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Como nasce um disco de vinil? Conheça uma das três fábricas do Brasil

Instalada em Petrópolis, Fábrica Rocinante acompanha crescimento da demanda por vinil e prepara expansão da produção


Por Beatriz Bath

26/08/2026 às 06h10

fábrica rocinante discos vinil
Projeto está em fase de expansão e procura receber nomes de destaque da música brasileira (Foto: Divulgação)

Inaugurada em 2021, a Fábrica Rocinante produz discos de vinil em projetos autorais, que vão desde a fabricação do disco ao projeto gráfico, sendo uma das três fábricas que atualmente produzem no Brasil. O espaço fica em Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, e conta com uma extensa fila de projetos e ideias motivadas pelo amor ao disco.

Atualmente, a Rocinante atua com capacidade para prensar milhares de discos mensalmente, e a equipe percebe um crescimento na demanda de discos de vinil no mercado. De acordo com os últimos relatórios Pró-Música Brasil, Relatório do Mercado Brasileiro de Música 2025 e do IFP, o Brasil está na oitava posição do ranking mundial de música gravada, e as vendas físicas cresceram 25,6%, impulsionadas pelos discos de vinil.

A equipe traduz os números ao entender que o consumidor possui necessidades que o digital e o streaming não atendem: a de desacelerar e ter uma relação mais física e mais atenta com a música. Manusear o disco, olhar a capa em tamanho grande, colocar a agulha no sulco – tudo isso faz parte da experiência.

Um ritual sonoro

“O consumidor que busca o vinil tem uma relação diferente com a música. Ele enxerga no formato uma forma de consumir um áudio com mais qualidade e também um valor de documentação histórica e de legado cultural”, explica Wladymir Jasinski, diretor de operações. Por isso, a Rocinante busca se adequar à experiência esperada por quem compra um disco.

O processo de fabricação de um disco envolve engenharia de áudio, química e mecânica, passando por diversas etapas até se transformar no formato encontrado em lojas, sebos e outros. No caso da Três Selos Rocinante e da Gravadora Rocinante, os discos podem ser encontrados no site oficial, além de catálogos de lojistas de todo o país.

Para transformar áudio em algo tátil, a gravação é transformada em sulcos cortados por um torno de precisão em um disco de nitrocelulose, chamado de master. Em seguida, a placa recebe um tratamento químico para receber a eletrodeposição, passando por um processo de galvanoplastia.

A placa, então, se transforma no stamper, a matriz metálica que irá reproduzir os sulcos em cada cópia prensada. Com o stamper em mãos, o disco é produzido a partir de pellets de PVC (pequenos grânulos ou bolinhas de resina termoplástica), aquecidos sob alta pressão. Aí, então, acontece o corte do excesso de material e os discos repousam em bandejas específicas, por 24 horas.

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Foto: Divulgação

A próxima etapa é uma avaliação sonora de controle de qualidade antes de seguir para o encapamento, embalagem e logística. Há também uma avaliação visual durante todo o processo.

A fábrica produz discos de 12 e 7 polegadas, em que cada um é pensado de acordo com o projeto sonoro. O de 12 polegadas é o formato do álbum: em 33 1/3 RPM, com minutagem ideal fica entre 15 e 21 minutos por lado; enquanto o 7 polegadas é o formato do single ou do EP, pensado para poucas faixas: em 33 1/3 RPM, com até 5 minutos por lado.

“Quando a minutagem passa do recomendado, pode comprometer a prensagem, gerar volume reduzido e mais ruído de superfície, por exemplo. Então, na hora de decidir o formato de um projeto, nosso time ajuda a pensar nessas variáveis e como elas impactam na experiência sonora do produto final”, explicam.

Para atender à demanda do mercado e da própria fábrica, a Rocinante está em fase de expansão de sua planta de produção, em que novos processos que fazem parte da fabricação de um disco terão acréscimo de tecnologia, técnicas e equipamento especializado. A iniciativa busca adquirir mais autonomia para os projetos da fábrica.

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Experiência do vinil já nasce na fabricação (Foto: Divulgação)

Além da técnica, a Fábrica Rocinante também está estudando a possibilidade de receber o público em geral dentro de seus espaços. “A ideia de abrir esse tipo de vivência para além de artistas parceiros é algo que faz todo sentido com o espírito da Fábrica Rocinante, que sempre valorizou a experiência em torno do vinil”, destacam.

A ideia também seria um adicional às experiências proporcionadas aos assinantes do clube Três Selos Rocinante, em que é enviado um disco por mês, além de descontos.

‘Gostamos muito do que fazemos, e é por isso que continuamos’

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Equipe da Rocinante busca transmitir a melhor experiência sonora possível por meio do cuidado na produção (Foto: Divulgação)

A Três Selos Rocinante é o selo dedicado a edições especiais e relançamentos em vinil, e funciona de forma bem integrada com as demais operações. É fruto de uma parceria da Três Selos com a capacidade de produção e vocação da própria Fábrica Rocinante. Neste espaço, são materializados novos títulos da música brasileira.

“Hoje, entre gravadora, fábrica e selo, temos uma equipe multidisciplinar que cresceu bastante desde que começamos, cobrindo desde a curadoria e a produção musical até o design, a prensagem, o encapamento e a logística”, destaca Wladymir Jasinski. “É um time que, mesmo maior, ainda trabalha com aquele espírito artesanal do começo, cuidando de cada detalhe do disco.”

A fábrica atua também com produções de outros selos e gravadoras, recebendo a parte de áudio e arte gráfica do contratante e apenas fabricado os discos. No caso dos artistas que gravam com a Rocinante, a experiência envolve todas as etapas. “Artistas, selos e gravadoras independentes têm condições especiais para produzirem seus trabalhos conosco, com tiragem a partir de 100 discos”, destaca Jasinski.

A gravadora atualmente não está com um estúdio próprio, selecionando espaços de acordo com o perfil do artista. Entretanto, isso não impede que o que a equipe vê como o maior diferencial aconteça: o cuidado e liberdade artística. “É sempre uma experiência muito bonita ver um artista acompanhando de perto a transformação do trabalho dele em disco”, contam.

Apesar da expansão do mercado de vinil, existem alguns desafios que aparecem no processo de produção, como o fato de a matéria-prima ser diretamente associada ao petróleo, o que traz consigo questões econômicas e ambientais. A Rocinante busca também ter uma operação sustentável, pensando no impacto ambiental de cada etapa.

Mesmo sendo desafiador, Wladymir defende: “Equilibrar tudo isso com a demanda crescente é, ao mesmo tempo, o maior desafio e a parte mais bonita da aventura. Gostamos muito do que fazemos, e é por isso que continuamos”.

*Estagiária sob a supervisão da editora Cecilia Itaborahy