memorável. Não foi falado a fundo no documentário sobre a decisão de Bill Ward em se manter afastado, desde que se negou a participar do álbum “13” e de outras voltas da banda. Tampouco falaram sobre quem o substituiu nessa turnê, Tommy Clufetos, atual baterista da banda solo do Ozzy Osbourne.

Sentença de morte

Minutos antes de anunciarem o derradeiro show, falaram que se sentiam como se estivessem indo para uma sentença de morte. “Como assim nunca mais vamos tocar essas músicas?!”, se perguntavam. Queriam fazer o melhor show da história do Black Sabbath, esse era o sentimento. Ozzy Osbourne se mostrou, mais uma vez, na “The End Tour”, como o melhor frontman da história. No show em São Paulo, no Alianz Parque, em 4 de dezembro, um dia depois de seu aniversário de 68 anos, repetia seus jargões. Em seu papel de excitar a plateia, chegou até mesmo a abaixar as calças, como de costume. “Isso não chega nem perto de sexo, muito menos álcool e drogas”, afirmou Ozzy sobre a sensação de se fazer um show. Geezer e Tony pareciam estar surpresos com eles mesmos, se entreolhando enquanto tudo fluía como se estivessem de volta às décadas de 1970 e 1980, ou até melhor. “Eu nem chego a ser um bom baixista quando toco com outras pessoas”, disse Geezer no documentário.

O filme mostra cenas de um ou dois dias depois do show em Birmingham, quando foram para dentro de um estúdio e resgataram “The wizard”, “Wicked world”, que não tocavam desde 1968, brinca Ozzy; além de “Changes”, com Geezer e Tony no teclado, e Ozzy com sua voz metalizada que não há outra que se assemelhe. A primeira fala de Geezer, ao encontrá-lo no estúdio pós show, foi: “você cantou muito Ozzy!”

 

A festa acabou, e só cheguei no final

Júlio Black Repórter

Quem é apaixonado por música, de comprar discos até hoje, querer ouvir o álbum até o fim, ficar louca/louco quando precisa parar uma música pela metade, tem seus pequenos/grandes arrependimentos musicais. Como, por exemplo, perder o show do Nirvana no Hollywood Rock. Pois assistir ao documentário sobre o último show do Black Sabbath, que será exibido nesta quinta-feira no UCI, acrescentou a ausência nos shows da banda inglesa à minha lista de arrependimentos que (provavelmente) jamais serão remediados.

Parte por minha culpa mesmo. Sempre gostei do Sabbath clássico, aquele do álbum homônimo, “Paranoid”, “Vol. 4”, mas nunca fui um ouvinte contumaz de “War Pigs”, “Iron Man” (ouvi muito mais a versão fofolete do Cardigans, confesso), “Paranoid”, “Sabbath bloody Sabbath”. Não porque não goste de metal, muito pelo contrário: é mais por ser de uma geração diferente, crescido com new wave, indie rock, grunge, techno, ainda que Sabbath, Slayer, Sepultura e outros sejam do (insira um palavrão impronunciável aqui). E, convenhamos, convivemos com outras pessoas, e não é todo mundo que vai aceitar numa boa acordar sábado de manhã com “Snowblind” e afins.

cult black sabbath
Tommy Clufetos (baterista da banda de Ozzy), Geezer Butler, Ozzy Osbourne e Tony Iommi na turnê de despedida do Black Sabbath (Foto: Divulgação)

Digressões à parte, “The end of the end” serve para anunciar que a festa acabou, e cheguei atrasado. Ou simplesmente ignorei os convites. Afinal, o Sabbath esteve algumas vezes no Brasil desde a reunião da formação clássica – uma delas em dezembro passado, na turnê de despedida – e nunca dei muita bola para a presença dos caras por aqui. E percebi o erro que cometi logo aos primeiros acordes de “Black Sabbath”, que abriu os trabalhos do derradeiro show na terra natal da banda, em Birmingham. Ali estavam dois distintos senhores, Tony Iommi e Geezer Butler, empunhado guitarra e contrabaixo com a excelência que o talento e muitos anos de estrada concedem ao cidadão, com aquele peso lento, arrastado, sinistro, que influenciou bandas como o Soundgarden e Smashing Pumpkins.

E o que dizer de Ozzy Osbourne? A lembrança que tinha do nosso querido devorador de morcegos não era a figura decadente e balofa do primeiro Rock in Rio (a pior de todas), mas a daquele senhorzinho hilário do reality show da MTV, que equilibrava tiradas impagáveis com uma voz arrastada, débil, quase incompreensível, mãos tremendo, aparência senil, que davam a impressão de ser incapaz de dizer quem era e onde estava. Mas Ozzy, no palco, é outra coisa: é um dos maiores frontmen do rock, que pode até andar feito um Mumm-Ra de carne e osso, mas que pula, se comunica com o público e coloca o povo pra cantar, pular, bater palmas, assinar apólices complicadas – e canta maravilhosamente bem, ainda que sem a potência vocal de outrora.

Entremeado por depoimentos da banda a respeito da carreira, os problemas de relacionamento, a decisão de parar, a amizade entre eles, as pouco mais de duas horas de “The end of the end” são – com o perdão do clichê surradíssimo – duas horas da História do Rock passando diante de nossos olhos, que dão aquela vontade de estar lá no gargarejo batendo cabeça e cantando os clássicos como se não houvesse amanhã ou contas a pagar. É a oportunidade de assistir ao Black Sabbath no auge da técnica, senhores sessentões com o vigor de jovens de vinte e poucos anos, mas que tiveram a sabedoria de parar na hora certa. Como disse Tony Iommi em certo momento, ele não quer correr o risco de morrer no palco. Ou nas palavras sarcásticas de Ozzy: “estamos velhos e vamos morrer logo”.

E nisso eles estão certos: é melhor parar no auge do que se tornar paródia de si próprios. Pena que perdi o melhor da festa.

Ozzy por Mário Tarcitano

Black Sabbath Mário TarcitanoO chargista da Tribuna, Mário Tarcitano, foi chamado pelo Ozzy de “um grande artista”. Ao deixar sua marca em um desenho em nanquim feito por ele para o backstage de um festival no Rio, Ozzy assinou e escreveu: “You are a very good artist man, thanks. But I am better”, traduzindo, “Você é um grande artista cara, obrigado, mas eu sou melhor”.

“Quando o Ozzy esteve no Rio para um grande festival de rock em 2006, fui convidado por uma produtora para decorar o backstage do evento com meus desenhos. Podia ter escolhido qualquer desenho já pronto, mas preparei 26 inéditos com a temática do heavy metal. A exposição foi naquele esquema conhecido: ‘não tem grana, mas você vai divulgar seu trabalho’. Pedi à produtora que tentasse conseguir autógrafo de alguma estrela do festival nos meus desenhos, mas não imaginava que ela conseguiria o autógrafo da maior estrela.”